Estado de choque e trauma: Rio de Janeiro

What a tangled web exclusion weaves

O emaranhado, criado para favorecer alguns, excluir outros: perdura por causa disso

Riorealblog nasceu há quase seis anos. Sua blogueira pensou várias vezes em revisar a declaração de missão (à direita), mas acabou por deixar intocada, testemunha a tempos de maior esperança (e inocência).

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Em agosto de 2010, ninguém imaginava que iríamos nos encontrar, na véspera dos Jogos Olímpicos, numa situação tão trágica. Parecia, então, que a aliança dos governos federal, estadual e municipal tinha verdadeira intenção de enfrentar alguns dos piores problemas do Rio, e que os cidadãos daqui, com uma boa dose de ceticismo, apoiavam a tentativa.

Descobrimos, dia após dia, até que ponto as elites brasileiras viviam jogando com uma mão de cartas marcadas  — marcadas com informações de insider e trocas de favor. Como pudemos acreditar que o jeitinho brasileiro fosse um charmoso traço cultural?  Ou que a burocracia existisse por puro atraso? Pois é, os trâmites e emaranhados judiciais têm por objetivo barrar os intrusos e favorecer aqueles que dispõem de amigos, para encurtar e saltá-los.

As cartas marcadas propiciam vantagem aos poderosos, na competição que é a vida. Assim, eles tendem a economizar na educação, tanto para si como para os menos favorecidos. Talvez a falta de preparo formal em todos os níveis explique a sensação atual no Rio de Janeiro, do fajuto, de coisa de última hora .

É uma democracia profundamente falhada, essa; pouco adianta focar no assim-chamado golpe dos últimos dias, ponta dum iceberg. Há tanta coisa por mudar.

Na metrópole do Rio de Janeiro, anfitriã olímpica, sugerem as investigações (tanto policiais como jornalísticas) que o bem comum é a última prioridade dos políticos e dos empresários. Por qual motivo alguém deveria ter parado para pensar no que iria acontecer hora que caísse o preço de petróleo?

Face às revelações praticamente diárias, precisamos nos preparar para absorver o pior. Por exemplo, algumas “prioridades” podem residir, muito além de meros evasão de imposto, propinas, contratos superfaturados ou conflitos de interesse, no âmbito do tráfico internacional de drogas. Numa recente entrevista do jornal El País, Misha Glenny, autor do recém-lançado O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio, comenta que os maiores traficantes brasileiros não moram em favelas, como era o caso do objeto do livro dele, o chefe de morro, Nem da Rocinha.

“Quem faz esse serviço no Brasil costuma ser pessoas de classe média e classe alta que têm negócios legítimos operando, geralmente nas áreas de transporte e agricultura”, ele disse ao site de língua portuguesa do jornal espanhol.

Cabe perguntar: quem são eles?

Para sua blogueira, uma das mais chocantes acusações (parte do depoimento de um delator) é de que uma empreiteira pagou propina ao presidente do Tribunal de Contas estadual  durante a reforma do Maracanã.

Enquanto a mídia brasileira noticia há muito tempo os escândalos entre legisladores e governadores fluminenses, sabe-se muito pouco sobre quem deve estar fiscalizando-os — a não ser uma ideia geral de que o corpo técnico está bem preparado, mas que suas conclusões, por vezes, são ignoradas ou revertidas pelos que presidem o órgão, nomeados pelo governador e a Alerj.

Esses profissionais já questionaram partes da parceria pública-privada criada para construir o Parque Olímpico na Zona Oeste do Rio — e não tiveram respostas plenas, com a justificativa de que havia pressa para construir o Parque a tempo de receber os Jogos.

Sem os Jogos, sem o Parque, a Zona Oeste dificilmente teria experimentado o recente boom imobiliário. Esse boom já resultou num ultrapassado espraiamento urbano, dependente no automóvel, de shoppings, apartamentos e escritórios vazios, criando custos novos em termos de serviços governamentais, para o estado e o município.

No país, as atuais investigações de corrupção apontam a necessidade de repensar o Brasil como um todo.

Para que o Rio de Janeiro faça uma segunda tentativa de reinvenção urbana, será preciso uma enorme reflexão profunda, para dentro de almas e consciências, com uma mudança de rumo no sentido do bem maior. Enquanto isso não acontece, talvez seja útil procurar, com toda humildade, pistas num lugar tal como Detroit, Michigan.

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About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
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