Close Encounters of the Fourth Kind

Encontros imediatos do quarto grau [clicar para português]

Whose city is it?

You’re driving slowly on a small street in Rio’s south zone, with two cars visible in your rearview mirror. Suddenly a fourth car appears, blocking your way. Three men get out and each one flourishes a gun in a driver’s face. You hand over your belongings and the car keys; the criminals take the wheel.  The police take fifteen minutes to get there, because cariocas don’t pull over when they hear a siren.

You live in Madureira and have been hearing gunshots in the neighboring favela, for days. You and your family can’t go to work, school, or just plain take a walk.

You leave your house in Serrinha, the favela where the shooting is going on – a war between gangs. You don’t know when you’ll be able to come home. From what you can see, the police only show up when there’s shooting.

Meanwhile, the elite squad occupies 13 favelas and fresh military police recruits go in to pacify them; some drug traffickers are arrested, but others get away. Favela residents say they’re happy; at last there’s peace.

What kind of public safety policy is this? In blogs and on Twitter, cariocas are complaining. It’s not just about trauma and inconvenience; death is at hand.

The latest crime statistics are from the month of August (and show so far a general drop in city crime). There are still no numbers to describe the “wave of arrastões” that O Globo and VejaRio have reported on in recent weeks, but the sense of danger is growing.

State public safety secretary José Mariano Beltrame hasn’t spoken on the subject since early October. What we have are only the suppositions of experts, mostly unnamed, that the drug traffickers are committing robberies either as a response to pacification, or as a way to make up for the losses it’s causing them. Soon, we’ll have the September numbers.

We all know that Rio has a long way to go until it’s a safe city. There are too few police officers, social programs, pacification units; too little time and money. There’s too much fear.

The fear comes from encounters between criminals and victims. It’s rooted in the social apartheid we all experience and that itself feeds division. But the fear can be mitigated by way of another kind of encounter—one that’s been missing for centuries in Brazil.

In the video below, kindly lent by actress and activist Regina Casé with exclusivity for RioRealblog (and sadly, without English subtitles), she asks south zone cariocas if they’ve ever been to their maids’ houses.


Maids know their employers’ lives and homes down to the tiniest detail, but employers rarely do the reciprocal. So Regina invited a young tennis player to visit the home of his ball boy, who lives in the Santa Marta favela. This was four years ago, before the police pacification unit came in. The encounter revealed a great deal. The video is moving, and worth watching even if you don’t know Portuguese.

Poor people live in the Rocinha favela because it’s cheaper. They put up with irregular water, power and sewage service. They throw trash down the hillsides. Rich people live in buildings along São Conrado beach, near Rocinha. On rainy days the trash comes down the hill, blocking pipes, polluting the beach. Rich people drive (or take a helicopter) to homes on other beaches, far from the dirty and dangerous city. Poor people go to the beach in front of the buildings where rich people live.

To whom does Rio de Janeiro belong?

We can and should criticize governor Sérgio Cabral’s public safety policy. But his recent reelection shows that no one has a better idea. The police pacification units are multiplying and spreading. It may be that the state government will slowly deal with other public safety challenges.

This isn’t much for people stuck at home listening to gunshots, or those who have madly struggled with a seat belt with a gun pointed at them.

Meanwhile we all end up rethinking urban life.  “Did you hear about Marvelous Tijuca ?” asks Captain Bruno Amaral, who heads up the police pacification unit in the Morro do Borel favela, contiguous to Tijuca in the north zone. “We had businesses and stores in Tijuca as sponsors, activities for kids, the elite squad and the armored police tank, the caveirão. The idea is to integrate the favela with Tijuca; there were jeep tours, people from Tijuca could visit the favela. People see it and change their ideas. Ninety-nine percent of the people from favelas are good people.”

Your son comes home to the  Jardim Botânico neighborhood and tells you about his day at the Encounter Museum School, a project created in 2010 by Regina Casé, anthropologist Hermano Vianna and multimedia artist Gringo Cardia. He and a fellow student from Serrinha went to Madureira to photograph the new park. After, they returned to the school, located in the revitalized port area, and worked on the material for the museum’s Nature Room. There, cariocas and tourists will see, as Cardia prophesied years earlier, that the museum is “a laboratory for what’s happening around the world” because “Rio de Janeiro is Brazil’s most miscegenated city”.

[RioRealblog heard about the Encounter Museum School at a special presentation at the Casa do Saber, by way of the Rio de Encontros series, organized by O Instituto and CeSec with support from Globo Universidade as well as Casa do Saber]


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Encontros imediatos do quarto grau

De quem é a cidade?


Você dirige seu carro devagar numa transversal da Zona Sul do Rio de Janeiro, com dois carros visíveis no seu retrovisor. De repente, surge um quarto veículo na sua frente, bloqueando o caminho. Três homens descem e cada um deles mete uma arma na cara dos três motoristas. Você passa seus pertences e as chaves do carro; os criminosos pegam no volante.  A polícia demora quinze minutos para chegar, porque carioca não abre caminho quando ouve sirene.

Você mora em Madureira, onde há dias se ouvem tiros vindo da favela vizinha. Você e sua família não conseguem nem trabalhar, nem estudar, nem sair para passear.

Você sai de casa, na Serrinha, a favela onde acontece o tiroteio − uma guerra entre gangues. Não sabe quando vai poder voltar. Pelo que você vê, a p0lícia só aparece quando há tiros.

Enquanto isso, o BOPE ocupa 13 favelas, e recrutas novatos da PM entram para pacificá-las; alguns traficantes são presos, mas outros fogem. Os moradores das favelas se dizem contentes; finalmente há paz.

Que raio de política de segurança é essa? Em blogs e no Twitter, os cariocas estão reclamando. Não é apenas pelo trauma e pela inconveniência; a morte está próxima.

A última atualização das estatísticas de crime é de agosto (e mostra, até então, uma queda geral no crime carioca). Ainda não há números que deem conta da “onda de arrastões” que O Globo e a VejaRio têm noticiado nas últimas semanas, porém cresce a sensação de insegurança geral.

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, não se pronuncia sobre o assunto desde o começo de outubro. O que se tem são apenas suposições de especialistas, em sua maioria anônimos, de que os traficantes estão praticando assaltos no asfalto ou como resposta à pacificação, ou como uma maneira de compensar seus prejuízos com ela. Dentro de pouco tempo, teremos os números de setembro.

Todos sabemos que falta bastante para considerar o Rio de Janeiro uma cidade segura. Faltam soldados e atendimento social, falta UPP, faltam tempo e dinheiro. Sobra medo.

O medo resulta dos encontros entre bandidos e vítimas. Surge do apartheid social que todos vivem e que realimenta as divisões. Mas o medo pode se abrandar por meio de uma outra espécie de encontro − uma troca que durante séculos fez muita falta no Brasil.

No vídeo abaixo, cedido gentilmente por Regina Casé com exclusividade ao RioRealblog, ela pergunta a moradores da Zona Sul se eles alguma vez foram à casa de sua empregada doméstica.



As empregadas conhecem a vida e a casa dos patrões nos mínimos detalhes, mas eles raramente se aventuram no sentido oposto. Regina convidou, então, um menino do asfalto, jogador de tênis, a conhecer o lar de seu boleiro, morador do morro Santa Marta. Isso foi há quatro anos, antes da chegada da UPP a essa comunidade. O encontro trouxe muitas revelações. O vídeo é emocionante e vale a pena assistir, apesar de seus 20 minutos de duração.

Gente pobre mora na Rocinha porque é mais barato. Sofre com irregularidades de água, luz e saneamento básico. Joga o lixo nas encostas. Gente rica mora em prédios na praia de São Conrado, pertinho da Rocinha. Em dias de chuva o lixo desce as encostas, bloqueando canos e poluindo a praia. Gente rica entra no carro (ou helicóptero) e viaja para casas em outras praias, longe da cidade suja e insegura. Gente pobre frequenta a praia em frente aos prédios de gente rica.

De quem é a cidade do Rio de Janeiro?

Podemos e devemos criticar a política de segurança do governo de Sérgio Cabral. Mas sua reeleição demonstra que ninguém tem uma alternativa melhor. As UPPs estão aumentando em número e alcance. Pode ser que aos poucos os outros desafios de segurança sejam tratados pelo governo estadual.

É pouco para quem está preso em casa ouvindo tiros, ou para quem luta freneticamente com um cinto de segurança na mira de uma arma de fogo.

Nesse meio-tempo, somos todos levados a repensar a vida urbana.  “Você soube do Tijuca Maravilhosa?”, pergunta o capitão Bruno Amaral, que chefia a UPP no Morro do Borel, Tijuca, Zona Norte. “Havia o patrocínio de empresas e lojas da Tijuca, atividades com crianças, o BOPE com o caveirão. A ideia é integrar a comunidade com a Tijuca; havia tours de jipe, moradores da Tijuca podiam ir à comunidade. As pessoas veem a comunidade e mudam suas ideias. Noventa e nove por cento das pessoas das comunidades são do bem.”

Seu filho chega em casa no Jardim Botânico e conta o dia na Escola-Museu do Encontro, projeto idealizado em 2010 por Regina Casé, Hermano Vianna e Gringo Cardia. Ele e um colega do Morro da Serrinha foram a Madureira, para tirar fotos do novo parque. Depois voltaram à escola, que fica no porto revitalizado, e prepararam o material para a Sala da Natureza do museu. Lá, os cariocas e turistas vão ver que, como Cardia profetizou há anos, o museu é “um laboratório para o que o mundo está vivendo”, pois “o Rio de Janeiro é a cidade mais miscigenada do Brasil”.

[RioRealblog conheceu o projeto Escola-Museu do Encontro durante uma apresentação especial na Casa do Saber por meio do Rio de Encontros, organizado por O Instituto e o CeSec com apoio da Globo Universidade e da própria Casa do Saber]


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Numa favela pacificada, como uma UPP Social começa a trabalhar?

How does the social UPP program begin its work in a pacified favela? [click for English]

Ocupação há cinco meses

Morro do Borel, 28 de outubro de 2010. Cinco meses após a chegada da UPP nesta área de sete favelas. Na quadra do CIEP, ouvem-se os pardais que voam por cima das cabeças dos participantes na reunião. Antigamente, balas voavam ali.

A ocupação e pacificação de algumas das principais favelas do Rio de Janeiro, seguidas pelo fim da omissão do poder público e da sociedade civil, representam o começo de uma profunda mudança social. E as profundas mudanças sociais acontecem somente quando lideradas por pessoas excepcionais, com equipes excepcionais. Não são ofício de burocrata, nem de populista.

Silvia Ramos carrega o pesado título de Subsecretária de Ações Integradas no Território, mas ela é “toda leveza”. Hoje é mestre de cerimônias, abrindo a reunião ao apresentar praticamente cada um dos 136 participantes, número recorde até agora para uma primeira reunião comunitária de UPP Social. Conhece quase todo mundo. Quando não conhece, pergunta. Num dado momento ela para em frente a um garoto sentado ao lado da mãe. “Quem é você?”


A ideia é que Luís não seja mais "ninguém"


“Ninguém.” Silvia coloca o microfone na frente do garoto e faz com que ele diga que o nome dele é Luís.

Estão presentes uma equipe do Banco Mundial, gente da Light, Cedae, da Polícia Militar, da Federação Estadual de Indústria (FIRJAN), da Comlurb, de secretarias estaduais e municipais de saúde e educação, o subprefeito da Tijuca, representantes de secretarias de cultura e de turismo, gente de ONGs e igrejas, os presidentes de cinco associações de moradores, e alguém de uma escola de inglês. Estão todos aqui, depois de décadas de descuido das sete comunidades que fazem parte do Morro do Borel, onde moram em torno de 35 mil pessoas. Nos anos 1920, a favela surgiu nos arredores de uma fábrica de cigarros, propriedade de dois irmãos franceses, de sobrenome Borel. Décadas mais tarde outro nome francês estava no local, o hipermercado Carrefour. Mas há cerca de quatro anos foi fechado, devido ao perigo constante dos tiroteios. A Tijuca está repleta de elefantes brancos desse tipo.


Henriques tanto ouve (e observa) quanto fala


Seria um exagero dizer que Ricardo Henriques, Secretário Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos, é o Martin Luther King da UPP Social. Mas, vendo-o em ação, chega-se à conclusão de que esse followup à pacificação, imprescindível ao êxito da política estadual de segurança pública (imprescindível por sua vez ao êxito da Copa e das Olimpíadas), depende em alto grau de sua pessoa. É tanto sonhador como fazedor. Ele lembra que há apenas três anos era impossível cogitar uma reunião como essa. “O que estamos fazendo aqui é abrir um campo de escuta forte,” ele diz. O termo é novo; no Brasil a escuta costuma se fazer de baixo para cima. Faz uma mea culpa da ausência do poder público. Ressalta as novas parcerias entre os diferentes níveis de governo com a comunidade, as ONGs e o setor privado. Explica que o que se faz agora é integrar a cidade, seu asfalto com seus morros. Termina por dizer que o Rio de Janeiro está liderando um processo que mostra o caminho para todo o país.

O próximo a falar, rapidamente, é o Secretário de Conservação. Fala do que já está fazendo na favela: melhorias na coleta de lixo, o problema número um. As ruas são estreitas e os caminhões têm dificuldade para passar, sobretudo quando os moradores estacionam seus carros em lugares indevidos. Agora há uma segunda caçamba no morro, e, em caráter experimental, uma terceira está aqui em baixo ao lado do CIEP. Haverá coleta seletiva. O Borel produz nove toneladas de lixo por dia.

Logo chega o momento da verdade. Pode haver briga, a reunião pode se tornar uma lenga-lenga de reclamações e recriminações. Reuniões brasileiras costumam transbordar, prestigiar a emoção mais do que a razão.

Dez ou 15 pessoas se levantam para ficar na frente de todos. Apresenta-se A Rede; reuniram-se as ONGs e as associações de moradores para constituí-la. A líder, Mônica Francisco, expressa sua preocupação principal de maneira direta e sucinta, com um toque de ira. Mora ali há quarenta anos. O pessoal dela já é veterano. Não querem que o poder público, agora que resolveu agir, imponha programas sem diálogo. “Não queremos ações verticais,” ela diz. “Queremos diálogo de igual para igual.” Os presidentes das associações de moradores falam também, um pouco cada um. A presidente de Usina comenta que “nunca chegou nada à Usina. A única coisa que chegou foi a UPP.”

Aparecem umas três folhas na mão de um deles; vieram preparados. Uma moça lê  em voz alta a lista dos desejos da comunidade. É apenas um começo, ressalta: estágios, empregos, reformas, expansão de creches, empreendedorismo, feiras de cultura e esportes, saneamento, luz regularizada, coleta de lixo, educação ambiental, resolução de questões de acesso veicular, assistência jurídica, saúde da mulher. O papel é entregue à mão de Henriques.


A lista


Agora fala um executivo da Cedae, confessando vergonha do mau atendimento da empresa de água e esgoto. Descobriu-se que a falta de manutenção devido ao perigo (“Dez anos atrás, quando a polícia chegava, eu mandava minha equipe sair já. Agora a gente chega junto.”) levou a vazamentos e um enorme desperdício de água.  A Light já constatou o mesmo fenômeno: quem não paga conta de luz, por utilizar “gato”, liga o ar-condicionado e deixa as portas e janelas escancaradas. Durante décadas, o Rio de Janeiro pagou o preço da falta de segurança pública, em renda perdida de turismo e negócios, em muros, seguros, alarmes, carros blindados, guardas, câmeras de segurança, saúde mental e física, educação deficiente, corrupção, mortes e feridas. Agora a cidade descobre que o descaso custa caro por meios que não imaginava.

Padre Olinto, veterano das lutas do morro, presente ali desde os anos 1970, elogia a polícia. Nunca fez isso.

O microfone volta ao Henriques. “Agora é a hora de cada um fazer o que tem que fazer,” ele afirma. “Não é a história desta cidade, o que já é uma revolução.” A próxima reunião será em fevereiro. Até lá, grupos de trabalho se reunirão. Henriques repara que A Rede e as associações de moradores estão ali juntos, o que é incomum. “Isso dá trabalho,” ele comenta. “Imagino o ruído atrás desse processo.” Mônica sorri pela primeira vez.

Silvia, que passou a reunião toda mastigando chiclete e fazendo sim com a cabeça, volta à cena. Caminha até o pequeno Luís. “Gostou?”

“Gostei.”

“Então a reunião está encerrada.”


"A vida na favela acontece, mediando conflito e conciliando questões."-- presidente de associação de moradores

Até fevereiro de 2011 a UPP Social estará presente em dez favelas onde já existe UPP. O Borel é a terceira.



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How does the social UPP program begin its work in a pacified favela?

Five months into the occupation

Morro do Borel, October 28, 2010: five months have gone by since the state military police occupied and pacified this area comprising seven favelas. The Borel occupation is part of the UPP program that has now “retaken” 12 territories of the city of Rio from drug traffickers.

In an elementary school’s upstairs open-sided play area, chirping sparrows can be heard as they fly in and out. Bullets used to fly here.

The arrival of the UPP in this area contiguous to the Tijuca section of Rio, now followed by social services, represents the start of a deep social change. And deep social change occurs only when led by exceptional people and their exceptional teams. It’s not a job for bureaucrats or populists.

Silvia Ramos has the strange and heavy title of Undersecretary for Integrated Action in the Territory, but she’s light on her feet. Today she’s emcee, opening the meeting by introducing each one of the 136 participants, the most up to now for a first Social UPP community meeting. She knows almost everyone. And when she doesn’t, she asks, which is very un-Brazilian in its directness. She stops in front of a boy sitting next to his mother. “Who are you?”

The idea is that Luís is no longer "nobody"

“No one.” Silvia puts the microphone in front of the boy and makes him says his name is Luís.

Present are a team from the World Bank, people from the electric company, the sewage and water company, the military police, the state industrial federation, the trash collection agency, the state and municipal health and education departments, the local city hall, representatives from the culture and tourism departments, NGOs and churches, the presidents of five favela neighborhood associations, and someone from an English language school. They’re all here, after decades of neglect of the seven communities that make up the Morro do Borel, where about 35,000 people live. In the twenties, the favela grew up near a cigarette factory owned by the French Borel brothers. Decades later another French name was in the area, the Carrefour hypermarket. But it closed about four years ago because of the constant threat posed by gunshots. Tijuca is full of white elephants like it.

Henriques listens as much as he speaks-- and observes

It would be an exaggeration to say that Ricardo Henriques, State Secretary for Social Assistance and Human Rights, is the Social UPP’s Martin Luther King. But watching him in action you come to the conclusion that the social followup, key to the success of the state public safety policy (itself key to the success of the 2014 World Cup and the 2016 Olympics), is hugely dependent on this man—both a dreamer and a doer. His brief is to sort out hundreds of existing (and often overlapping) programs offered by governments, NGOS and private companies, and to ensure that residents of pacified favelas have access to the same goods and services as everybody else. The governor has said the UPP communities have priority over the rest of the city.

Henriques reminds those present that only three years ago such a meeting was unthinkable. “What we’re doing here is opening up a field for strong listening,” he says. This isn’t an idiomatic expression in Portuguese; in Brazil the listening has traditionally been done from the bottom up. Next comes his mea culpa for the government’s neglect. He emphasizes the new partnerships among the different levels of government and with the community, NGOs and the private sector. Then he explains that what’s happening is an integration of the city, of its asphalt and its hills, as cariocas like to call the formal city and the informal one. Last, he trumpets that Rio is leading a process that shows the way for the entire country.

The next speaker is the state conservation secretary, to quickly sum up what he’s already doing: improved trash collection, the number one problem. The trucks often can’t get through the narrow streets, especially when residents park where they shouldn’t. Now there’s a second dumpster on the hill and an experimental third one down next to the school. There’ll be recycling. Borel produces nine tons of trash a day.

Soon comes the moment of truth. There could be nasty arguments; the meeting could become a drawn-out bunch of complaints and recriminations. Brazilian meetings tend to be unruly, more focused on emotion than reason.

Ten or 15 people get up to stand together in front of everybody else. A Rede, the network, is presented; the NGOs and neighborhood associations have come together to make it up. The leader, Monica Francisco, expresses her main concern in a direct and succinct manner, with a touch of rage. She’s lived here for 40 years. Her people are veterans. They don’t want the government, which has finally decided to act, to impose programs without dialogue. “We don’t want top-down action,” she says. “We want dialogue on a basis of equality.” The neighborhood association presidents also speak, briefly. The president of the Usina area states that “nothing ever came to Usina. The only thing that ever came was the UPP.”

Three sheets of paper appear; the residents have come prepared. A woman reads the communities’ wish list out loud. It’s just a beginning, she says: internships, jobs, remodeling and expansion of day care centers, entrepreneurship training, cultural  and sports events, sewage systems, normal electric power service, trash collection, environmental education, the resolution of vehicular access issues, legal aid, womens’ health. The paper is put into Henriques’ hand.

The wish list

Then a water and sewage company executive speaks, confessing his shame at poor service. The lack of maintenance because of the danger (“Ten years ago, when the police arrived I used to tell my teams to get out, fast. Now we go in together.”) led to leakage and enormous waste of water. The electric company has seen the same phenomenon: people who don’t pay a light bill because they’re hooked up to the system informally simply turn on the air conditioning and leave their doors and windows wide open. For decades Rio de Janeiro has paid the price of poor public safety, in lost tourism and business, in walls, insurance, alarms, armored cars, guards, security cameras, mental and physical health, spotty education, corruption, deaths and injuries.  Now the city is finding out that neglect is expensive in ways it hadn’t even imagined.

Father Olinto, veteran of many a struggle in Borel, present there since the seventies, praises the police. He’s never done that.

The microphone returns to Henriques. “Now it’s time for each person to do what he’s supposed to do,” he states. “That’s not in this city’s history, which is in itself a revolution.” The next meeting will be in February. Until then, working groups will meet. Henriques notes that the NGOs and the neighborhood associations are united, which is unusual. “That takes work,” he comments. “I can imagine the difficulties of that process.” For the first time, Monica smiles.

Silvia, who’s spent the entire meeting chewing gum and nodding her head, is back in the emcee role. She walks over to little Luís. “Did you like it?”

“I did.”

“Then the meeting is over.”

"Life in the favela goes on, mediating conflict, making compromises."-- neighborhood association president

By February 2011 the Social UPP program will be present in ten favelas which have already been occupied and pacified. Borel is the third.

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Liberdade, enfim: as favelas do Borel, casa para 35 mil

Lenita de Sousa Vilela é diretora do CIEP Antoine Margarinos Torres, que atende a 500 crianças de 4 a 11 anos. Há cinco meses, 300 recrutas recém-treinados da Polícia Militar ocuparam e pacificaram a região do Morro do Borel, na Tijuca. O tráfico de drogas ainda existe, mas não há mais armas. Lenita nasceu de novo.


Durante todo o ano anterior à chegada da UPP, o tiroteio era praticamente diário. As crianças não dormiam por causa dos tiros. Na escola, tinham medo de ser atingidas por uma bala perdida e temiam pelos familiares, que às vezes estavam envolvidos. Você não sabia quando iria começar, quando iria terminar, nem quem estava atirando. Sabia apenas que estava no lugar errado, na hora errada. Graças a  Deus, nunca ninguém se feriu. Mas houve muitos estragos no concreto, que já arrumei. Guardei algumas balas que chegaram até a escola, para usar no que eu chamo de meu Museu do Holocausto. Sobrevivi a um Holocausto, que exterminou meus sonhos e minha voz, minha capacidade de falar a verdade. Me sinto omissa, mas tive que ficar quieta para sobreviver.

Quando a polícia invadia a favela, eles queriam entrar na escola para beber água. Não podia deixar. Não podia trazer visitas nem mostrar a vista desta quadra. Se fizesse isso, o traficante mandava um homem armado para me dizer que tinha que parar de apontar. Quando instalei câmeras de segurança na escola, ele mandou um homem aqui, para perguntar por que estava vigiando eles. Eu estava aqui naquele dia por acaso, estava de licença-maternidade. Lá estava eu, dando de mamar ao meu filho, na frente de um homem armado. Mostrei para ele que as câmeras focavam os meus alunos. Falei que eu não tinha interesse nenhum naquilo que ele e seu pessoal estavam fazendo. Falei para ele cuidar do pedaço dele que eu cuidava do meu.

Deus me manteve aqui (como diretora) por 18 anos porque ele queria que eu comesse filé, depois de comer apenas osso. Tem que ter eleição para esse cargo, mas em todos esses anos eu nunca tive concorrente. Ninguém mais queria trabalhar aqui.


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Free at last: the Borel favelas, home to 35,000

Lenita de Sousa Vilela is the principal of the Antoine Margarinos Torres elementary school, which serves 500 children ages 4-11. Five months ago, 300 military police recruits occupied the  Borel area, in Tijuca, north zone. There is still drug trafficking, but the guns are gone. Lenita is a new woman.

Pointing, and no shooting, now the UPP is in place

In the last year  before the UPP [military police occupation and pacification], the shooting was practically daily. The children didn’t sleep because of the shooting. At school, they were afraid of being hit by a stray bullet and they were fearful for their family members, who were sometimes involved. You didn’t know when it would begin, when it would end, nor who was doing it. You only knew you were in the wrong place at the wrong time. Thank God, no one was ever hurt. But there are lots of bullet holes, which are now patched up. I’ve saved some of the bullets that hit the school to use in what I call my Holocaust Musuem. I lived through a Holocaust which exterminated my dreams and my voice, my ability to speak out. I felt I wasn’t doing  my full duty but I had to keep quiet to survive.

When the police would invade the favela they’d want to come into the school and get a drink of water. I couldn’t let them. I couldn’t bring visitors here nor point out the sights from this play area. If I did that, the trafficker would send an armed man down to tell me to stop pointing. When I installed security cameras in the school, he sent somone down to ask why I was spying on them. I happened to be here that day, I was on maternity leave. There I was, breastfeeding my baby, there in front of a man with guns. I showed him that the cameras were focused on my students. I told him I wasn’t the least bit interested in looking at what he and his people were up to. I told him to take care of his own business and I’d take care of mine.

God kept me here (as principal) for 18 years because he wanted me to eat filet mignon, after only munching on the bone. This is an elected  position, but I never had an opponent in all these years. No one else wanted to work here.

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“I know how the coach Dunga felt during the last World Cup”

Gustavo de Almeida easily admits he has one of the worst public relations jobs in Rio de Janeiro: press attaché for the general command of the military police. “Shit happens every day,” says Almeida, who lives with his cell phone “practically attached to my skin”.

A veteran journalist of 42, Almeida came on the job ten months ago and is part of a new era for Rio’s military police, which began during the first term of current governor Sérgio Cabral. It used to be, says Almeida, that the police knew how well they were doing by the number of deaths, arrests and drug they came up with. Now, the bottom line is “prosperity, economic growth, full streets at night, people working normally, favela residents with the right to move around as they please “.

These items are much harder to quantify than kilos of marijuana and dead criminals, but Almeida seems to like difficulty. And his hardships often mess with human nature. “When you have an event,” he explains, “there are two courts. The formal court of the law, of reason, where you have the right to a defense and can appeal a decision; and the court of public opinion, where you have no right to a defense. And the only defense you have is to apologize.”

An apology is what his boss, commander colonel Mario Sérgio Duarte, made after the death of 11-year-old Wesley Gilber Rodrigues last July, victim of a stray bullet in a public school classroom. Almeida says that before the new communication policy was in place, the military police would simply say the bullet hadn’t come from them. Even when the police aren’t at fault in a case like this (“the end of the world” in his words), he adds, they are responsible.

Under the guidance of colonel Duarte, the military police are now set up for professional communication. Duarte, who recently gave a must-read interview in the yellow pages of Veja magazine (summarized here in English), possibly the space boasting the highest readership in the Brazilian print media, also hired a public relations agency, FSB Comunicações.

And he’s got Almeida, blessed with the gift of being able to sum up meaning in just  few words. The last ones of this post are his:

“The new press office of the military police isn’t the ‘advocate’ of the military police, we’re communications managers. We don’t defend the police just for the sake of defending them; instead we analyze to what degree our employee acted in defense of the citizenry. And we communicate what happened, analyzing  the reasons for it and what actions were taken.”

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“Sei como o Dunga se sentia na Copa do Mundo”

 

Gustavo de Almeida logo confessa que ocupa um dos piores cargos de comunicação social do Rio de Janeiro: assessor de imprensa do comandante-geral da Polícia Militar. “Tem uma merda a cada dia,” diz ele, que vive com o celular “praticamente acoplado à pele”.

Jornalista veterano de 42 anos, Almeida chegou ao cargo há dez meses, e faz parte da nova era da Polícia Militar carioca, que se iniciou no primeiro mandato do atual governador, Sérgio Cabral. Antigamente, diz Almeida, a polícia avaliava o seu desempenho em termos de mortos, prisões e apreensões de drogas. Agora, o balanço se mede por “prosperidade, crescimento econômico, ruas cheias à noite, gente trabalhando normalmente, pessoas que moram em favelas com o direito de ir e vir”.

Esses itens são bem mais difíceis de quantificar do que quilos de maconha e números de bandidos mortos, mas Almeida parece gostar do que é difícil. E frequentemente suas dificuldades mexem com a natureza do ser humano. “Quando você tem um evento,” ele explica, “há dois tribunais. O tribunal formal da lei, da razão, onde você tem o direito à defesa e pode apelar uma decisão; e o tribunal da opinião pública, onde você não tem o direito à defesa. E a única defesa que você tem é o pedido de perdão.”

Pedir perdão foi o que o seu chefe, o comandante-coronel Mario Sérgio Duarte, fez depois da morte do menino Wesley Gilber Rodrigues em julho passado, vítima de bala perdida na sala de aula de uma escola pública. Antigamente, diz Almeida, a PM simplesmente declarava que o tiro não havia partido da Polícia Militar. Mesmo que a polícia não tenha culpa num caso desses (“o fim do mundo” nas palavras dele), acrescenta, tem sim responsabilidade.

Sob a direção do coronel Duarte, a Polícia Militar agora está voltada para uma comunicação profissional. Ele, que recentemente deu uma entrevista imperdível às páginas amarelas da revista Veja (resumida em inglês aqui), espaço mais lido da imprensa escrita brasileira, também entregou algumas tarefas de assessoria de imprensa a uma agência especializada, a FSB Comunicações.

E conta com Almeida, que tem o dom de resumir significados em poucas palavras.  Assim, as últimas deste post ficam com ele:

“A nova Assessoria de Imprensa da PM não cultua o hábito de ser ‘advogado’ da PM, nós somos gerentes da comunicação. Não temos o hábito de defender por defender, e sim analisar de que forma nosso funcionário agiu em defesa ou não do cidadão. E comunicar o que aconteceu, com uma análise de razões e as devidas providências.”

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Peace and the police/ Paz e a polícia

“Police reform is happening by way of the UPPs.”

–Sílvia Ramos, undersecretary for integrated action in the territory, state UPP social program

O Globo reports that Rio’s police are killing fewer people: shooting deaths in police self-defense in August 2010 came to 30, less than half the 75 that occurred in August 2009.

In the first half of 2010, this type of homicide was down 10%, compared to the same period in 2009. Fewer police officers died in the line of duty, as well– 23 officers from the military and civil police forces were killed in the first half of 2009, against eight in 2010.

Police reform has been on the carioca agenda for at least ten years; the memoir Meu Casaco de General by anthropologist Luiz Eduardo Soares (one of the authors of the Elite Squad books), former state public safety undersecretary, laid out in back 2000 what needed to be done and why. But the challenges are knotty, beginning with the fact that Rio has a military police force, the civil police, traffic police, the municipal guard, highway police, and the local office of the federal police, Brazil’s FBI. And then there are the militias, that extort protection in poor areas of the city. It could be, as Ramos posits, that the UPP, or police pacification program, present now in 13 favelas, is causing a shift in attitudes and behaviors.

The overall August monthly crime statistics released by the state government’s Public Safety Institute (ISP, using the Portuguese acronym), are indeed heartening:  344 murders in Rio de Janeiro state, the fewest since 1991. This is 20% down from the previous August.

In Copacabana, only one car was stolen in August; both there and in Botafogo no homicides occurred, possibly a reflection of the police pacification units now installed in those areas.

Street crime was also down, 8%– but, as Globo notes, the “wave of arrastões” (see here for a post on this kind of urban crime) hadn’t yet begun in August.

Using official statistics, CeSeC, a study center that is part of the Cândido Mendes University, found that homicides per 100,000 inhabitants in the January-August period of the year fell from 25.5% in 2009 to 20.3% in 2010.

“A reforma da polícia está vindo pelas UPPs.”

— Sílvia Ramos, Subsecretária de Ações Integradas no Território, UPP Social

O Globo noticia que a polícia carioca anda matando menos gente: os homícidios resultantes de legítima defesa policial em agosto de 2010 totalizaram 30, menos de metade dos 75 que ocorreram em agosto de 2009.

No primeiro semestre de 2010, houve um decréscimo neste tipo de homicídio de 10%, comparado como mesmo período de 2009. Também morreram menos policiais em serviço– 23 policiais civis e militares foram mortos na primeira metade de 2009, contra oito em 2010.

Sabe-se há pelo menos dez anos da necessidade por uma reforma policial; o livro de memórias Meu Casaco de General pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares (um dos autores dos livros Elite da Tropa) subsecretário estadual de segurança pública no governo Garotinho, já em 2000 afirmava o que era preciso fazer, e porque. Contudo, os desafios são cabeludos, a começar pelo fato que o Rio de Janeiro tem uma polícia militar, a polícia civil, a CET, a guarda municipal, a polícia rodoviária, e o braço local da polícia federal. E depois há as milícias. Pode ser, conforme sugere Ramos, que as UPPs, presentes agora em 13 favelas, realmente estão trazendo uma mudança de atitudes e comportamentos, e não apenas entre traficantes de drogas.

As estatísticas mensais de agosto divulgadas pela autarquia estadual ISP são encorajadoras: 344 homicídios no estado de Rio de Janeiro, o menor número desde 1991. Representa uma queda de 20% em comparação com agosto de 2009.

Em Copacabana, apenas um carro foi roubado em agosto; lá e também em Botafogo, não houve homicídios no mês, possivelmente, como O Globo sugere, um reflexo das UPPs na região.

A crime de rua também teve queda, de 8%– mas, como o jornal comenta, em agosto a “onda de arrastões” (veja aqui um post sobre o assunto) ainda não havia começado.

Utilizando a estatística oficial, CeSeC, um centro de estudos que faz parte da Universidade Cândido Mendes, concluiu que os homicídios por 100 mil habitantes no período janeiro-agosto tiveram queda de 25,5% em 2009, para 20,3% em 2010.

 


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O que é isso? Helicópteros e sirenes não detêm crime

Os arrastões tradicionais cariocas aconteciam na praia, com todo mundo descalço

A polícia carioca já ocupou e “pacificou” um número impressionante de 13 favelas desde o fim de 2008. Também já começou a atentar para as milícias que extorquem moradores de bairros pobres onde traficantes de drogas estão ausentes. E o Estado do Rio está rapidamente aumentando sua presença nas favelas pacificadas, com o programa inovador da UPP social.

No final da semana passada, a polícia militar também conseguiu dar fim a uma batalha que durou dez dias entre gangues rivais de traficantes de drogas, em Madureira.

Mas continua sem trégua a onda de arrastões que acontece em vários locais da cidade desde o início de setembro.  Por enquanto ninguém diz quem está fazendo os arrastões, nem se os criminosos seriam traficantes ou milicianos recém-despejados de seus territórios. Se os crimes continuarem por mais muito tempo, periga erodir o apoio das classes média e alta pela política estadual de segurança pública, tão evidente na reeleição de margem ampla de Sérgio Cabral para governador no dia 3 de outubro.

O problema pode residir em semântica. Gustavo de Almeida, assessor de imprensa do comandante-geral da Polícia Militar, acredita que a palavra “arrastão” esteja sendo usada demais, para descrever praticamente qualquer assalto nas ruas asfaltadas da cidade. A tal onda, diz ele, pode ser apenas uma coleção de crimes que fazem parte da vida normal urbana. Não há como saber as origens dos criminosos e nem fariam parte de qualquer movimento organizado para desestabilizar a política de segurança pública do Estado.

Diz ele, em palavras exclusivas para o RioRealblog:

Eu não diminuo de maneira nenhuma o impacto e o trauma que os assaltos ocorridos causam nas vítimas, e, claro, nos cidadãos cariocas que tomam conhecimento destes fatos. O que eu questiono, sempre, é a utilização da mesma palavra para ocorrências diferentes. Convencionamos no passado distante chamar “Arrastão” todo aquele assalto que é praticado por muitos agressores e com muitas vítimas. A imprensa atualmente chama de arrastão qualquer assalto “rápido” (como se todos os assaltos não fossem rápidos) e em “via pública”.
Questiono seriamente isto. Não que eu negue a existência de “arrastões” no Rio de Janeiro. Por exemplo, houve outro dia um assalto a ônibus em que 45 passageiros foram vitimados, na Avenida Brasil. Ora, com tantas vítimas, isto não é um “arrastão”? Por que é apenas um “assalto a onibus”? Há uma tabela para quantificar o “arrastão”?
O uso desta palavra serve, portanto, para tipificar como grave crimes que são comuns (embora indesejáveis, claro) numa cidade grande como o Rio de Janeiro. Dão aos crimes uma gravidade muito maior do que a que eles já têm – e acabam contribuindo para prejudicar a imagem de uma cidade que hoje tem uma política de segurança pública bem definida, uma Polícia Militar que não para de tentar melhorar, de rever métodos e procedimentos.
Há um mês, fomos consultados sobre “arrastões” na Avenida Martin Luther King, antiga Avenida Automóvel Clube, na Zona Norte. Pedimos uma reunião com o comandante do Comando de Policiamento da Capital, coronel Marcus Jardim. Ele fez uma pesquisa de registro de ocorrência e, naquele mesmo dia, detectou que em duas semanas, nos 25 quilômetros de via, haviam sido registrados seis roubos de automóveis (em ocorrências separadas) e dois de motocicletas.
É claro que são roubos que não podemos minorar e que não deveriam acontecer. Mas infelizmente o modelo de metrópole que hoje temos no mundo ocidental leva a este “ideal” de “mais baixo índice possível”, mas reconhecendo o zero como impossível.

O noticiário da TV Globo tem como política usar pouco a palavra “arrastão”, porém a mídia impressa do mesmo grupo já  difere. Uma busca pela palavra no blog “Caso de Polícia” do jornal Extra (do Globo) levantou quase vinte casos de vitimas na rede pesqueira nos últimos dois meses. Duas pessoas morreram baleadas nesses ataques, inclusive uma criança; mais duas se feriram. A polícia militar efetuou mudanças de pessoal e voltou a utilizar patrulhas de helicóptero no intuito de criar uma estratégia anti-crime mais bem-sucedida, mas até agora continuam os tais arrastões. Segunda-feira à noite no Humaitá, perto da Casa de Espanha, três homens armados bloquearam o trajeto de carros e levaram os pertences de três motoristas, e mais as chaves de dois dos carros. A polícia demorou 15 minutos para chegar; mais tarde fizeram um apelo para que motoristas abram a passagem ao ouvir sirenes.

Mas os cariocas sabem que isso pode ser perigoso. Apenas dez dias atrás, um motorista perdeu seu Fiat Uno para um “policial” que dirigia uma moto com a sirene ligada. Foi somente ao descer do carro, a mando do soldado, que reparou nos tênis do homem uniformizado, no lugar da bota preta comum ao figurino padrão da PM.

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