Estupros em van revelam divisão social

Whose city is it?

Vista partida em um ônibus do Rio

For Van rapes reveal social division, click here

[ATUALIZAÇÃO: minutos depois que a versão em inglês desse post ficou pronta ontem, o Rio de Janeiro passou por mais uma tragédia: um ônibus caiu de um viaduto na Avenida Brasil, matando pelo menos sete pessoas e causando ferimentos graves em quinze passageiros. De acordo com um passageiro que desceu do ônibus antes de ele cair, o motorista brigava com um homem que pulou a roleta.]

Em 23 de março, uma brasileira registrou queixa de estupro na polícia, dizendo que o crime ocorreu em uma mini-van em Copacabana. Pouco foi feito – até que o mesmo aconteceu com uma estudante americana, na madrugada de sábado. Como resultado da negligência anterior,  duas oficiais da polícia foram exoneradas de seus cargos.

Na década de 1990, quando as frotas de ônibus ficavam aquem à demanda por transporte, apareceram as vans no Rio de Janeiro. Hoje em dia, elas lotam as ruas e, por vezes, as frotas são controladas por milícias paramilitares. Os motoristas transportam um número perigoso de passageiros, muitos deles de pé sem espaço adequado para a cabeça, enquanto os cobradores se penduram nas janelas para oferecer assentos como se fossem brinquedos de um parque de diversões (e uma viagem de van–  ou de qualquer outro transporte público carioca– geralmente não é muito diferente de uma montanha russa, até com consequências trágicas).

As vans são relativamente baratas, confiáveis, e preenchem uma lacuna no transporte urbano. Durante o Carnaval, quando o metrô ficou lotado, as vans salvaram a pátria. Quando  houve greve dos motoristas de ônibus, as vans salvaram a pátria.

Quem usa as vans? Não são as pessoas das classes sociais mais altas. E, no Brasil, há muitas coisas que as classes mais altas não fazem. Esse foi o assunto de uma conversa extremamente franca que ocorreu segunda-feira à noite, em um debate  sobre a juventude carioca na OsteRio, uma série de debates fundada pelo saudoso pensador urbano André Urani, dentre outros.

Segundo Fabricia Ramos, os jovens da elite carioca estão extremamente focados em reproduzir o estilo de vida que seus pais criaram para eles. Ela apontou que os pais ensinam aos filhos que os brasileiros são pacíficos e passivos; que os cariocas são especiais, e que fazer política é chato.

Sem uma visão geral das estruturas socioeconômicas que constroem o estilo de vida da elite (e sem a curiosidade para aprender algo sobre eles), esses jovens evitam posições de liderança – e até se negam a assumir a condição de elite. “É muita irresponsabilidade,” disse Ramos, que estudou na Escola Americana do Rio de Janeiro, uma das instituições educacionais mais caras da cidade. De acordo com Ramos, atualmente uma pesquisadora no think tank  IETS , que organiza a OsteRio, muitos de seus colegas de escola da EARJ e, posteriormente, da PUC, rejeitam o espaço público, optando por viver em uma espécie de universo paralelo. “O custo de vida para manter isso está aumentando,” ela apontou. “Fazem para si mesmos uma encarceramento voluntário privado. Se vão para uma favela, é para um evento ou uma festa–não criam laços.”

It's all about sharing

Faustini: a cidade é lugar de encontros

A opinião dura que Ramos tem de seus pares foi complementada pelas falas de Miguel Lago, fundador da ONG ativista Meu Rio e de Marcus Faustini, cuja Agência de Redes para  a Juventude ajuda jovens moradores de favela a desenvolver o potencial como seres humanos criativos e pensantes. Enquanto alguns jovens cariocas – de todas as classes sociais – estão mergulhando na vida da cidade, outros provavelmente serão forçados, por mudanças atuais, a reavaliar o objetivo de reproduzir o estilo de vida da infância. A revista Veja desta semana,  com a capa “Você amanhã”, de um homem branco de avental que lava louça, em referência a uma nova lei federal que assegura o pagamento de horas extras para as empregadas domésticas, revela somente a ponta do iceberg.

Os cariocas das classes mais altas podem ter que lavar mais pratos no futuro próximo, mas muitos ainda não tiveram a experiência de andar de trem suburbano ou barca, de estudar em uma escola pública, viver em moradia pública ou ser atendido em um hospital público (o que recentemente, esta blogueira teve a oportunidade de fazer, seguida de uma visita a um médico particular, que disse que o exame de raio-X gratuito era razoável, mas que a tala de gesso triplicaria o período de recuperação do tornozelo fraturado em comparação a uma bota importada de plástico).

Por que o estupro de uma americana recebeu tanta atenção da imprensa? Como a polícia – que geralmente trabalha a passos de cágado – conseguiu prender os três criminosos em dois dias? Obviamente, isso ocorreu, em parte, porque a vítima era estrangeira, e, em tempos de mega eventos, as notícias se espalham rapidamente para além dos limites da cidade do Rio de Janeiro. Além disso, ela era uma pessoa que tinha acesso a meios para vir estudar no Rio. Portanto, pode-se inferir que ela teria uma situação financeira melhor que a maioria dos usuários das vans, inclusive melhor do que a da vítima brasileira de estupro. E, sendo esse o caso, aqueles cariocas que normalmente não se aventuram nesse meio de transporte (que para os gringos tem um certo charme exótico) conseguem se identificar com ela– e sentir o choque.

Tradução de Rane Souza

Advertisements

About Rio real

American journalist, writer, editor who's lived in Rio de Janeiro for 20 years.
This entry was posted in Brasil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro and tagged , , , , , , , , . Bookmark the permalink.

4 Responses to Estupros em van revelam divisão social

  1. Neusa Appler says:

    Oi Julia, você como sempre brilhante! Eu aqui sempre, pedindo desculpas pelo Português, com a ressalva que o que me salvou na vida pratica foi a matemática. Estudei em Escola Publica, usei bonde, ônibus e barcas. Trem só pra lugares mais longe. Aprendi a lavar/passar/faxinar. Cozinhar o básico.Usei postos públicos para vacinas, etc. Fiz Universidade a noite, trabalhando de dia.Para meus filhos resolvi dar tudo que (pensava) não tive, os pais tendem a fazer isso. Alfabetizacao Piaget, Escola Corcovado, PUC, hipismo, etc. Só não tive baba porque ai ja seria afrontar meus princípios básicos. Observei nos 35 anos do meu primeiro casamento a quantidade de auxiliares domésticos dos amigos e acredite a situação financeira deles nem era la essas coisas. Felizmente meus filhos cresceram bem, não tenho queixas mas no fundo eles não tem a metade do “guts” que eu tenho. Se tivesse que começar do zero, hoje aos 72, o faria sem medo. Ainda recebo emails desesperados de amigas falando que a faxineira faltou. Acho a maioria das brasileiras, vazias, ocas, se acham as gostosas e por ai vai. Lógico que existem
    excecoes. Tenho amigas brilhantes, maravilhosas. Mas o povo tem muito o que aprender.

  2. Zaida G. Knight says:

    Há algo de podre no reino da Cidade Maravilhosa. Lembra do que disse sobre o que senti agora neste ano em relação à segurança? Nada específico, não sei apontar com os dedos. Ando de ônibus e de metrô. Sou também pedestre. Uma coisa que me deixa de cabelo em pé é a alta velocidade dos ônibus. Fazem a curva da Franciso Sá para a Avenida Copacabana, 2 veículos ao lado um do outro, quase que apostando corrida para ver quem dobra primeiro. Na Niemeyer então nem se fala. Nas poucas vezes em que passo por lá vou de coração na mão e já saltei de ônibus no final do Leblon para não sofrer o percurso à frente. Há uns 3 anos não tomo vans. Mas uma pergunta se me ocorre: como se reconhece uma van pirata? Você sabe? Se é difícil durante o dia, imagine à noite. Excelente cobertura.

    • Superb journalism, Julia, and chilling! People will suffer for their daily commutes and put up with chaos in their private social pursuits, but do not remind anyone that people may be losing their place. Social division is too terrifying to contemplate in Rio.

  3. Rio real says:

    é, Neusa, estamos num momento chave– e fascinante– de transição social. Zaida, obrigada. Muita coisa que é podre vem à tona em momentos como esse, e temos que pressionar as autoridades para que mudem de comportamento. Not so terrifying, no fim das contas, Michael! thanks to all of you–

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s