Carnaval 2014: greve de garis aponta transformação social

um lado da moeda

Coroas

Carnalixo, de acordo com alguns

Tudo bem sentir raiva na multidão; a multidão sente sua ira, digere-a, alimenta a raiva do mesmo jeito que sua raiva a alimenta. De repente, você se sente mais poderoso. Você vence qualquer um. Não é mais a cidade deles, é a sua cidade. Você ganhou essa cidade pelo mérito de sua ira.

–Suketu Mehta, escrevendo sobre Bombaim, no seu livro Bombaim: Cidade Máxima, publicado em inglês em 2004

Há algo de trágico nos loucos. E não apenas o que é definido como loucura nessa época histórica. Há uma outra tragédia, que é a de não ser escutado. Sempre que alguém com um diagnóstico de doença mental comete um crime, a patologia é usada para anular as interrogações e esvaziar o discurso de sentido. A pessoa não é mais uma pessoa, com história e circunstâncias, na qual a doença é uma circunstância e uma parte da história, jamais o todo. A pessoa deixa de ser uma pessoa para ser uma doença. 

–Eliane Brum, escrevendo sobre os casos recentes de violência no Brasil, no site do jornal espanhol El País em português

O carnaval é o principal evento da cidade do Rio de Janeiro . Nós entendemos como chantagem esse movimento realizado justamente neste período.

— Vinícius Roriz, presidente da Comlurb, citado no site da Globo, G1

Cara

Cara

Diante da turbulência que começou em junho passado e que, de alguma forma, continua até hoje, era de se esperar algo diferente neste carnaval. Mas o quê, já que o carnaval em si traz tudo que questiona, burla e inverte?

Mal sabíamos nós, a equipe recém-formada da RioRealblogTV, que acertamos na mosca com a escolha do assunto de nosso primeiro vídeo.

A ironia não poderia ser maior: enquanto o carnaval representa a fuga de tudo que é verossímil, com foliões fantasiados de marinheiros, piratas, e carmelitas, a realidade se apresenta de maneira inevitável e fedida. Desta vez, os 15 mil garis do Rio deram longa vida às montanhas de detritos que até então, como num passe quase de mágica, tiravam de nossa vista.

Eis a violência que temíamos neste ano de folia. Fazendo convite ao prefeito para varrer a cidade sozinho, os garis se manifestavam nas ruas da cidade. “O prefeito quer fazer a Copa, os garis querem fazer as compras” dizia um cartaz.

A bagunça traz consigo toda a complexidade do momento, com grevistas (agora demitidos) dizendo que o sindicato, que negociou um aumento de 9%, não os representa. Como calcular o valor da limpeza urbana hoje, quando um gari facilmente arranja outro emprego, o custo de vida sobe freneticamente e estamos às vésperas da Copa?

Coleta

Coleta

No ano passado, o blog comentou a falta de sustentabilidade do carnaval evidente na produção de lixo. Aparentemente, a prefeitura, a Dream Factory (empresa que organiza o carnaval de rua) e a Ambev também identificaram o problema. Neste ano houve uma maior coleta de recicláveis e orientação de ambulantes.

Mas a greve do carnaval 2014 demonstra um descuido que vai além do meio ambiente, que permeia toda a sociedade brasileira e provavelmente seja fonte importante da violência que experimentamos, conforme comentado no artigo excelente de Eliane Brum. É o descuido do ser humano.

Por que o Rio é tão sujo? 

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Missing link / O link que faltava

Dear Reader by subscription

To watch our new video / para assistir o vídeo novo

The trash strike is spreading

The trash strike is spreading

For some reason, WordPress doesn’t embed YouTube videos in posts that go by email to subscribers.

So here’s the link to our new video. You can click on the captions icon just under the screen, to read subtitles in English.

Sorry and thanks for watching!

Não tem a força

Não tem a força

Por algum motivo, a WordPress não inclui vídeos no meio do post, quando vai diretamente por email aos assinantes.

Então, o link é esse.

Desculpem o transtorno! Agradecemos a atenção.

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Por que o Rio de Janeiro é tão sujo?

Carnaval, ano passado

Carnaval, ano passado

For Why is Rio so dirty?, click here

Estreia da RioRealblogTV

Por que o Rio está tão sujo? Pergunta praticamente todo visitante, mesmo aqueles que amam a cidade e acabam ficando por aqui.

Essa pergunta levou o RioRealblog a sair em busca de respostas e de lixo, para montar o piloto de três minutos do que esperamos ser uma série de vídeos da RioRealblogTV. Assista, compartilhe e dê sua opinião, tanto sobre o lixo na cidade quanto sobre o vídeo. Em breve, estaremos à procura de patrocínio.

O que encontramos

Percebemos que há menos lixo do que antes. A campanha que começou no ano passado, de Lixo Zero, com a cobrança de multas, teve algum impacto. Em áreas com atuação dos inspetores – o centro da cidade e bairros da Zona Sul – a coleta de lixo sofreu redução de até 58%!

O lixo ainda é uma das maiores queixas entre moradores de favelas, onde a topografia muitas vezes dificulta a coleta.

Também aprendemos algo sobre a mentalidade brasileira (parece que está mudando, mesmo que bem lentamente), sobre o costume de jogar lixo nas ruas. Essa blogueira tem idade o suficiente para se lembrar do primeiro Dia da Terra nos Estados Unidos em 1970 – um dia vivenciado na companhia de outros adolescentes, catando lixo pelos trilhos do bonde, no subúrbio de Newton, Massachusetts.

Uns quarenta anos depois, é chocante para os turistas (e moradores) perceber o descaso com que papel e plástico são jogados nas ruas do Rio de Janeiro. Na orla de Ipanema, por exemplo, os donos de quiosques até abandonam as áreas reservadas aos seus clientes, para que os garis façam a limpeza.

Mas, amamos os garis, né? O famoso gari dançarino carioca, Renato “Sorriso” Luiz Feliciano Lourenço, deve sorrir tanto porque adora limpar a nossa sujeira, não é mesmo?

Não foi bem isso que Landenberg Benedito da Silva, um gari que entrevistamos, disse. E, nem todos os garis, que alegam receber baixa remuneração, estão sorrindo. Alguns deles estão em greve durante o Carnaval. Pior, ou melhor, momento possível para uma greve!

Além da falta de preocupação com o meio ambiente, pode ser que os brasileiros também tenham uma noção frágil de responsabilidade pelos espaços públicos. Afinal de contas, esse é o país em que muitos políticos pensam que os bens públicos pertencem a eles e a seus clãs, ao invés de pertencer a todos. E o governo tem fama de confiscar o que se pensava ser propriedade privada, como quando o governo Collor sequestrou as contas bancárias em 1990. Então, se temos que redobrar os cuidados com nossos próprios bens, por que deveríamos nos importar com qualquer coisa além da calçada de casa?

Uma pode prender você, a outra catar seu lixo

Uma pode multarvocê, a outra catar seu lixo

No entanto, algumas pessoas se importam.  Alexandre Fernando da Fonseca, por exemplo, pedala todos os dias da semana até a praia, para apanhar lixo. Allan Ribeiro preside um bloco de carnaval, o Eu Amo a Lapa, e faz o que pode durante a folia para estimular segurança e limpeza no bairro.

Independente de nossa sensação de cidade suja, o protagonista da história do lixo no Rio é o catador de lixo, que por cada lata de alumínio, ganha dez centavos. Procure um desses anjos bem no final do nosso vídeo.

 Tradução por Rane Souza

Nossa equipe fabulosa de vídeo: Jimmy Chalk, Gabriel Michaels de Carvalho e Kate Steiker-Ginzburg

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Why is Rio so dirty?

Carnival, last year

Carnival, last year

RioRealblogTV début

Why is Rio so dirty? almost every visitor asks, even those who love the place, people who end up staying.

This question set RioReal blog in search of both answers and trash, for the three-minute pilot of what we hope to be an ongoing series of RioRealblogTV videos. Please watch, share, and tell us what you think, both about trash in the city and the short video itself. Soon, we’ll be looking for funding.

What we found

One thing we found was not as much trash as there used to be. The campaign begun last year, Lixo Zero (Zero Trash), with its fines, has had an impact. In areas where the inspectors have been active — downtown and some South Zone neighborhoods — trash collection has gone down as much as 58%!

Trash is still one of the biggest complaints among residents of favelas, where the geography often hinders collection.

We also heard about the Brazilian mentality (which appears to be changing, albeit slowly) regarding the disposal of trash in the street. This blogger is old enough to recall the first Earth Day in the United States in 1970 — a day spent along with other teens, picking up bagsful of trash around the trolley tracks in suburban Newton, Massachusetts.

Forty-odd years later, it’s shocking in Rio for visitors (and locals) to note the general lack of concern about paper and plastic left lying around. Along the Ipanema waterfront, for example, kiosk administrators abandon even their own customer territories to the city garbage men, the orange-suited garis.

But then, we love those garis, don’t we? Rio’s famous dancing, smiling gari, Renato “Sorriso” Luiz Feliciano Lourenço, must be smiling because he loves to pick up after us, right?

That’s not what Landenberg Benedito da Silva, a gari we interviewed, said. And the garbage men, who claim they’re underpaid, aren’t all smiling, either. Some of them are on strike, during Carnival, of all times!

Aside from a lack of concern for the environment, Brazilians may also have a fragile sense of responsibility for public space. This is, after all, a nation where many politicians often think of public assets as belonging to them and their clans, rather than to everyone. And the government has been known to simply grab what we thought was private property, like when the Collor government sequestered bank account holdings, in 1990. So why, when we have extra work protecting our own stuff, should we bother with anything beyond the sidewalk out front?

Angels may exist

One might fine you, the other pick up your trash

And yet, some people do bother. Such as Alexandre Fernando da Fonseca, who bikes to the beach every weekday, to pick up trash. Allan Ribeiro presides over a Carnival bloco, Eu Amo a Lapa, that does its best, amid the fun, to encourage safety and cleanliness.

Whether the litter is overwhelming or not, there’s a central figure in the trash story of this city: the trashpicker, who gets ten cents an aluminum can. You’ll find one of those angels at the very end of our video.

Our fabulous video team: Jimmy Chalk, Gabriel Michaels de Carvalho and Kate Steiker-Ginzburg

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Polícia do Rio revela treinamento diário para manifestação violenta

Fazendo o papel de black blocs até

For Rio police demonstrate, click here

Police in protesters' shoes

Na pele do outro

Commander Vidal Araújo

O comandante Vidal Araújo, à direita

O Batalhão de Choque da Polícia Militar do estado, responsável pelo controle de multidões, apresentou ontem a jornalistas estrangeiros um exercício de treinamento que faz parte da preparação diária da cidade para a Copa do Mundo.

Tool box

Caixa de ferramentas

Trabalhando em parceria com policiais de motocicleta e uma equipe que recebe e analisa imagens captadas a partir de helicópteros, o Batalhão de Choque passou por uma hierarquia de respostas, desde a negociação via megafone com líderes (que, segundo o comandante André Luiz Araújo Vidal, resolve 90% das ocorrências), prisões (que há pouco tempo era competência de outra unidade) a disparos de gás lacrimogênio (fumaça colorida, ao invés de o verdadeiro gás). As balas de borracha não constavam da hierarquia,  apesar de elas terem sido utilizadas no ano passado, em episódios reais de violência nas ruas. Voltaram ao almoxarifado em outubro do ano passado, após alguns incidentes graves. Um canhão d’água deve estar à disposição da polícia antes da bola começar a rolar no gramado.

Police on high

Polícia ao alto

In the act

No flagra

Clique aqui para assistir a um vídeo da filmagem aérea e terrestre da manifestação encenada pelos policiais. O comandante Vidal disse que a polícia carioca adaptou técnicas e estratégias compartilhadas pelas polícias francesa e espanhola.

Policiais à paisana desempenharam com garra o papel de manifestantes e até mesmo cantaram o tradicional refrão: “Acordou, o gigante acordou”. Jogaram garrafas de PET vazias nos companheiros de batalhão, que se apresentavam em formação; em seguida, atearam fogo em um pneu recheado de lixo. O desafio dos policiais uniformizados era prender quem estivesse cometendo crimes, como atos de vandalismo, e dispersar os manifestantes. Vidal enfatizou que protestar é um direito assegurado aos brasileiros pelo regime democrático do país.

Yellow for tear gas

Fumaça amarela seria gás lacrimogênio

More tools

Assustador

O Congresso Nacional está tentando elaborar uma resposta legislativa à violência nas ruas dos últimos tempos,  após a morte de um cinegrafista brasileiro, atingido por um rojão supostamente atirado por manifestantes.

Segundo Araújo Vidal, a princípio, duzentos soldados do Batalhão de Choque, de um efetivo de mil homens, estarão de prontidão durante as manifestações futuras. Técnicas de artes marciais são usadas para realizar prisões, porém a polícia carioca não se autodenomina ninjas, ao contrário dos policiais de São Paulo. No final de semana passado, durante uma manifestação Não vai ter Copa em São Paulo, a polícia prendeu mais de 200 pessoas, entre elas alguns jornalistas.

Prontos

Preparados

Neat formation

Encaixados

“Estamos preocupados com os jornalistas, queremos que utilizem equipamento de proteção e pedimos que fiquem atrás de nossa formação, para que vejam o que é arremessado na nossa direção e também para proteção deles,” Araújo Vidal disse.

Ao ser perguntado sobre o impacto que a Copa das Confederações do ano passado teve sobre os preparativos do Batalhão, o comandante disse que o evento foi um laboratório para a Copa do Mundo e para os Jogos Olímpicos de 2016. “Nós aprendemos todos os dias,” ele acrescentou.

Que tal uma reforma?

Talvez uma reforma fosse uma boa ideia

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Apesar das melhorias em treinamento e equipamentos, o quartel general do Batalhão, um prédio centenário, sofre com o abandono. Plantas brotam a partir de rachaduras e a decoração antiga ainda enaltece o militarismo, algo que o Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, vem tentando minimizar na Polícia Militar, desde o começo do programa de pacificação, em 2008, com o objetivo de pacificar até a Copa, no mínimo, quarenta favelas cariocas.

Porém, trata-se, neste caso, do Batalhão de Choque.

Enquanto isso, os cariocas estão atipicamente mal humorados, com calor intenso, preços surreais e trânsito insano dominando cabeças e conversas. Quem pode sairá da cidade durante o Carnaval, que começa nesta sexta-feira. Os que ficarem para trás buscarão os prazeres do Rei Momo — ou o ar condicionado.

Tradução por Rane Souza

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Rio police demonstrate

On both sides of the field: preparedness is tantamount

Police in protesters' shoes

Police in protesters’ shoes

Commander Vidal Araújo

Commander Vidal Araújo, in fatigues

Rio’s Batalhão de Choque, the crowd control division of the state military police, today showed members of the foreign press an example of their daily training exercises, as Rio approaches the June-July World Cup.

Tool box

Tool box

Working in conjunction with police motorcyclists and helicopter imaging personnel, the “Shock Battalion” went through a hierarchy of responses, from negotiation via megaphone with leaders (which solves 90% of all such situations, according to commander André Luiz Araújo Vidal), to arrests (until recently, carried out by another division), to tear gas (colored smoke, not the real stuff). Rubber bullets weren’t used, though they have been in real street violence; after causing serious injuries, the bullets were shelved  last October. A water cannon is expected to be available by the time the ball starts getting kicked around.

Police on high

Police on high

In the act

In the act

Click here to watch a video of the helicopter imaging work, plus the “demonstration” at ground level.

Araújo Vidal said the Rio police have been adapting techniques and strategies shared by French and Spanish police.

Police coming off duty hammed up the part of demonstrators, even to the point of chanting the traditional Acordou, o gigante acordou, “The giant has awakened”. They threw empty water bottles at Battalion comrades in formation, then lit a tire and some trash in flames. The challenge of the uniformed police was to arrest those committing crimes, such as acts of vandalism, and disperse the protesters. Araújo Vidal emphasized that demonstrating is a right that Brazilians hold under the democratic regime.

Yellow for tear gas

Yellow for tear gas

More tools

Scary

Brazil’s Congress is currently working on a legislative response to the street violence of recent days, particularly the death of a Brazilian cameraman, hit by a firecracker that protesters allegedly threw.

Two hundred Shock Battalion troops will initially be at the ready during each upcoming demonstration, Araújo Vidal said, out of a total corps of 1,000. Martial arts techniques are used in making arrests, although the Rio police don’t call themselves ninjas, as do the São Paulo cops. During a Não vai ter Copa (There’ll be no World Cup) protest last weekend there, police arrested more than 200 people, including several journalists.

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At the ready

Neat formation

Kingpins

“We are concerned with journalists, we want them to use protective gear, and we ask them to stay behind our formation, both so they can see what’s being thrown at us and also for their own protection,” said Araújo Vidal.

Asked what impact last year’s Confederation Cup had on the Battalion’s plans, the commander said it was a laboratory for the World Cup and the 2016 Olympic Games. “We are learning every day,” he added.

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An update might be in order

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While the Rio police have upgraded their training and equipment, the Battalion headquarters, a century-old building, suffers from neglect. Plants grow out of cracks and the antique décor still glorifies militarism, something State Public Safety Secretary José Mariano Beltrame has been trying to downplay among military police since the 2008 rollout of Rio’s program to pacify at least 40 favelas before the Cup starts.

But then, this is the Batalhão de Choque.

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Meanwhile, the mood in Rio is unusually sour, with heat, prices and transportation knots top-of-mind for many cariocas. Those who are able to will leave the city over Carnival, which begins this Friday. Those who stay will seek the pleasures of the Momo King — or air conditioning.

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Violência no Rio: perguntas que não são feitas

What's your point of view?

Qual é seu morro?

For Rio violence: unasked questions, click here

No meio do tsunami de notícias ruins no Rio de Janeiro dos últimos dez dias, o prefeito Eduardo Paes disse que os dois jovens acusados pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante um protesto contra um aumento na passagem de ônibus, eram  filhinhos de papai mimados que “precisam ficar na cadeia por muito tempo”.

Talvez o êxito político do Paes seja devido, parcialmente, à capacidade dele para dar voz aos pensamentos dos seus eleitores. Já chamou os argentinos de  cucarachas, afinal.

Um dos dois jovens que mofa hoje em Bangu, Fabio Raposo, seria desempregado e descontente, membro da classe média brasileira. O outro, Caio Silva de Souza, vem, de acordo com reportagens, de uma família pobre de migrantes nordestinos. Trabalhou num hospital como auxiliar de serviçõs geraisAqui se pode assistir a uma entrevista exclusiva que ele deu ao “Jornal Nacional”, da TV Globo.

Independente destes serem filhinhos de papai mimados, a utilização do termo por parte do prefeito, junto com as reportagens e comentários na mídia brasileira, deixaram intocada a questão dos motivos da violência. Uma análise da violência poderia ser entendida, aparentemente, como legitimação.

A prioridade é manter a paz — e não há nada de errado com isso.

Porém, tal prioridade levou à negligencia do papel dos meios de comunicação como auxílio ao cidadão que busca fazer sentido do mundo e de seu lugar nele.

Portanto, seguem algumas perguntas sem resposta que surgiram nos últimos dez dias:

  • Por que Jonas Tadeu, advogado dos dois jovens, deu a entender que eles receberam dinheiro pela participação nas manifestações? Foi para pleitear uma sentença menor? Ou para sujar as reputações de políticos de esquerda? Ou por ambos motivos?
  • Por que a mídia focou nos partidos de esquerda como fonte dos supostos pagamentos? Por que quase ninguém mencionou, nem deu seguimento profundo, a uma matéria de novembro passado em O Globo,  sobre o suposto “ativismo profissional”, de parte de pessoas ligadas ao ex-governador Anthony Garotinho, que não é esquerdista? Por que não houve debate sobre os protestos e a violência no contexto da eleição de outubro próximo, para governador?
  • Jonas Tadeu permitiu que seu cliente desse uma entrevista exclusiva à TV Globo na noite de sua prisão, na Bahia. Isso foi aconselhável, do ponto de vista de seu cliente? Por que não temos notícia de nenhum grupo civil ou ONG, inclusive a OAB, ter tomado a inciativa de questionar a atuação de Tadeu ou de oferecer uma defesa alternativa aos acusados? A OAB já monitorou manifestações e prisões, ajudando os presos, nos últimos meses.
  • Por que os acusados estavam na manifestação? Por que alguns manifestantes, pagos ou não, acreditam ser aceitável atacar propriedade e polícia, arriscando a vida e bem-estar de outras pessoas?

A prioridade de manutenção da paz deixa muita coisa à margem, intacta.

É como se os brasileiros conseguissem digerir a realidade em doses, apenas. O programa Mais Médicos, da presidente Dilma Rousseff, independente de seu êxito em transplantar cubanos temporariamente, finalmente demonstrou o fato de que existe uma falta de médicos nos redutos afastados e bairros pobres deste país. Mesmo em locais nem tão fora do mapa mental, como recentemente descobriu esse colunista português.

Há tanto ainda a ser digerido.

O foco em violência urbana ligada às manifestações — nosso assunto mais quente, já que está em jogo a paz durante a nossa Copa — eclipsou, na última semana, outros casos de derramamento de sangue e turbulência. Com polícia e traficantes de droga em confronto nas zonas Norte e Oeste, e relatos conflitantes dos eventos, moradores enfurecidos queimaram ônibus e até destruiram um canteiro de obras da Transcarioca, a pista dedicada para ônibus que, até o começo dos jogos olímpicos, deve ligar a Barra da Tijuca ao aeroporto internacional.

Ontem à noite e hoje, houve confrontos violentos na favela da zona Sul, a Rocinha, com uma suposta batalha pelo território entre dois traficantes, apesar da presença de um UPP.

A maioria quer paz, sim. Mas o medo da violência — e o medo das opiniões ofensivas dos outros, também — pode nos cegar. O cidadão que pensa é requisito para uma democracia saudável. Alguns usuários do Facebook estão excluindo aqueles cujos opiniões consideram inaceitáveis, criando bolhas. Um comentarista exortou os leitores a optarem por apoiar ou denunciar os black blocs, dizendo que agora não existe mais uma posição intermediária.

Porém, se não tentamos colocar as perguntas mais duras — e respondê-las –, arriscamos ganhar mais daquilo que tememos.

Pode ser que se definir politicamente ou atribuir a culpa corretamente não seja o ato dos mais difíceis. Talvez o que demanda coragem verdadeira seja ouvir quem é diferente. Constantemente repensar nossas suposições e crenças. As bolhas costumam estourar.

Clique aqui e aqui para ler editoriais do jornal O Globo, a respeito do dever de um  jornal.

Clique aqui para ler um artigo no Globo, na página de opinião, do deputado estadual Marcelo Freixo.

Clique aqui para assistir a um vídeo do Rafucko, criticando o “Jornal Nacional”.

Se você tiver sugestão de outros questionamentos, independente de tribo, por favor coloque-a nos comentários.

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Rio violence: unasked questions

What's your point of view?

Which is your morro?

In the midst of the avalanche of bad Rio news over the last ten days, mayor Eduardo Paes said the two young men accused of killing cameraman Santiago Andrade, during a demonstration against a bus fare hike, were filhinhos de papai mimados, or spoiled brats, who “should go to prison for a long time”.

Perhaps Paes’ political success is partly due to an ability to voice what his constituency is thinking. After all, he’s been heard to indiscriminately call Argentines cucarachas, or cockroaches.

One of the two young men now moldering in Bangu, Fabio Raposo, is reportedly a disaffected and jobless member of the Brazilian middle class. The other, Caio Silva de Souza, comes from a poor family of northeastern migrants and worked in a low-level hospital job. Here is an exclusive interview he gave to TV Globo’s “Jornal Nacional”.

Whether or not these two are spoiled brats, the mayor’s use of the term and most of the Brazilian media’s reporting and commentary have left untouched the question of where the violence comes from. Examining the violence could be construed, they seem to think, as legitimating it.

Peacekeeping is the priority — and there’s nothing wrong with that.

But it neglects the media’s role as an aid to citizens who are trying to make sense of the world and their places in it.

So here are some unanswered questions from the last ten days:

  • Why did Jonas Tadeu, lawyer for the two young men, intimate that they’d been paid to participate in demonstrations? Was it to try for a shorter sentence? Or to tarnish the reputation of leftist politicians? Or both?
  • Why did the media focus on leftist parties as the source of the alleged payoffs? Why did almost no one mention, or follow up on, a November article in O Globo about allegedly paid activism on the part of people linked to former governor Anthony Garotinho, not a leftist? Why has there been no discussion of the protests and the violence in light of the upcoming October gubernatorial election?
  • Jonas Tadeu allowed his client to give an exclusive interview to TV Globo on the night of his arrest in Bahia. Was this advisable, from the client’s point of view? Why is there no news of a civil group or NGO, including the Brazilian bar association, OAB, questioning Tadeu’s advice or offering a defense alternative to the accused? The OAB has monitored demonstrations and helped arrestees over the past months.
  • Why were the accused at the demonstration? Why do some protestors, paid or not, think it’s acceptable to attack property and police, risking others’ lives and wellbeing?

The priority on peacekeeping leaves much unexplored — on the margin.

It’s as if Brazilians can only digest reality in doses. President Dilma Rousseff’s Mais Médicos program, regardless of its success or failure at temporarily transplanting Cubans, has finally brought home the fact that more doctors are needed in this country’s backwaters and poor neighborhoods. Even in areas that aren’t far off the mental map, as this Portuguese columnist recently discovered.

So much has yet to be digested.

The focus on urban violence linked to demonstrations — our hottest topic, since peaceful hosting of the June World Cup is at stake — last week eclipsed other bloodshed and turbulence. As police and drug traffickers battled in the North and West Zones, with conflicting versions of events, angered favela residents have burned buses and even destroyed a construction site for the Transcarioca, the dedicated bus lane meant to link Barra da Tijuca with the international airport in time for the Olympics.

Last night and today, violence also flared in the South Zone Rocinha favela, with two druglords reportedly vying for territory, despite the presence of a police pacification unit.

We do want peace, most of us. But the fear of violence — the fear of others’ offensive opinions, too — can blind us. A thoughtful citizenry is necessary to a healthy democracy. Some Facebook users are defriending people whose opinions they deem unacceptable, creating bubbles. One commentator urged readers to declare themselves either for or against black blocs, saying there is now no middle ground. 

But if we don’t try to ask — and answer– the toughest questions,  we risk more of the very thing we most fear.

It may be that defining oneself or assigning blame are not the most difficult acts. Perhaps real courage is what it takes to listen to those unlike ourselves and to constantly re-think our assumptions and beliefs. Bubbles do burst.

Click here and here to read editorials in O Globo, about a newspaper’s duty. 

Click here to read an op-ed piece in O Globo, by state legislator Marcelo Freixo.

Click here to watch a Rafucko video criticizing the “Jornal Nacional” nightly newscasts about demonstrations.

If you have suggestions regarding this debate, regardless of the politics involved, please add them in the comments section.

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Urban disorder in Rio: call of the abyss

do carioca Guga Ferraz

By carioca Guga Ferraz

Para Desordem urbana no Rio: o abismo atrai, clique aqui

Such chaos!

Mariana Albanese lived in the Zona Sul favela of Vidigal for two years. A São Paulo transplant, attracted by Vidigal’s strong community spirit, she was lucky enough to witness the arrival of pacification. In a post hosted in Douglas Belchior’s blog, on Carta Capital magazine’s site, she says that residents slept with their doors wide open under druglord rule. There was no trash in the streets and traffic flowed smoothly. And after:

There are the shifts. Shifts in character. People know that, depending on an officer’s intentions, good or bad, a party will be permitted, or not. Because, in addition to the violence that everyone has seen, there’s extreme social control over daily life. The philosophy of pacification is based on the principle that everyone is suspect until proven otherwise. 

Vidigal residents, like those in many Rio favelas, depend on a “shift in character” to figure out the rules for a particular night. But they’re not the only ones in Rio who feel the lack of clear and dependable rules.

We’re at the moment discussing if it’s ok or not to defend a robber set upon by citizens, acting in the absence of police officers.

And, in the absence of doctors, is it reasonable to bring in foreigners and pay them less than a Brazilian would earn?

Can a firecracker be lit even when your soccer team isn’t winning and there’s no festa junina?

Can you tell your maid she has to stay and work late, without paying overtime?

Is it right to charge R$ 3,00 to ride the bus, without providing detailed information on price inputs?

And pay R$69 for a pizza?

Since the end of the military government in 1985 (and before, probably), Brazil has been discussing the issues of the day, shifting between the self-centered interests of groups and individuals, on the one hand, and the good of the nation, on the other. The former prevail, mostly. But it could be that today’s debates are of a different nature. They occur in a different context.

“There’s a cultural rupture,” state legislator Marcelo Freixo recently told American journalist Wright Thompson, in an article that puts last June’s protests into historical context. “There was a common [notion] in Brazil[, of] believing things in Brazil were unfair and would never be changed. After what happened this year, nobody says that anymore.” 

For decades we knew the rules. Now, with forty million people out of poverty, we don’t know much at all. Actually, we do know one thing: those who weren’t part of the formal economy, of the game, a decade ago, today have greater access to their rights of citizenship. That changes everything. There’s no way back from this.

Until now, the police played the role of a buffer or interest broker, between rich and poor. What should be their role now, in the favela, the public square, in the neighborhoods?

It’s easy to mistake the chaos unleashed by social integration for a cliff that beckons vertigo; to miss the possibility that what’s really occurring is a dispute over newly-vacated territory. The territory of urban order.

No force, be it police, business interests, politicians, protestors, criminals or the media, has ever fully or unilaterally dominated that territory. It’s an ongoing dispute, alliances constantly made and remade, whether we see them or not.

The challenge is to come to a new arrangement, better-suited to the needs of a city that’s not only changing socioeconomically, but is attracting tourism like never before. We know, for example, that police violence and corruption must lessen. There are proposals to unify the various police forces and to demilitarize them.

The way is full of pebbles, slippery slopes, cul-de-sacs and switchbacks. Who knows if we’ll rise to the occasion, or what sort of arrangement will emerge from all this. But it’s worth a try. Imagina after the Cup.

Keep your eye on RioRealblog, coming up soon with short videos. 

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Desordem urbana no Rio: o abismo atrai

do carioca Guga Ferraz

Do carioca Guga Ferraz

Tempos caóticos, esses.

Mariana Albanese morou dois anos no Vidigal, favela da Zona Sul. Paulista transplantada, apaixonada pelo estilo de vida do morro, teve a oportunidade de acompanhar a chegada da pacificação. Diz ela, num post hospedado no blog de Douglas Belchior, na página da revista Carta Capital, que, baixo o domínio do tráfico, os moradores dormiam de porta aberta. Não havia lixo nas ruas e o trânsito fluía bem. Depois :

Há os turnos. Turnos de caráter. O pessoal sabe se naquela noite é policial bem ou mal intencionado, e já sabe se vai ou não vai poder dar uma festa. Porque, sim: além da violência que todo mundo conhece, tem o dia a dia com o controle social extremo. A filosofia da pacificação parte do princípio que todo mundo é suspeito até que se prove o contrário. 

Os moradores do Vidigal, como aqueles de muitas favelas cariocas, dependem do turno de caráter para saber a regra da noite. Mas não são os únicos no Rio a carecer de regras claras e confiáveis.

No momento estamos debatendo se é desejável, ou não, defender um bandido coibido por cidadãos, na ausência de policiais.

E na ausência de médicos, pode-se chamar estrangeiros e pagar um salário menor do que um brasileiro iria ganhar?

Rojão tem lugar fora de jogo de futebol e festa junina, ou não?

Pode-se dizer à empregada que precisa ficar até mais tarde, sem pagar hora extra?

Está certo cobrar R$ 3,00 para andar de ônibus, sem informar os detalhes da composição de preço?

E pagar R$69 por uma pizza?

Desde o fim do governo militar em 1985 (e, provavelmente, antes), o Brasil vai debatendo as questões do dia, vagando entre os interesses egoístas de indivíduos e grupos, por um lado, e o bem da nação, por outro. Prevalecem, em geral, os interesses menores. Mas pode ser que os debates de hoje tenham um caráter diferente. Acontecem em outro contexto.

“Há uma ruptura cultural,” disse o deputado estadual Marcelo Freixo recentemente, para o jornalista norte americano Wright Thompson, numa matéria que coloca os protestos de junho num contexto histórico. “Havia um senso comum no Brasil, de acreditar que as coisas no Brasil eram injustas e nunca seriam mudadas. Depois de tudo que aconteceu [em 2013], ninguém mais diz isso.” [tradução do inglês]

Durante décadas, sabíamos as regras. Agora, após a saída da pobreza de 40 milhões de brasileiros, não sabemos quase nada. Aliás, sabemos uma coisa sim: quem não fazia parte da economia formal, do jogo, há uma década, hoje tem acesso mais pleno ao direito à cidadania. E isso muda tudo. Não há volta.

Até então, a polícia desempenhava o papel de amortecedor, de corretor de interesses, entre ricos e pobres. Qual deve ser o papel dela, hoje, na favela, na praça pública e nos bairros?

É fácil concluir que o caos vá nos levar ao abismo. É fácil fechar os olhos à possibilidade de que o que ocorre, na verdade, é uma disputa por um território recém esvaziado. O território da ordem urbana.

Nenhuma força, quer seja a polícia, empresas e bancos, políticos, manifestantes, bandidos, ou a mídia já dominou esse território de maneira completa ou unilateral. É uma disputa contínua, de alianças sempre em evolução, visíveis ou não.

O desafio é chegarmos a um novo arranjo, mais adequado às necessidades da cidade, que muda não apenas no sentido socioeconômico, mas também recebe turistas como nunca antes. Sabemos que a violência policial e a corrupção, por exemplo, precisam diminuir. Há propostas para unificar as forças policiais e pela desmilitarização.

O caminho é cheio de pedras, declives, caminhos sem saída e reviravoltas.

Se iremos chegar à altura dos acontecimentos e como será o tal arranjo, ninguém sabe.

Mas não custa tentar. Imagina só depois da Copa.

Fique de olho no RioRealblog, que nos próximos dias apresentará vídeos curtos! 

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