Tiros que não acertam: há vida pós UPP?

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WhatsApp de Mariluce Mariá Souza, professora comunitária de arte no Complexo do Alemão: no dia 5 de fevereiro, por causa de tiros, não pôde distribuir kits de escola

No meio de múltiplas crises, tiroteios prolongados no Complexo do Alemão e em outras partes da metrópole

Por que você deve ler esse post

O Rio de Janeiro (capital) passou por um período de paz relativa entre 2009 e meados de 2013. Até pouco tempo atrás, mesmo que as UPPs andassem mal, parecia impossível que voltássemos a certos comportamentos pré pacificação. Contudo, em várias partes do Rio, centenas de cidadãos ficam encurralados pela violência. Alunos sem estudo e funcionários sem trabalho afetam a metrópole toda: tiroteios rompem com a rotina, desafiam as normas, perturbam as instituições e quebram a sensação de ordem da qual toda cidade depende para a vitalidade urbana. Diminuem a produtividade e o aprendizado. Traumatizam e, volta e meia, se alastram para além da cidade informal.

O que realmente acontece? Devemos ou podemos nos repensar?

A situação geral é grave no Grande Rio. De acordo com o site e o aplicativo para registro de tiros, Fogo Cruzado, o mês de janeiro passado viu “grande incidência de tiroteios/disparos de arma de fogo em regiões com UPPs. De acordo com informações da imprensa e PMERJ, ao menos 16 regiões com Unidade de Polícia Pacificadora estiveram sob tiros no mínimo 40 vezes”. Morreram 13 pessoas, das quais três policiais militares; houve 16 feridos, sendo seis policiais militares. São Gonçalo, Penha e três shoppings ganharam destaque no relatório mensal do site.

No estado do Rio, neste ano, já morreram 23 policiais militares — nem todos em serviço.

I don't want to die, I want to go to school

Protesto infantil, numa manifestação de julho 2016

O Complexo do Alemão figura nesse quadro. Desde o começo do mês de fevereiro, lá houve três mortos e 12 feridos, de acordo com Raull Santiago, diretor do coletivo Papo Reto, que acompanha, confere e registra os conflitos no Complexo (números oficiais do mês de fevereiro, do Instituto de Segurança Pública, somente em março). No primeiro dia de aulas do ano letivo, dia 2 de fevereiro, a região entrou num inferno particular.

“Isso que me corta o coração”, postou no Facebook Mariluce Mariá Souza, fundadora do projeto social Favela Art, cujas mensagens de WhatsApp constam acima. “Estou aqui em uma área que não tem como eu ir levar todos os materiais pra lá por causa dos TIROS e as crianças tudo la esperando. Como explicar para a criança que não posso fazer isso hoje pq põe em risco as vidas delas ? Como explicar?”

Pouco papo

RioRealblog pediu entrevistas com o major Leonardo Gomes Zuma, comandante da UPP Nova Brasília (que fica no Complexo),  e com o secretário estadual de segurança, Roberto Sá. Sá não respondeu ao pedido, mas chamou uma coletiva no fim do dia de sexta-feira, ao qual RioRealblog não pôde comparecer. Zuma não estava disponível, mas a assessoria de imprensa das UPPs respondeu prontamente, por email, a uma série de perguntas.

De acordo com a assessoria das UPPs, “Somente uma operação foi realizada no Complexo do Alemão na semana passada. Foi na quarta-feira [dia 1], para a retirada de barricadas em diversos pontos das comunidades que integram o conjunto de favelas. Desde então, policiais em patrulhamento em bases das UPPs vêm sendo atacadas por criminosos e foi necessário o reforço do Bope e do Batalhão de Choque. Nessa segunda-feira, 06/02, a situação é tranquila e não foram registrados confrontos até o momento”.

Apesar da situação tranquila no dia 6, houve tiroteios subsequentes. Não se observa qualquer garantia de que outras barreiras não tenham que ser removidas ou que outras patrulhas não irão ser atacadas por criminosos.

“Com frequência, policiais iniciam encontros que os levam, sem necessidade, para tiroteios”, um especialista norte americano em violência urbana comentou numa conversa via Twitter com RioRealblog. “Por exemplo, policiais aqui nos EUA costumavam bloquear os carros de fuga de criminosos, forçando os agentes a atirarem para dentro do carro, na hora que avançasse. Hoje, são treinados a deixar o carro passar”. O especialista opinou que meio termos — tiroteios aqui e ali, por exemplo– produzem resultados pífios. “Com a força, ou você faz um esforço grande ou faz nada. A força esmagadora aumenta a probabilidade de que o outro lado desista”.

Aqui no Rio, a socióloga e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, Julita Lemgruber, também questiona a estratégia policial: “A desculpa é sempre de que a policia se defende dos ataques e nunca que a incursão acontece e os tiros começam. Não é possível que continuemos com esta política de confrontos em nome de um suposto combate às drogas. Esta é a questão. Enfim, acho que hoje não há mais como discutir esta questão da violência policial nas favelas sem discutir a insana guerra ás drogas”, disse ao blog, por Messenger.

Ativistas do Alemão não querem saber dessa guerra. Elaboram, continuamente, protestos e pelo menos um abaixo assinado.

“Acredito que as UPPs falharam e governantes e comandantes não assumem isso,” disse Raull Santiago, numa troca de mensagens pelo WhatsApp. “É impossível dar certo algo que se inicia com a lógica de guerra e apenas isso, sem nada mais a ofertar a população, como verdadeiros serviços básicos. Mas mandaram apenas armas e mais guerra. A polícia não pode mediar sozinha um conflito da qual ela faz parte e há tantos problemas envolvidos”. Diz ele que a polícia devia recolher as tropas.

Ir embora do Alemão, de vez?

“Não acho que o estado deve se ausentar e deixar o pobre para ser governado por grupos de criminosos armados”, diz Ignacio Cano, consultor que já avaliou as UPPs e co-autor do livro Determinantes do uso da força policial no Rio de Janeiro. “E se saíssem agora de todas as UPPs o resultado, em algumas áreas talvez seja carnificina”.

Cano disse, por email, que a polícia, que não o consulta há nove meses, devia avaliar sua presença e cada área. “Se estão num local apenas para atirar e se defenderem, então acho que deveriam sair desse local até poder intervir de forma que cessem os tiroteios. É possível mudar de local na mesma favela, por exemplo, ou até abandonar, temporariamente, certos locais. No caso do Alemão, acho que entraram por motivos errados e sem planejamento adequado, porque era considerado o quartel-geral do Comando Vermelho”. O governo mantém a polícia no Alemão, acrescentou, por achar que uma retirada sinalizaria uma “derrota” na guerra contra o crime.

Cano recomendou, na avaliação de 2012, a elaboração de estratégias e de táticas de acordo com cada momento e cada local. Diz ele que a polícia jamais implementou a recomendação.

A PM não se mostra muito aberta a debater estratégia. Veja essa troca de email entre o RioRealblog e a assessoria de imprensa das UPPs:

4) Qual a visão do comandante [Zuma] sobre os limites e os perigos impostos aos moradores e aos policiais, em função da operação [do dia 2]? É realmente necessário arriscar tantas vidas, em todos os lados? A guerra às drogas tem chance de dar certo?

R: Todas as operações são realizadas com base em informações do Setor de Inteligência da Polícia Militar.

Vou trocar de chip

Moradores reclamam de policiais que invadem suas casas e praticam abusos físicos.

“Coe mano. Papo reto, tu sabe que eu sou trabalhador, tá ligado. Mas ai, fui esculachado ontem. Apanhei pra caralho dos cara. Só fui buscar uma roupa na casa da minha mãe. Me bateram querendo que eu falasse onde que estavam os bandidos. Só sei que apanhei feito marginal, eu pai de família”, lamentou um morador, por WhatsApp, para Raull Santiago, que publicou o relato no Facebook. Segue a continuação:

“Os caras pegaram meu cel, cortaram minha orelha, mas não muito. Apanhei feito um filho da puta, tô cheio de ódio. Pegaram o celular da minha mão e já vieram me batendo, gritando o menor. Eu falando que era trabalhador e eles querendo saber quantos bandidos tinham na Rua 2. Porra mano, tô cheio de medo, papo reto. Caralho, apanhei muito. Falaram que se me pegar de novo vão me matar. Eles iam me matar, mano. Papo reto. Iam chamar outra tropa deles, iam me matar, mano. Os canas pegaram meu celular, mexeram no meu Facebook. Tô aqui cheio de dor. Eles iam me cortar, mas eu comecei a chorar. Aí ele cortou um pouco e disse que é para eu lembrar dele. Nem identidade pediram, saíram me batendo mesmo. Não tive reação, só apanhei. Isso para você ver como eles são. E tudo encapuzado. Bagulho doido, eu virava para tentar ver os nomes, ai que eu apanhava mais […] Mano, vou até trocar de caminho agora, na hora de voltar do trabalho. Porque mano, eles são foda. Minha mae chorou pra crl pq querendo ou nao e mãe né mano e a dor que eu to sentindo, porra, ngm queira sentir. Apanhei de 62(fuzil) no pescoço, na cabeça, na cara, estou traumatizado. Mas mano, só avisei para vocês verem como eles são. Fica com Deus e se acontecer algo comigo vocês já estão avisados Aí mano, mandaram para minha mulher. Mandaram pior para minha irmã, chamando ela de vagabunda. Isso foi eles no meu celular, mano. Quando mandaram mensagem para minha mãe, minha mulher e minha irmã. Vou trocar de chip…”

Alguns observadores perguntam por que os moradores tanto reclamam dos policiais, porém aguentam viver entre bandidos, de certa forma governados por eles. A polícia, dizem, está do lado certo da equação. Para esses, criticar a polícia é igual apoiar aos traficantes.

RioRealblog perguntou sobre isso a Raull Santiago.

“A polícia em teoria é representante do povo, pela lei, então quando o servidor público usa de seu poder para cometer abusos, isso deve ser questionado, até para um melhor funcionamento do serviço”, respondeu. “Nas favelas, o abuso de autoridade e as violações diversas cometidas pela polícia historicamente, somada à ausência de serviços outros diversos, não gera mudança e faz aumentar a revolta e até fortalece a criminalidade”.

O morro resolve?

E o que diz o Raull aos que sugerem que os próprios moradores deveriam expulsar os criminosos?

“Não é trabalho do morador expulsar o tráfico, em tese esse é o trabalho da polícia.
Acabar com a criminalidade é fácil em médio e longo prazo, basta haver reais investimentos no que realmente constrói avanços, que é a educação, a saúde, cultura, a valorização dos jovens. Ha anos aqui na favela só temos a polícia como única política pública, uma polícia despreparada, violenta, sem educação e corrupta”. Diz Raull que é hora de focar na corrupção policial e elaborar novas políticas de drogas.

Os tempos são difíceis no Rio e no país como um todo. A grande imprensa cobre cada vez menos tais conflagrações. É bem capaz a polícia do estado estar “afogada”, como imagina um ator chave na área de direitos humanos, impedida de se repensar, formar estratégias, atuar com transparência. Apesar disso tudo, não deixa de ser trágico termos que ponderar a ideia de que pouca coisa se aprendeu durante os anos de baixa violência, quando havia mais diálogo, espanto e cobertura jornalística.

Portanto, consta esse post como uma tentativa de levantar algumas perguntas básicas. A essa altura, jogar a toalha não pode ser uma opção. Somos maiores, já, do que isso.

A assessoria das UPPs disse que moradores devem registrar supostos abusos policiais na delegacia. “Cabe ressaltar, no entanto,” acrescentou, “que a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) mantém um canal direto de recebimento de denúncias sobre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e também sobre a atuação policial, a Ouvidoria Paz com Voz. O contato pode ser feito pelo telefone (21) 2334-7599 ou pelo site ouvidoriaupp.com.br. O morador pode ainda comparecer pessoalmente na sede da CPP,na Avenida Itaoca, nº 1618, em Bonsucesso. O anonimato é garantindo”.

hhh

O Alemão, de lua cheia, em tempos mais felizes.  Foto de Mariluce Mariá Souza

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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One Response to Tiros que não acertam: há vida pós UPP?

  1. shotw2arrows says:

    Thanks for this report, Julia, I lead the middle-class life and know very little about what is happening in the favelas. Graphic accounts rouse our emotions. But I think you would agree that the unhappy situations presented are like the SYMPTOMS of a disease. One should report on the agonies of smallpox; everyone must be horrified by smallpox, otherwise they could just go on their merry way, thinking it doesn’t concern them. First we understand that smallpox is horrible; next we must realize that it is everybody’s problem. Then we must ask: What can we do about it? What brought it on?
    The essential causal agent of smallpox is the smallpox virus. But I don’t think there is a single cause of violence in Rio. You pointed out the flawed crusade against drugs and lack of police training and oversight. You have earlier identified, as a root cause, financial and social inequality.

    Here, I add just one more thing, but I don’t really have to add it: Everyone, from that skinny black guy in rags carrying a bag of material collected from trash cans, to PhD sociology professors at PUC, can tell us what we all know: CORRUPTION, theft by those in whom the public has placed its trust and to whom we pay our hard earned tax money — corruption has become a WAY OF LIFE IN BRAZIL.
    Christianity goes back centuries in the West, Islam goes back centuries in the Near and Middle East. In that same way, malfeasance in office goes back centuries in Brazil.
    According to the theory of democracy, if a corrupt official escapes the law, he will simply be voted out of office in the next election. That theory is thrown down and danced on in Brazil. All I have to say is one word: COLLOR.
    The public is obliged to vote, but the public is unable to fire the rats in office; and it seems the public has given up.
    I felt I had to applaud your reporting. I haven’t added anything that everyone doesn’t already know. I am trying to understand how the current situation came to be. But lamentable things are happening so fast, in Brazil and the US, that it is hard to even keep up with them, much less analyse their deeper causes. But there it is; keep reporting.

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