Prédios desabam no centro do Rio de Janeiro: onde está a infraestrutura da infraestrutura?

Equipe de resgate no centro da cidade, anteontem à noite

Click Downtown buildings collapse in Rio: where’s the infrastructure infrastructure? for English

Quando um botijão de gás proibido explodiu um dia de manhã em outubro passado no restaurante Filé Carioca no centro da cidade, matando quatro pessoas e fazendo ruir grande parte do prédio onde ficava, a fragilidade do sistema de fiscalização da segurança municipal se revelou aos cariocas. “Os bombeiros não têm condições de fiscalizar todos os prédios,” disse o comandante dos bombeiros, coronel Sérgio Simões ao jornal O Dia. “A fiscalização nesse caso é feita através de denúncias”.

Depois daquela tragédia, o prefeito e os bombeiros prometeram mudanças.

Na quarta-feira à noite um prédio de vinte andares, também localizado no centro da cidade, desabou em cima de mais dois prédios,  levando-os junto ao chão. Dezessete corpos já foram encontrados e há pelo menos cinco desaparecidos. Até o momento,  parece que reformas irregulares desestabilizaram de alguma forma o prédio mais alto.

Construção em toda parte

Ontem nas conversas de mídia social, surgiu uma verdade estarrecedor: no Rio de Janeiro (e talvez no Brasil todo?), qualquer reforma é a responsabilidade total do engenheiro da obra e do proprietário do edifício. Não acontece nenhuma fiscalização governamental– exceto na hora da construção inicial do prédio.

“Precisaria de milhares de fiscais, pagos com o imposto do cidadão. Aceitam pagar mais imposto para isso? Ou uma taxa de fiscalização?” perguntou um participante de conversa no Facebook.

Na mesma conversa, um arquiteto mencionou que o município teria a responsabilidade de manter a planta original de toda nova construção, para a utilização como fonte de referência durante qualquer reforma– porém frequentemente, quando a pede, ele recebe a resposta de que a planta não está disponível.

Em muitos países, cobra-se mesmo uma taxa de fiscalização no caso de reforma, tanto para a construção comercial como para reformas caseiras. Envolve burocracia, mas a fiscalização é prerrequisito para as seguradoras. A fiscalização funciona como salvaguarda para o público em geral, e, no caso de acidente, facilita a investigação, a ação judicial, e as decisões jurídicas sobre culpa e compensação.

Quem vai pagar os danos e pelo sofrimento, no caso trágico desta semana? Por enquanto, a Secretaria Estadual de Assistência Social disse que vai custear os enterros das famílias que não têm como pagar, e o CREA mencionou que o engenheiro encarregado da obra não registrada pode perder o credenciamento. Pode até ser que a obra carecia de engenheiro responsável. Não se fala de qualquer seguro– e nem o nome do proprietário do imóvel nem do engenheiro se tornou público.

Esta matéria do jornal O Globo de hoje entra em algum detalhe sobre a situação jurídica da obra irregular, mas o que está mais claro é a confusão sobre a mesma.

Não olhe para cima

Até a instituição de corredores exclusivos para ônibus alguns meses atrás, o Rio de Janeiro era um cidade onde era possível parar um ônibus municipal ao levantar um dedo. Coisa de vilarejo, mais do que de cidade.

Mas o vilarejo é uma cidade de de doze milhões, acenando planos para grandeza, com martelos, perfuradores e escavadeiras por toda parte. Ao passo que a construção avança , que  o investimento aumenta, e os turistas chegam, surge uma demanda desenfreada pelos serviços e a fiscalização municipais.

Talvez ela não seja sempre expressada explicitamente por empresas e cidadãos, mas queremos todos uma cidade world class, livre de acidentes e problemas preveníveis. Faz-se um Google das palavras inspeção de obras Rio de Janeiro e é  isso que aparece no topo da página.

Tente o mesmo em inglês or francês.

No último ano o Rio de Janeiro passou por tampos de bueiro que explodem, acidentes de bonde, barca e ônibus, paralisações de metrô e apagões, entre outras catástrofes.

Entulho em Ipanema

Enquanto isso a Câmara de Vereadores tem praticamente papel nenhum na elaboração de políticas públicas e desde 2009 o prefeito Eduardo Paes tem se focado num choque de ordem constante, além dos preparativos para as Olimpíadas. Com a expansão e treinamento especial da Guarda Municipal, ele priorizou o estacionamento irregular e os camelôs.

Mas pode ser que tenha chegado a hora de criar uma força tarefa para repensar o código de construção e as normas de zoneamento antiquados da cidade– e a fiscalização desses. Se não, a grandeza pode muito bem ficar no plano das ilusões.

Nem olhe para baixo

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Downtown buildings collapse in Rio: where’s the infrastructure infrastructure?

Rescuers downtown, last night

When an illegal gas cannister exploded one morning last October at the downtown Filé Carioca restaurant, killing four and bringing down much of the building it was housed in, cariocas discovered just how spotty safety inspections are. “The firemen aren’t equipped to inspect every building,” fire chief Sérgio Simões told O Dia newspaper. “We inspect in response to reports of irregularities”.

After that tragedy, the mayor and the fire department promised to do a better job.

Last night a twenty-story building, also downtown, collapsed onto two other buildings, destroying them as well. Seventeen bodies have been recovered and at least five people are missing. So far, it looks like unreported renovations somehow destabilized the tallest building.

Construction all over

Today, social media chatter brought to light a shocking truth: in Rio de Janeiro (and perhaps all of Brazil?), renovations are the full responsibility of the project engineer and the building owner. No government inspections are carried out– except for when the building first goes up.

“You’d need thousand of inspectors, paid with citizens’ taxes. Do you want to pay more taxes for this? Or an inspection fee?” asked one Facebook thread commenter.

An architect mentioned in the same thread that the city is responsible for keeping every new building’s original plans, for reference use during renovation– but that he’s found that these are often unavailable.

In many countries, inspection fees are indeed charged when renovation takes place, for everything from commercial construction to home improvement. This involves bureaucracy, but insurance companies don’t insure uninspected work. The process is meant to safeguard the public at large and, in the case of an accident, facilitate investigation, prosecution and legal decisions regarding blame and compensation.

Who will pay the damages and for the suffering, in this week’s tragic case? So far, the State Social Aid Secretariat has said it will pay burial costs for the dead, and the state council of engineers has mentioned that the engineer in charge of the unreported work could lose his license. Insurance hasn’t been mentioned– and neither the owner’s name nor that of the engineer in charge of the work has been made public.

Don't look up

Until bus corridors were instituted a few months ago, Rio de Janeiro was a city where you could bring a municipal bus to a stop anywhere at all, simply by raising a finger. More of a village, than a city.

But the village is in fact a city of 12 million boasting plans for grandeur, with hammers, drills and bulldozers at work all over. As the building progresses, as investment flows in and tourists arrive, demand for city services and oversight is mushrooming. But not being met. Google the words inspeção de obras Rio de Janeiro (construction inspection Rio de Janeiro)  and this is what you get at the top of the page.

Try doing the same in English or French.

In the last year Rio has seen exploding manhole covers, trolley, ferry and bus accidents, metro stoppages and electrical blackouts, among other catastrophes.

Construction rubble in Ipanema

Meanwhile, the city council plays almost no role in drafting public policy and Mayor Eduardo Paes has focused on a constant “shock of order” starting in 2009. Expanding and training the municipal guard, he has prioritized illegal parking and street vendors.

But it might just be time to create a task force to rethink the city’s antiquated building code and zoning regulations– and the way they are enforced. Otherwise, the grandeur could well remain in the realm of illusion.

Don't look down, either

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New light on dancer Gambá’s death

Para A morte do Gambá começa a se esclarecer, clique aqui

Favela youth no longer a faceless mass

It’s almost a geological phenomenon. As Rio integrates, the violent contradictions of the long-divided city come to the surface. We must deal with them– and the consequences.

Gualter Damasceno Rocha, or Gambá (Skunk), lived in the unpacified Manguinhos favela and danced the passinho, a form of street dance. He had a particular style, with movements that seemed effeminate. When writer Julio Ludemir organized the Battle of the Passinho among 300 youths last September at the Tijuca Sesc, Gambá placed third. Still, that’s when he found fame; he later taped an appearance on Regina Casé’s Esquenta! program and danced Dec. 30 with Preta Gil at the Mangueira samba school.

The Battle legitimated a cultural manifestation that sprang up in favelas, and brought it into the formal city. It gave visibility to hundreds of young people who had long lived on the margin. The kids used social media, posting videos on YouTube, to help along their own revelation.

However, according to Ludemir, not everyone is capable of dealing with the individual energy that such socio-cultural novelty can unleash.

Having seen the police report on the 21-year-old youth’s death, he says that what most probably happened is that Gambá was killed by one or more security guards working for a gas station. The station is located near the favela where Gambá had celebrated New Year’s Eve, at a dance that ended at 7 a.m.

“The police report mentions a misunderstanding with a counter attendant named Neide,” he says. “The body was found behind the gas station.”

As was the custom among the boys, Gambá went to the station’s convenience store after the dance, for breakfast. Ludemir supposes that the misunderstanding led to a  corretivo , or a correctional beating,  that went very wrong. The police report says the youth died from having been beaten– and not from a bullet wound, as the news media had reported.

Another version of the killing is that a drug trafficker killed Gambá for dancing with his wife.  But Ludemir posits that a trafficker would have done away with the body, and that, knowing who Gambá was, wouldn’t have dared to kill a “favela celebrity”.

Security guards or cops (often the same people), he adds, destroy identity documents and bury their victims in a hurry.

Gambá was buried as an indigent unidentified person five days after his death January 1. The gas station’s video footage hasn’t yet appeared in the media.

Sunday at 2 p.m. there will be a “peace passinho” flashmob at Arpoador beach, to honor Gambá.

Meanwhile, we await the police investigation.

Click here to see Regina Casé’s Jan. 15 2012 Esquenta program, dedicated to Gambá

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A morte do Gambá começa a se esclarecer

Jovens de favela passam por individuação

É quase um fenômeno geológico. As contradições violentas da cidade longamente partida chegam à superfície, à medida que o Rio de Janeiro se integra. Temos que lidar com elas– e suas consequências.

Gualter Damasceno Rocha, o Gambá, morava na favela Manguinhos, e dançava o passinho, uma forma de street dance. Tinha um estilo próprio, utilizando movimentos tidos como femininos. Quando o escritor Julio Ludemir organizou a Batalha do Passinho em setembro passado, no Sesc da Tijuca, Gambá ficou em terceiro lugar. Mesmo assim, foi ali que ficou famoso; desde então gravou uma participação no programa Esquenta! de Regina Casé, e dançou com Preta Gil.

A Batalha legitimou essa manifestação cultural que vem do morro, levando-a para o asfalto. Deu visibilidade a centenas de jovens que tradicionalmente ficam à margem. Eles mesmos, ao utilizar as ferramentas de mídia social, postando vídeos no YouTube, contribuíram à revelação.

Porém, de acordo com Ludemir, nem todos sabem lidar com a força pessoal que provém de tais novidades socio-culturais. Ele, que viu o boletim de ocorrência da morte do jovem de 21 anos, diz que o mais provável é Gambá tenha sido morto por seguranças de um posto de gasolina. O posto fica perto da favela onde o Gambá havia comemorado o Reveillon, num baile que terminou às sete da manhã.

“O B.O. menciona um desentendimento com Neide, uma balconista,” diz ele. “O corpo foi encontrado nos fundos do posto.”

Como era o costume entre os meninos, Gambá foi à loja de conveniência do posto depois do baile, para o café da manhã. Ludemir supõe que o desentendimento tenha levado a “um corretivo” que deu muito errado. Pois o B.O. diz também que o jovem morreu de um espancamento — e não de um tiro, como já foi noticiado.

Uma outra versão da morte é que um traficante teria matado o Gambá por ter dançado com a esposa dele.  Mas Ludemir supõe que um traficante teria sumido com o corpo, e que, sabendo quem era o Gambá, nem teria se atrevido a matar uma “celebridade da favela”.

Seguranças ou policiais (que muitas vezes são as mesmas pessoas), ele acrescenta, escondem documentos e providenciam um enterro às pressas.

Gambá foi enterrado como indigente cinco dias após a morte no dia primeiro de janeiro. O vídeo da câmera do posto não apareceu na mídia ainda.

Domingo às 14 horas, haverá o flashmob “o passinho da paz” no Arpoador, em homenagem ao jovem.

No mais, aguardamos a investigação policial.

Clique aqui para ver o programa Esquenta de Regina Casé, do dia 15 de janeiro 2012, dedicado ao Gambá.

Clique aqui para ler matéria do Globo sobre o passinho, que fala do Gambá e a falta de solução do caso.

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Beltrame: the future of pacification

Yuletide thoughts from Rio’s Public Safety Secretary

Para Beltrame: o futuro da pacificação, clique aqui

Just like the [temporary unit of account that preceded the Real currency] URV, the [police pacification units] UPPs should be understood as a transition mechanism, from the old to the public safety new model, and consequentially, to a new reality of economic and social development in the city of  Rio de Janeiro.

In the era of hyperinflation, in the eighties, most businesses made money not from what they’d set out to do, but in the financial market. The so-called “overnight” investment market, that lasted night upon night, was more lucrative than the production of goods and services.

Similarly, here in Rio we got used to distorted behavior and values, during the long sleepless night of violence of the last few decades. Cops were murderers. Drug traffickers were judges. And so on. We all colluded, until the profits turned to a loss to big to sustain.

In the main article on Globo’s opinion page today, State Public Safety Secretary José Mariano Beltrame makes an enlightening comparison between the pacification program he manages, and the 1994 Real Plan that stabilized Brazil’s currency. The title is “Just the first step”, something he says almost every day.

Carioca surrealism: photographer Davi Marcos holds up a photo that took a bullet in the Maré complex of favelas, when posted on a corner as part of the Travessias art show

“Just as the URV prepared the way for the arrival of the real in the economic stabilization program, the UPPs are an instrument of transition from the yoke of violence to a regime of citizenship, where the state returns with essential services such as health, education, water, sanitation, trash collection and public lighting,” he explains.

Beltrame always points out that social services are crucial. “With the arrival of the Pacification Police, with men and women trained not only to face violence — but also, and especially, to speak with and negotiate with the community — public agencies now find the doors of these communities open to receive the services they’ve been demanding for decades.”

While social services try to transform themselves to better serve communities that were until recently excluded, Beltrame undertakes the transformation of Rio’s police forces. The O Dia newspaper published a long interview with the secretary Dec. 24, headlining the news that in 2012 pacification is coming to the favelas of Manguinhos, Jacarezinho and Maré.

Christmas barbecue on the hood of a pickup truck, Av. Visconde de Pirajá

But the interview contains another big piece of news. Beltrame has tried to combat police corruption by investigating personal fortunes. He came up against a legal obstacle, since the courts require case-by-case justification for access to such information.

Now, says Beltrame, ‘”We are going to be using, after the Fallet/Fogueteiro case (wherein drug traffickers were paying UPP police a monthly stipend), a legally acceptable mechanism. The state attorney general’s office, and the internal affairs units are almost finished drafting a decree allowing preliminary checking, an instrument that will allow us to discover possible malfeasance. In theory we’ll be able to see a police officer’s disproportional personal fortune. I wanted to have this done by the end of this year, but the attorney general’s office is finishing the decree, that the governor will sign.”‘

Police misconduct is common inRio de Janeiro, and much remains to be done for favelas to have the same degree of attention from  city services as in the formal areas of the city. As our overlong “overnight” dissipates and we transition to the “new reality of economic and social development in the city of  Rio de Janeiro”, now is an excellent moment to do a little of our own holiday reflection.

In the Batan favela, west zone

How did we allow favelas to exist?

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Beltrame: o futuro da pacificação

Secretário aproveita a pausa natalina para fazer reflexões

Assim como a URV, as UPPs devem ser compreendidas como um mecanismo de transição do velho  para o novo modelo de segurança pública e, em consequência, de uma nova realidade de desenvolvimento econômico e social da cidade do Rio de Janeiro.

Na época da hiperinflação, anos 80, a maioria das empresas ganhava dinheiro não de suas atividades de origem, mas no mercado financeiro. O mercado de investimentos “overnight”, de noites e mais noites seguidas, era mais lucrativo do que a produção de bens e serviços.

Do mesmo jeito, nós aqui no Rio de Janeiro nos acostumamos com distorções de comportamentos e valores, na longa noite de violência que vivemos nas últimas décadas. Policial virou assassino. Traficante virou juiz. E assim por diante. Todos coniventes, até que o lucro virou perda, grande demais para aguentar.

No artigo de destaque da página de opinião de O Globo de hoje, o Secretário de Segurança estadual José Mariano Beltrame faz uma comparação esclarecedor entre o programa de pacificação que ele administra, e o Plano Real, de 1994. O título é “Apenas o primeiro passo”, uma frase que ele fala quase todos os dias.

Surrealismo carioca: fotógrafo Davi Marcos segura uma foto que levou uma bala na Maré, ao fazer parte da mostra Travessias

“Assim como na estabilização econômica  a URV preparou o caminho para a chegada do Real, as UPPs são o instrumento de transição do jugo da violência para o regime de cidadania, onde o Estado está de volta com serviços essenciais como saúde, educação, água, saneamento, coleta de lixo e iluminação pública,” ele explica.

Beltrame sempre ressalta que os serviços sociais são imprescindíveis. “Com a chegada da Polícia Pacificadora, com homens e mulheres treinados não apenas para enfrentar a violência — mas também, e principalmente, para conversar e negociar com a comunidade –, o poder público agora encontra as portas dessas comunidades abertas para receber os serviços que demandam há décadas.”

Enquanto os serviços sociais tentam de se transformar para atender as comunidades até então excluídas, Beltrame empreende uma transformação da polícia carioca. O jornal O Dia publicou uma longa entrevista com o secretário dia 24, destacando a notícia de que a pacificação em 2012 se estenderá as favelas do Manguinhos, Jacarezinho e Maré.

Churrasco natalino no capô de uma picape, av. Visconde de Pirajá

Mas há na entrevista uma outra grande notícia, bem quente. Para combater a corrupção policial, já se cogitou vigiar os patrimônios dos policiais, mas existe um obstáculo jurídico, pois é preciso justificar a quebra de sigilo caso por caso.

Agora, diz Beltrame, ‘”Estamos lançando, depois do caso do Fallet/Fogueteiro (‘mensalão’ pago pelo tráfico a policiais da UPP), um mecanismo juridicamente palatável. A PGE (Procuradoria Geral do Estado), a CGU (Corregedoria Geral Unificada) e corregedorias internas estão finalizando o decreto de averiguação preliminar, instrumento que vai nos permitir descobrir possíveis desvios. Teremos visão, em tese, da desproporção patrimonial de um policial. Queria fazer até o fim deste ano, mas a PGE está finalizando esse decreto, que o governador vai assinar.”‘

Desvios policiais ainda são comuns no Rio de Janeiro, e falta muito ainda para que as favelas tenham um padrão de serviços municipais compatível com aquele do asfalto. Enquanto o nosso longo overnight esvaece, e transicionamos para a tal “nova realidade de desenvolvimento econômico e social da cidade“, é uma boa hora de fazermos as nossas próprias reflexões e comparações.

Na favela do Batan, zona oeste

Como foi que deixamos a favela existir?

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Uma volta por cima: o “Brain Gain”

For Flying Down to Rio: Brain Gain, click here

O termo em inglês, Brain Drain, é o que acontecia desde os anos 80: gente altamente qualificada indo embora do Brasil por encontrar um ambiente mais acolhedor em outros países. Agora, acontece o contrário, o Brain Gain.  Os cérebros, em vez de “vazar”, retornam, trazendo benefícios ao Brasil, e em especial ao Rio de Janeiro.

Alguns trazem um tanto de revolução na mala. Outros fogem da crise econômica no exterior. Muitos querem contribuir ao Rio com o investimento em aprendizagem que fizeram.

“Nossa jornada começou há quase três anos, quando [nós] começamos a imaginar um Rio de Janeiro diferente, aonde a voz de todos os cidadãos fosse respeitada e ouvida durante os processos de decisão que definem os rumos da cidade,” diz Alessandra Orofino, co-fundadora de Meu Rio, um novo canal digital que visa aumentar a participação dos cidadãos, em volta das questões que carecem de debate público.

Criada no Rio de Janeiro, Orofino e seu colega de classe Miguel Lago fizeram o ensino superior fora do Brasil. Decidiram voltar e agir “[…] porque achamos que esse momento da cidade é muito único, e que as mudanças que normalmente aconteceriam em muito mais tempo estão se concentrando num curto espaço, com todas as implicaçōes positivas que essa capacidade de investimento e renovação traz, mas também com todos os desafios, principalmente em relação à participação efetiva da população neste momento,” ela explica. “Assim, achamos que era agora ou nunca!” O duo, que não para nunca, conseguiu que o ex presidente do Banco Central, Armínio Fraga, aportasse os recursos iniciais do projeto.

Pela transparência e a responsabilidade

Alexandre Fernandes e Ana Ester Rossetto deixaram Santa Catarina para fazer pós-graduação no exterior– nos campos novos de inovação ecológica e econômica. Voltaram neste ano para criar a KCA Consulting, para atender empresas cariocas com interesse na reforma de processos industriais para atingir a reciclagem cem por cento, o conceito Cradle to Cradle (Berço a Berço) desenvolvido por Michael Braungart e William McDonough. “Eu encontrei as peças de minha quebra-cabeça, achei o que eu queria fazer pelo resto de minha vida,” exulta Rossetto. Clientes potenciais seriam a Petrobras, as Casas Bahia, a Brastemp e o Carrefour, que poderiam implementar uma lógistica reversa para que os dejeitos industriais e de produtos de consumo não acabem no novo aterro sanitário, em Seropédica.

Alexandre Fernandes e Ana Ester Rossetto, de volta ao sol carioca

Dedicação a uma missão pessoal pode ser fonte da energia incondicional que é necessária para superar aos muitos obstáculos no caminho à plena readaptação.

Às vezes, a volta da volta

Alguns dos que voltam tiram as malas do armário novamente. Criam dúvidas “a tolerância carioca com o emporcalhamento do espaço público, o caos urbano, o barulho e as interrupções no serviço de energia, que nunca experimentei em quatro anos morando nos EUA e aqui  ainda ocorre com frequência,” admite Robson Coccaro, músico.

Carolina Griggs chegou ao Rio de Janeiro depois de terminar uma pós graduação na Columbia University em administração pública, ciência e política ambiental, mas logo se decepcionou. “Aqui no Rio quem quer trabalhar em governo tem que prestar concurso, mas aí tem muitos assessores que não têm que ter qualificação para ocupar o cargo. O modelo não é transparente,” ela aponta. “[Em Nova York] eles colocam os empregos nos sites com as qualificações desejadas (mestrado em tal, pelo menos quatro anos de experiência em tal coisa). Se você manda as suas qualificações e elas encaixam, eles te entrevistam duas vezes e você é empregada.”

Está na hora, ela acrescenta, de tirar os políticos da administração pública; senão, “o resultado final é a falta de planejamento integrado e serviços públicos de pouca qualidade”.

Se por um lado o clientelismo e a burocracia frustram, existe também um bem-vindo progressivismo. Robson Coccaro e seu companheiro norteamericano Sean Gibbons voltaram em parte por causa da crise econômica nos EUA e em parte por causa do atraente mercado brasileiro para a empresa deles de design e produção de eventos, TocaEvents. Mas vieram acima de tudo porque de outro jeito não seria possível que ficassem juntos. O Brasil concede o visto permanente ao estrangeiro em uma relação estável de caráter homossexual– enquanto isto ainda seja raridade nos EUA.

Mas daí se enfrentam os preços exorbitantes. Coccaro dá aulas de inglês e de música, enquanto a empresa cresce no Brasil, e ainda não sentiu o luxo de compor ou se apresentar.

“Eu tinha comprado um quarto-e-sala por R$70 mil em 2007,” ele diz. “Hoje, no mesmo prédio, os valores estão entre R$ 180 e 200 mil.”

Em contrapartida, ele acrescenta, os telefones e a internet funcionam bem melhor agora, e a vida cultural no Rio tem muito mais opções.

O desafio do velho e o novo , juntos

Aos olhos de muitos dos que voltam, o Rio de Janeiro não é a cidade que deixaram para trás. “As melhorias na área de segurança pública fazem uma grande diferença na vida econômica, social e política do Rio e provam que sempre é possível melhorar a administração pública, basta querer,” diz Carolina Griggs, que logo começa um novo emprego– em Nova York.

“Quando eu saí do Brasil, há anos,” diz a escritora Cássia Martins, “as favelas eram muito diferentes. Hoje, elas estão acessíveis aos cariocas, e com a introdução das UPPs, muita gente está visitando e indo a eventos nas favelas.”

Martins voltou com muito prazer  à sua cidade natal por uma temporada para escrever um romance semi autobiográfico, Born in Rio (Nascida no Rio).

Samba de breque?

A volta de Joaquim Monteiro foi de uma curta distância, mas a decisão não foi de pouca magnitude. “Mor[ava] em São Paulo e não tinha muita pretensão de voltar nos proximos anos. Trabalhei por três anos no Grupo ABC, que é a maior Holding de Comunicação da America Latina,” ele lembra.

“Um belo dia recebi a ligação do Carlos Roberto Osório falando que estava indo trabalhar na Prefeitura com o objetivo de cuidar e preparar a cidade para a chegada dos grandes. Me convidou então para montar a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos […] Foi um escolha difícil, já que iria largar o certo pelo incerto, ganhar menos e ainda atuar numa área que era novidade para mim […] Entre  trabalhar por uma mega empresa ou virar o jogo de uma cidade, achei que a segunda opção seria mais desafiadora, além de ser um prazer enorme trabalhar ao lado de pessoas tão competentes que dividem o mesmo sonho de fazer do Rio a melhor cidade para se morar do mundo.”

Monteiro, membro de uma tradicional família carioca, não apenas aceitou o convite para ser subsecretário municipal de Conservação e Serviços Públicos, mas ajudou também a fundar Rio Eu Amo Eu Cuido , um movimento que visa mudar hábitos e espalha orgulho cívico.

Apesar desse otimismo e animação, assinala o especialista em educação David Letichevsky, o Brasil tende a se desenvolver em “surtos”, como um samba de breque. Após vinte anos no exterior, ele voltou para trabalhar no sistema municipal de educação, munido de um diploma de pós graduação em economia da educação, da Columbia University. Apesar de estar fazendo as malas mais uma vez para ir embora, ele oferece um conselho inspirador para quem pensa em voltar:

“Traga [seu] espírito crítico para cá. Não aceitas as coisas ccomo elas são; conteste, lute, argumente. Você irá levar tabefes e rasteiras, mas não deixe seu espírito se quebrar. A mentalidade brasileira não gosta muito de contestação […]. Ela é acomodada em estruturas patriarcais, rurais, escravagistas de um país continental que não conhece suas fronteiras. Você que não só viu as fronteiras mas também ultrapassou-as, compartilhe com seus patrícios o quê há do lado de lá – para melhor e para pior.”

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Flying Down to Rio: Brain Gain

Some pack a bit of revolution in their bags when they come home. Others are making a getaway from the economic crisis abroad. Many want to contribute to Rio de Janeiro with something they learned elsewhere.

“Our journey began three years ago, when [we] began to imagine a different Rio de Janeiro, where the voices of all citizens would be respected and heard during the decision-making processse that define the city’s future,” says Alessandra Orofino, co-founder of Meu Rio (My Rio), a new digital channel for increased political participation, around issues lacking public debate.

Raised and educated in Rio, Orofino and her school chum Miguel Lago both studied abroad. They decided to return and “…act now because we saw this was a unique moment, when changes that normally would take much longer to occur are unfolding faster,” she explains. “We thought, ‘now or never’!” The nonstop duo convinced former Central Bank president Armínio Fraga to provide seed funding.

For transparency and accountability

Alexandre Fernandes and Ana Ester Rossetto left Santa Catarina for graduate study abroad– in the new fields of eco- and economic innovation. They recently returned to found KCA Consulting, to serve Rio de Janeiro companies interested in the redesign of industrial processes that achieve 100 percent recycling, the “Cradle to Cradle” concept developed by Michael Braungart and William McDonough. “I found the pieces of my puzzle, what I want to do for the rest of my life,” Rossetto revels. The couple sees Petrobras, Casas Bahia, Brastemp and Carrefour as potential clients, capable of implementing reverse logistics such that consumer product and industrial waste don’t end up in Rio’s new landfill site, in Seropédica.

Alexandre Fernandes and Ana Ester Rossetto, back in sunny Rio

A sense of personal mission often provides the unflagging energy needed to overcome the many obstacles to successful readaptation.

The Gain reverts to Drain, at times

Some returnees do get out their suitcases again. “The carioca’s tolerance with the pigsties made out of public spaces, the urban chaos, the noise and power outtages that I never experienced in the four years I lived in the U.S. and that still occur too often,” bring doubts to mind, admits Robson Coccaro, a musician.

Carolina Griggs came to Rio after completing a Columbia University masters in public administration, science and environmental policy, but was quickly disappointed. “If you want to work in government you have to take an exam, but at the same time there are many people working with no qualifications. The model isn’t transparent,” she points out. “In New York they post jobs on sites with the needed qualifications. If you send your resumé and it fits, they interview your twice and you have a job.” It’s time, she adds, to get politicians out of public administration; otherwise, the result is “the absence of integrated planning and poor-quality public service”.

While clientelism and bureaucracy are sources of frustration, there is also welcome progressiveness. Coccaro and his American partner Sean Gibbons returned in part because of the bad U.S. economic situation and in part because of beckoning prospects here for their TocaEvents events design and production company. But they came foremost because otherwise they couldn’t have stayed together. Brazil gives out permanent visas to foreigners in an officially sanctioned same-sex “stable relationship”– while this is still rare in the U.S.

But then come the outrageously high prices. Coccaro is teaching English and music while the company expands and has yet to enjoy the luxury of performing or composing.

“I bought a one-bedroom for  US$ 40,000 equivalent in 2007,” he says. “Today, the prices are between US $ 100,000 and US$ 120,000 equivalent, in the same building.”

Partial consolation, he adds, is that telephones and the internet work much better now, and that cultural life in Rio is booming.

A challenging amalgam of old and new

In the eyes of many returnees, Rio is not the city they left behind years ago. “The improvements in public safety make a big difference in Rio’s economic, social and political life, and prove that it’s always possible to improve public administration, you just have to want to,” says Carolina Griggs, who soon starts a new job– in New York.

“When I left Brazil years ago,” says author Cássia Martins, “the favelas were very different. Today they are accessible to the cariocas, and with the introduction of [police pacification units] many people have been visiting and attending events in the favelas.”

Martins returned quite happily to Rio for a period write a semi-autobiographical novel, Born in Rio.

Joaquim Monteiro’s return wasn’t from any great distance, but the decision to come back to Rio was no small thing. “I was living in São Paulo, working for the largest communications holding company in Latin America, Grupo ABC, and had no intention of returning in the near future,” he recalls.

“One day I got a call from Carlos Roberto Osório, saying he was going to work for the city, taking care of it and preparing it for the [upcoing events]. He asked me to set up the Secretariat for Conservation and Public Services… I’d be trading the certain for the uncertain, earning less and working in an area that was new to me … between working for a huge company or helping turn a city around, I thought the second option more challenging, and that it would be an enormous pleasure to work alongside such competent people who share the dream of turning Rio into the best city in the world to live in.”

Monteiro, who is from a distinguished carioca family, not only took the job as Municipal Undersecretary for Conservation and Public Services, but also helped to found Rio Eu Amo Eu Cuido (Rio I love it I take care of it), an NGO that works to create civic pride.

Samba de breque?

Despite such optimism and excitement, notes education specialist David Letichevsky, Brazil tends to develop in spurts, “like a samba de breque“, a type of samba composed to include abrupt pauses. After twenty years abroad, he came back to work in the municipal school system, armed with a masters in the economics of education from Columbia University. Though he’s decided to leave once more, he offers inspiring advice for anyone considering a return to Rio:

“Bring your critical spirit. Don’t accept things as they are; question, fight, argue. People will slap you in the face, try to trip you up, but don’t let your spirit break. The Brazilian mentality doesn’t much like contestation… it’s very used to patriarchal, rural, slavocrat structures, in a continent-sized country that has little consciousness of its borders. If you not only saw the borders but also passed them, share with your compatriots what’s on the other side– for better and worse.”

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Blog year-end meetup!

Confraternização fim de ano do RioRealblog!

21 de dezembro, quarta-feira, 19 hs (7 pm)

Sindicato do Arpoador

corner of Joaquim Nabuco and Bulhões Carvalho

apareça! just show up

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Without Urani, no RioRealblog

I met André when he was Municipal Labor Secretary, at the end of the 90s. I went to talk to him with a group from the São Conrado Neighborhood Association. We were trying to find a solution to Rocinha’s trash. Because of a political feud in the favela between the devotees of the governor and those of the mayor, we didn’t get anywhere.

André Urani, far right, passed away this morning, age 51

But that day it was obvious that our young, energetic  interlocutor was brilliant. In the midst of gallons of cynicism spread throughout the city, an idealist. Such a person takes the shame out of dreaming.

Years later I ran into André at a birthday party. We began a conversation about  the city of Rio de Janeiro that lasted years, punctuated by his exhortations that usually came at the close of the OsteRio debates.

I’ll never forget the time he called me Julia Roberts, when I put up my hand to aske a question during one of the debates. We laughed so much.

That Osteria dell’ Angolo red wine and eggplant had an effect, as he meant them to in creating OsteRio along the lines of neighborly political debates  in Italy. By 2010 I felt an urgency to get into the fray, to do something to help make sure that the transformation we’d all dreamed of wouldn’t be totally ephemeral.

The idea for the blog came to me, and I quit my good job at Editora Objetiva.

Sensacional,” said André, after reading my first post. “Yesss! ” I thought.

He found out about the cancer late. Even so, he fought it in every possible manner, as was his nature. He still wrote, gave talks, thought, mentored and prodded people. He loved his sons, all just as handsome, full of life and intelligent as he, very much.

May they and all of us carry forth the special flame that was André Urani.

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