Rio de Janeiro: crise para repensar?

Estrelas dessincronizadas 

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Entulho em Manguinhos, onde a burocracia e a ineficiência obstruem melhorias para quem vive aqui

For Rio de Janeiro: time for a rethink? click here 

Primeiro, as qualidades

  • Acabou o boom imobiliário, abrindo um período no qual podemos respirar e refletir no que seria melhor construir, para todos, nos espaços ainda desocupados da área do porto e na região da Barra da Tijuca.
  • Aqueles que deixaram a pobreza na última década não irão regredir em silêncio. Já sentiram o gosto de serem considerados (e de se considerarem) cidadãos plenos da área metropolitana. De alguma maneira, eles irão exercer pressão.
  • Aumentaram as expectativas de todos, ao passo que os governos começaram a transformar a metrópole.  E nem essas irão regredir.
  • Os Jogos Olímpicos ainda vão acontecer aqui, trazendo saudáveis atenções globais e  receitas de turismo.
  • Os patrocínios do Carnaval cairam, dos níveis do ano passado, —  e começaram as chuvas. Talvez a cidade passe por menos destruição, do que se poderia esperar.
  • Secas, apagões, desemprego, inflação– são fontes de pressão aos políticos, que podem ficar mais sensíveis ao eleitorado. Certamente haverá menos recursos para molhar mãos.
  • O sistema de justiça envia uma mensagem forte, sobre a corrupção, para toda a sociedade, o que pode orientar políticos e autoridades a transitar mais na direção do bem comum e para mais longe de objetivos pessoais e de grupos de interesse.
  • As atenções, enfim, se viraram para a Cedae, a estatal de água e esgoto que, pelos últimos sete anos, escapava à atividade regulatoria, acarreta perdas severas de água e está diante de enormes desafios de saneamento.
  • Caiu a produção de petróleo, e o Brasil poderia começar a investir em fontes alternativas de energia (fora a hidro, até então tão confiável).

Impacto da crise brasileira no Rio

As más notícias remetem ao aquecimento global, ao qual um número insuficiente de nós tem prestado atenção. O Rio não apenas sofre com as questões de água e energia da região sudeste do país, mas deixou que o boom imobiliário da Zona Oeste , estimulado pela escolha da Barra como local principal dos Jogos, acontecesse sem preocupação pelo fato de que é uma região de várzeas, com risco grande de enchentes. Sem falar do avanço dos oceanos, e a poluição da baía de Guanabara e das lagoas da Zona Oeste (que, com a estiagem, só piora). A escassez de água e de energia elétrica poderia levar à agitação social neste ano ou em 2016.

Depois temos a queda no préço de petróleo (e dos outros commodities que alimentavam a economia brasileira). E o colapso da Petrobras, proveniente desse fator externo e, mais perto de casa, da administração falha e da corrupção. O setor de petróleo e gás, centrado no estado do Rio de Janeiro, parou — e é difícil dizer quando irá engrenar novamente. Há demissões, que irão prejudicar toda a economia local.

Caiu a receita fiscal que vinha do setor de petróleo, levando a cortes nos gastos do estado. Bem na hora que as forças policiais do Rio empreendem um programa alentador, para melhorar a pacificação e voltar a reduzir a violência, o recém empossado governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, jura que irá manter os gastos em segurança pública, educação e saúde. Essas prioridades possuem grande importância, face à queda de receita em cidades vizinhas, altamente dependentes em royalties de petróleo, e à paralisação na construção do complexo petroquímico em Itaboraí, a Comperj.

As dificuldades com o petróleo e com a energia, e os aumentos de preço resultantes, levaram a previsões de inflação de 7% no país para o ano. Mais um motivo para a agitação social.

Cresce o crime, com mais roubos de rua (e menos homicídios)balas perdidas. Centenas de policiais patrulham as praias da Zona Sul, nos fins de semana, para manter a paz. Uma equipe nova faz e implementa as políticas públicas da Secretaria estadual de Segurança Pública. Espera-se que possa contar com os recursos necessários e, entre as fileiras, com uma capacidade para mudança.

A participação comunitária aconteceu pouco  durante os anos da virada do Rio, de 2009 a 2013, sendo que a maioria das mudanças veio de cima para baixo. Se o Morar Carioca, o programa municipal que pretendia urbanizar todas as favelas até 2020 (parte do legado olímpico), tivesse realmente tomado vulto, a dinâmica urbana social poderia ter sido mais saudável e melhor para todos. Mas o programa não deslanchou —  e os eventos recentes aqui poderiam, quase, levar à conclusão de que o motivo para isso (nunca enunciado, oficialmente, porque oficialmente, o programa existe sim, de forma reduzida) é que, com centenas de moradores, urbanistas e arquitetos no quadro, Morar Carioca era complexo demais para que as empreiteiras pudessem superfaturar e corromper autoridades, como, supostamente, fizeram no escándalo Lava-Jato da Petrobras.

E temos então a política municipal. O prefeito Eduardo Paes ainda está focado nos preparativos para os Jogos Olímpicos, mas já demanda sua atenção uma eleição marcada para apenas duas semanas depois da disposição da última medalha paralímpica. Paes não pode se candidatar (de acordo com alguns comentaristas, ele mira o posto de governador em 2018 e depois, a presidência), mas para sucedê-lo selecionou o Pedro Paulo Carvalho, seu fiel braço direito, recém eleito ao Congresso (porém de licença, para servir ao prefeito como secretário executivo). Tal sucessão pode requerer a saída do PMDB, que talvez prefira o Leonardo, filho de seu presidente, Jorge Picciani.

Enquanto isso tudo se trama, as mesmas clãs de sempre mandam na política stadual, na Alerj. Também, alguns comentaristas dizem que o nome do governor Pezão está na lista dos políticos corruptos da operação Lava-Jato (junto com aquele de seu predecessor, Sérgio Cabral), que logo será divulgada. Se Pezão sair do cargo, quem ocupa sua cadeira seria o vice-governador, Francisco Dornelles, de 80 anos.

Diante dos males descritos acima, e de tantos outros, está desfeito o alinhamento municipal-estadual-federal, que parecia tão fácil e que deu o pontapé inicial ao surgimento do fênix que foi o Rio de Janeiro, em 2006. Praticamente desfeito também está o próprio governo em Brasília. Não se pode esperar grande coisa de lá: a presidente, Dilma Rousseff, lembrou aos governadores que a escassez de água é problema dos estados (mas não seria global?) e fará o que pode para ajudar. Resta saber se, apesar de cortes em gastos federais, a ajuda de Brasília inclui os recursos do PAC já comprometidos, para projetos tais como saneamento e um teleférico, conectado ao metrô, na Rocinha.

E não vamos esquecer a expectativa geral de que o político carioca, deputado federal Eduardo Cunha, evangêlico e conservador (nunca condenado, porém objeto de indiciamentos por corrupção que se estendem até 1999), eleito no domingo presidente da Câmara, fará o que pode para obstruir as propostas da presidente Dilma. Ele poderia até dar uma mãozinha num impeachment dela, se surgir a oportunidade para tal.
Em 2006, quando a estatal comprou a refinaria Pasadena nos EUA, a um preço supostamente superfaturado, ela era presidente do conselho da Petrobras.

Então?

A amaldição do petróleo parece inevitável. Assim, para o Rio de Janeiro, as males que vieram para o bem, na crise atual, certamente encontram raíz na paralisação do setor. Hoje, com menos petrorreais circulando, pode se mostrar o momento ideal para fazer pressão e planejar por uma metrópole que atende aos sonhos e às necessidades da maioria que aqui vive — em vez de os objetivos de um número seleto de grupos políticos e empresariais.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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2 Responses to Rio de Janeiro: crise para repensar?

  1. Carolina says:

    Um otimo resumo da “merda que bateu no ventilador!” Bilhoes e bilhoes de reais roubados e desaparecidos na Petrobras e no governo. Vai justica, pega eles. E ainda tem muito merda pela frente, Caixa? BNDES?

    A crise da agua e do saneamento, necessidade mais basica da civilizacao. O potencial para energia solar e maior eficiencia energetica no Brasil e imenso. Obrigada pelo trabalho e analise critica que tantas vezes falta nos jornais.

    Temos de ser racionais, construtivos, e calmos, assim como o Joaquim Levy! Busquemos justica, educacao, responsabilidade no uso dos recursos, planejamento!

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