O Rio está preparado para a Copa?

Crisis room: the plan is for it to be empty

Sala de contenção de crise: o plano é que fique vazia

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O buraco fica mais em baixo

A visita de jornalistas estrangeiros, na semana passada, ao Centro Integrado de Controle e Comando, o CICC, exemplifica um número crescente de momentos esquizofrênicos que, com o passar do tempo, experimentamos no Rio.

No exterior, fala-se do Brasil, há anos, como a “terra de contrastes”. Até agora, se tratava dos contrastes entre ricos e pobres, entre os setores público e privado ou entre a natureza e construções feitas pelo homem.

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Posto de observação elevado, um periscópio terrestre

À medida que os responsáveis pela segurança pública durante a Copa apresentavam o CICC, equipado com 128 servidores de computador em uma sala segura, três postos de observação elevados, heliponto, video wall, duas salas de contenção de crises, call centers, auditório e quatro geradores, era impossível esquecer a reportagem do jornal O Dia publicada no dia anterior, descrevendo condições de acomodação e de trabalho precárias para os policiais militares lotados no Leblon, o bairro mais chique do Rio.

No mesmo dia da visita ao CICC, um descarrilamento de trem de manhã cedo criou um nó  enorme na rede de transporte do Rio, afetando 600 mil usuários. Apesar disso não ter relação direta com as políticas de segurança pública da cidade, trata-se de outro aspecto preocupante da vida cotidiana, que está na cabeça de todo mundo. Sim, temos novas pistas dedicadas aos ônibus e o metrô está sendo estendido até a Barra, porém o trânsito continua péssimo e a idade média dos trens do Rio, segundo o jornal O Globo, é de 36 anos.  A idade média (que tal um museu?).

O chefe do Comité Olímpico Internacional, Thomas Bach, em visita à cidade no dia do descarrilhamento, falou nesta entrevista sobre os desafios de transporte que o Rio enfrenta. Surpreendentemente, poucas pessoas prestem atenção ao fato de que a SuperVia, a concessão que administra os trens no Rio, tem 60% de seu capital controlado pela Odebrecht Transport, filial da maior empresa de construção do Brasil, fortemente envolvida em obras nos estádios, dentre outras atividades. Tampouco é de conhecimento geral que 30% da  Odebrecht Transport é de propriedade do governo federal, através de recursos do FGTS.

190 Police Emergency Call Center

Call Center para emergências da Polícia, de chamadas 190

Então, por que é tão difícil melhorar os trens do Rio, administrados, com recursos federais, por uma das empresas mais importantes do Brasil? E por que não é acatada a sugestão do ex-presidente do capítulo Rio do Instituto de Arquitetos Brasileiros, Sérgio Magalhães, de que os trens sejam incorporados ao sistema do metrô (concessão gerida pela empreiteira OAS e pelos fundos de pensão do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal e da Petrobras)?

Police dispatchers, in the next room

Policiais despacham viaturas, na sala ao lado do 190

(E por que, vamos perguntar também, apesar de o futebol não ser um esporte aquático, é tão difícil limpar a baía de Guanabara? Do jeito que as coisas estão indo, daqui a dois anos, atletas olímpicos de esportes marinhos podem ter que se esquivar de sofás velhos, flutuando em meio a um monte de lixo e de poluição).

Nicer than Leblon

Mais confortável do que no Leblon

A despeito das disparidades dentro da segurança pública e entre esse setor e outros serviços públicos, funcionários do governo apontam essa fase de megaeventos no Brasil como divisor de águas.

Esses eventos “catapultam o desenvolvimento de nossas polícias,” disse, no novo auditório, Humberto Freire de Barros, coordenador-geral de Operações da Secretaria Extraordinária de Grandes Eventos do Ministério da Justiça. Ele falou sobre o legado de mudanças duradouras na segurança pública. “Estamos usando os megaeventos para melhorar nossa polícia”, acrescentou.

É difícil fazer comparações, ou temporais, ou entre estados do Brasil (leitores, aceito qualquer ajuda nesse sentido). De acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública, os gastos da polícia fluminense em 2007, antes de o governador Sérgio Cabral tomar posse, foram de R$ 1,9 bilhão, com um efetivo de 48 mil; em 2012 essa cifra chegou a R$ 4,1 bilhões. Até o final do ano passado, o efetivo do estado totalizava 54 mil homens e mulheres.

Spying on the metro

De olho no metrô

Nenhum funcionário do governo presente na visita chegou a afirmar que a polícia do Rio esteja na dianteira da modernização da segurança pública no Brasil. Mas os anfitriões destacaram que, quando se trata de megaeventos, as forças policiais aqui têm mais experiência do que as de outras cidades. E o dinheiro está entrando, com R$ 700 milhões investidos pelo Banco do Brasil para financiar um novo sistema de comunicação de rádio para o estado, três helicópteros e 45 mil coletes à prova de balas, dentre outros itens.

Outros investimentos:

  • O próprio CICC,  a um custo de R$ 103 milhões
  • 36 grandes projetos da Polícia Militar, incluindo o Centro de Operações Especiais (COE, que abrigará o BOPE; um novo logotipo, veículos novos e mais eficientes; novas instalações para o quartel general da polícia turística; novos palmtops e equipamentos de patrulha aérea; e um novo hospital central da polícia.
  • A Cidade da Polícia, de R$ 60 milhões, para a Polícia Civil estadual (responsável pelo trabalho de investigação, enquanto a Polícia Militar está nas ruas); modernização da Academia da Polícia Civil, novas divisões de homicídios no Rio e em algumas cidades vizinhas, novas instalações para o serviço forense e modernização da unidade de inteligência.
  • O programa de pacificação da polícia, que afeta diretamente 500 mil moradores de favelas e, considerando também áreas vizinhas a elas, 1,5 milhão de pessoas, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública.
  • Novos bônus por desempenho para os policiais, bonificação atrelada às estatísticas de crime de cada parte do estado.
  • Nova estrutura de pagamento por horas extras para policiais que, anteriormente, tiravam folgas para compensar o tempo dedicado a megaeventos.
  • Um sistema de monitoramento de vídeo e identificação de veículos, no valor de R$ 23 milhões.
  • R$ 96 milhões para implementar uma rede privada para a Polícia Militar, dois veículos jatos d´água anti-tumulto, dois sistemas de transmissão de som e imagem, um caminhão-tanque, quarenta cães e uma ambulância veterinária.
  • R$ 76 milhões gastos com um sistema de soluções da Polícia Civil, investimentos em polícia forense, armas menos letais para as divisões de turismo e de sequestros, uma aeronave, postos de auto-atendimento, trabalho investigativo, veículos e treinamento.

Com todo esse investimento, a polícia do Rio precisará da ajuda das Forças Armadas brasileiras?

Reporters ask Humberto Freire de Barros about future protests

Repórteres perguntam a Humberto Freire de Barros sobre o cenário de protestos de rua

Isso vai depender dos desafios que serão enfrentados durante a Copa, de acordo com as autoridades presentes à visita. O Exército já participou de atividades de segurança pública no passado, como, por exemplo, a conferência ambiental da ONU de 1992 . A partir de novembro de 2010, as Forças Armadas participaram da ocupação do Complexo do Alemão.

Em dezembro, o Ministério da Defesa publicou uma portaria, alterando a definição constitucional das forças militares, para permitir que sejam convocadas facilmente se necessário, inclusive em casos de perturbações urbanas.

As autoridades federais e do estado do Rio obviamente estão se preparando para essa eventualidade. Quando perguntados por jornalistas estrangeiros qual seria a maior ameaça à Copa, uma delas disse apenas que terrorismo não está no topo de sua lista. Outro repetiu a palavra cinturão, a tática policial usada com sucesso durante a Copa das Confederações de 2013 para manter os manifestantes longe dos jogos de futebol.

Helicopter image of Maracanã Stadium, on video wall

Imagens de helicóptero do estádio do Maracanã, no video wall

Qual é a probabilidade de os manifestantes reaparecerem em junho? Os contrastes – uma espécie de mensagem ambígua, dupla – são a chave. Pode-se dizer que o estado do Rio já modernizou bastante sua polícia. Mas é difícil dar crédito pleno a isso sem olhar para o lado: e aquele batalhão do Leblon, e os trens da época dos dinossauros — e a baía imunda? E os cidadãos indignados, como um vizinho que, em Cascadura, no final de semana retrasado, ao se deparar com o dono da mercearia estirado no meio de uma poça de sangue, ligou para os atendentes do call center chique do novo CICC?

Meia hora depois, chegou um carro da polícia.  Ao grupo de vizinhos que havia se formado ao redor do que agora era um corpo (antes a mão do homem se mexia), um policial disse que a PM não presta primeiros socorros. Além disso, os policiais ficaram sabendo dos tiros não pelo rádio da patrulha (o aparelho não funcionava), mas por alguém na rua que lhes avisou. Quarenta e seis minutes depois uma ambulância apareceu.

Uma das autoridades que apresentava o CICC, ao ouvir essa história, explicou que o 190 é para emergências policiais (crimes), 192 é para chamar uma ambulância municipal para emergências de saúde menos extremas e o 193 é para os bombeiros, que, além de apagar incêndios, também salvam vidas.

Aqui você pode ver como países diferentes organizam seus números de emergência.

Em 2008, quando o Rio começou a se transformar, os brasileiros usavam muito a expressão “enxugar gelo”. Duvidavam que as novas políticas conseguissem resolver os enormes problemas que a cidade enfrentava.

Muita coisa mudou desde 2008. Atualmente, não se ouve essa expressão com tanta frequência. Mas, as pessoas especulam sim sobre a profundidade do buraco proverbial. Observando uma suposta conquista, comentam que “o buraco é mais em baixo”

De acordo com as pesquisas deste blog, o buraco em questão pode ser no cemitério, no fundo de um poço — ou anatômico. De todo modo, a localização do buraco, abaixo do que se tenha imaginado, sinaliza para a persistência de queixas e protestos.

Entretanto, das doze cidades da Copa do Mundo, o Rio pode acabar sendo a mais bem equipada para lidar com tudo isso.

lll

Tradução de Rane Souza

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Is Rio ready for the World Cup?

Crisis room: the plan is for it to be empty

Police crisis room: the plan is for it to be empty

The hole may be much further down, as we say in Portuguese

The foreign press visit this week to the Rio state public safety Integrated Command and Control Center (CICC is the Portuguese acronym) was one of what promises to be an increasing number of schizophrenic experiences, as time goes on.

Brazil has long been described as “land of contrasts”, but until now this usually referred to contrasts between rich and poor, between the public and private sector, or between nature and manmade construction.

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Elevated observation post, a terrestrial periscope

As officials presented the CICC, with its helicopter pad, video wall, two crisis rooms, call centers, auditorium, four generators, 128 computer servers in a safe room and three mobile “elevated observation posts”, one couldn’t help but think of the O Dia newspaper story that ran a day earlier, describing decrepit work and living conditions for Military Police soldiers in Leblon, Rio’s cushiest neighborhood.

The same day as the CICC visit, an early morning train derailment caused a major snafu in Rio’s transportation grid, affecting a reported 600,000 commuters. Although this has nothing to do directly with the city’s public safety policies, it’s another worrisome aspect of daily life here, present in everyone’s minds.  Yes, we have new dedicated bus lanes and the metro is being extended to Barra, but traffic is still horrendous and the average age of Rio’s trains, according to O Globo, is 36 years.  The average age (how about a museum?).

International Olympic Committee chief Thomas Bach, visiting Rio the day of the derailment, spoke about Rio’s transportation challenge in this interview. Strangely, few think to note that SuperVia, the concession running Rio’s trains, is sixty percent owned by Odebrecht Transport, an offshoot of Brazil’s top construction company, heavily involved in stadium work, among much else. Nor is it common knowledge that 30% of Odebrecht Transport itself is owned by the federal government, by way of  its payroll deduction-funded FGTS fund.

190 Police Emergency Call Center

190 Police Emergency Call Center

So why, with a top private sector company and federal funding, is it so difficult to upgrade Rio’s trains? And why has the former president of the Rio chapter of the Institute of Brazilian Architects, Sérgio Magalhães, met with deaf ears with his repeated suggestion that the trains be incorporated into the metro system (a concession run by the OAS construction company and the pension funds of the Banco do Brasil, the Caixa Econômica Federal and Petrobras?)

Police dispatchers, in the next room

Police dispatchers, in the next room

(And why, we might also ask in passing, though soccer isn’t played in the water, is it so hard to clean up Rio’s harbor? The way things are going, Olympic sailors, two years from now, may well be tacking around discarded sofas, amid much other trash and pollution.)

Nicer than Leblon

Nicer than Leblon

Despite the discrepancies within the public safety sector and between it and other public services, government officials point to Brazil’s bunch of megaevents as a watershed moment.

They “catapult the development of our police forces,” said Humberto Freire de Barros, general operations coordinator for the Justice Ministry’s Special Secretariat for Mega-events, in the new auditorium. He spoke about a legacy of definitive change in public safety. ” We are using the mega-events to improve our police.”

Comparisons are difficult to come by, either over time, or between Brazilian states (Readers, help on this would be appreciated). According to the state Public Safety Secretariat, Rio police spending in 2007, before Governor Sérgio Cabral took office, was US$ equivalent 974 million, with a total police force of 48,000, and in 2012 this rose to US$ equivalent 2.2 billion. By the end of last year, the state police force totaled 54,000 men and women.

Spying on the metro

Eyes on the metro

No official present would go so far as to say that the Rio police are at the forefront of public safety modernization in Brazil, but they did note that, when it comes to mega-events, the forces here have more experience than those in other cities. And money is pouring in, with almost US$ 300 million equivalent earmarked in Banco do Brasil financing for a new state radio communication system, three helicopters, and 45,000 bullet-proof vests, among other items. 

Other investments include:

  • The CICC itself, at a cost of US$ 43 million
  • 36 large Military Police projects, including the Special Operations Center (COE, according to the Portuguese acronym), which will house the BOPE, or elite squad; a new logo, new more efficient police vehicles; a new tourist police headquarters; new palmtops and air patrol equipment; and a new central police hospital.
  • A US$ equivalent 25 million-“Police City” for Rio’s state Civil Police (responsible for investigatory work, while the Military Police are in the streets); modernization of the Civil Police Academy, new homicide divisions in Rio and some neighboring cities, new facilities for the forensic department, and modernization of the intelligence unit.
  • The police pacification program, which directly affects about 500,000 favela residents, and including their neighbors, 1.5 million, according to the state public safety secretariat.
  • New performance-oriented police pay bonuses, tied to local crime statistics.
  • New overtime pay capability for police officers, who used to work during special events and then take off time to compensate.
  • A US$ 9.5 million equivalent video monitoring and vehicle identification system
  • US$ 40 million equivalent spent for a Military Police private network, two anti-riot water cannon vehicles, two sound and image transmission systems, a water truck, forty dogs and a veterinary ambulance.
  • US$ 31 million equivalent spent for Civil Police solutions system, investments in forensic police, less lethal weapons for tourist and kidnapping police units, an aircraft, self-service posts, investigative work, vehicles, training.

With all this investment, will the Rio police need help from the Brazilian military?

Reporters ask Humberto Freire de Barros about future protests

Reporters ask Humberto Freire de Barros about future street protests

That depends on the challenges they face during the Cup, officials said. The Army has participated in public safety activity in the past, including the 1992 United Nations environmental conference, ECO 92, and in November 2010, when the Complexo do Alemão was occupied in order to stop vehicle torchings around the city.

In December, the Defense Ministry published a new regulation changing the constitutional definition of national military forces, so they can easily be called upon if needed — including in the case of urban disturbances.

Federal and Rio state officials have obviously been planning for such an eventuality. Asked by foreign reporters what the biggest threat might be to the Cup, one official would only say that terrorism isn’t at the top of his list. Another official repeated the word cinturão, or big belt, a tactic police used successfully during the 2013 Confederations Cup, to keep protesters far from soccer games.

Helicopter image of Maracanã Stadium, on video wall

Helicopter image of Maracanã Stadium, on video wall

How likely are the protesters to make a reappearance this June? The contrasts — a sort of mixed message — are key. The state of Rio may well have accomplished an enormous amount of police modernization. But credit is hard to fully award when you can’t stop yourself from looking sideways: what about those Leblon barracks, and what about the antique trains, and the filthy bay? And what about angry citizens, such as a neighbor who came across a grocer who’d been shot early one morning in Cascadura last weekend, and called one of the 190 attendants in the fancy new CICC?

Half an hour later a police car arrived, and an officer told a group of neighbors assembled around what was now a body (the man’s hand was moving, earlier on) that the police don’t do first aid. Also, that the cops hadn’t heard about the shooting over the radio (it didn’t work), but someone in the street had directed them to the crime scene. Forty-six minutes later, an ambulance drove up.

One of the government officials presenting the CICC, on hearing the story, explained that 190 is for police emergencies (crimes), 192 is to call a city ambulance for lesser health emergencies, and 193 is for the firemen, who, in addition to putting out fires, also save people’s lives.

Here you can see how different countries organize their emergency numbers.

When Rio first began to turn around, in 2008, Brazilians often used the expression enxugar gelo, or drying up ice. They wondered if the new policies would ever be able to address the enormous problems facing the city.

Much has changed since 2008; now one doesn’t hear this expression so much any more. But people do comment on just how far down “the hole” is. They look at an achievement and say “o buraco é mais em baixo”. 

The hole in question, according to this blog’s research, might be in the cemetery,  at the bottom  of a well, or anatomical. In any case, its location, lower than what you might have thought, points to continued complaint and protests.

Yet, of all the twelve World Cup cities, Rio may turn out to be the best-equipped to handle them.

lll

“A rich country is a country without poverty”

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Qual é melhor? Qual é pior? The best and worst of Rio

Caros leitores, vamos construir um ranking das provedoras de serviços urbanos — sua opinião da qualidade do serviço

Let’s build a ranking of Rio’s urban service providers — your opinion of service quality

É só fazer um ranking dos provedores da lista, no questionário da SurveyMonkey. A melhor empresa fico no topo, com o número um. A pior na fim, com o número vinte.

Quando tiver terminado, por favor escreva o nome da empresa que você mais admira no Brasil, seja pública ou privada, não necessariamente constando da lista. E diga o que você gostaria de saber, sobre como o Rio funciona por trás das aparências!

Daqui a pouco, apresentaremos os resultados — 

Para opinar, clique aqui .

All you have to do is rank each of the service providers listed on the SurveyMonkey questionnaire. The best should get number one, and the worst, number 20.

When you’re done, please write the name of the company you most admire in Brazil, be it private or public. And let us know what you’d like to know, about how Rio actually functions, behind the scenes!

We’ll soon present the results —

To tell us what you think, click here.

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O Rio está piorando?

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Talvez se trate mesmo de maquiagem para mega-evento

Assim é que se coleta lixo na Favela da Mineira

Assim se coleta lixo na Favela da Mineira

Sua blogueira está quietinha há tempo demais, em parte devido a outros compromissos, acima de tudo por causa da perplexidade.

O que dizer? Durante os últimos cinco anos, a melhora na segurança pública  esteve no coração da virada do Rio de Janeiro.

O ano de 2013 foi de mandar adagas àquele coração. Começando em junho, tivemos protestos de rua, destruição por black blocs e outros, tortura e abusos policiais, um aumento do crime, arrastões de praia, homicídios na Lapa e territórios UPP sendo cedidos a traficantes de drogas — e mais, chuvas torrenciais e enchentes, com milhares de pessoas desabrigadas, a maior parte em favelas, inclusive as pacificadas.

Na semana passada, o jornal O Globo publicou esta entrevista com um dos fundadores da Viva Rio, Rubem César Fernandes. Nela ele disse, “O ideal é o horizonte. Quanto mais você caminha, mais ele se distancia.”

A imagem era para representar os desafios que temos ainda pela frente, no Rio de Janeiro. Também se aplica aos protestos, que surpreenderam a todos nós, embora não deviam, em retrospecto, considerando esse horizonte que continuamente se afasta. O Brasil começou a lidar com suas desigualdades, e essa determinada linha que se enxerga lá longe no mar anda rápido mesmo, contra uma história de vagarosa mudança social .

Os protestos (que por enquanto cessaram) e a transformação do Rio fazem parte de grandes mudanças socioeconômicas, difíceis de digerir para todo o mundo.

Não é fácil dizer por onde surgiu o elefante que a jiboia  — que é a sociedade brasileira –ingeriu, ou quando começou a deglutição. Mas a entrevista ao fundador da Viva Rio, publicada para marcar o vigésimo aniversário da ONG pioneira, nos lembra de um antes, quando, como ele comenta, bancos e empresas aéreas deixavam o Rio, e a indústria naval afundava.

Naqueles idos– 1993 — oito jovens foram mortos a bala enquanto dormiam na escadaria da igreja da Candelária, no centro da cidade.  Vinte e um moradores da favela Vigário Geral morreram numa chacina perpetrada por um grupo de extermínio, de policiais. Tal violência levou à fundação da Viva Rio. “É evidente que o Rio saiu do buraco,” Fernandes disse ao Globo na semana passada. “A gente começou num ambiente em que se dizia: o Rio acabou. Hoje, a cidade, ao contrário, virou a capital de grandes eventos mundiais. Há mudanças evidentes, como na política de segurança. O Bope e a UPP hoje são instituições importantes. A discussão é como melhorá-las.”

É isso mesmo? Tantos de nós, como Rubem César, já apostamos nossos dias e anos na criação de um futuro melhor. Estamos com medo de nos abjurar?

O que há de errado

Em 2010, a taxa de homicídio no Rio caiu de maneira importante, chegando a um nível anual de 18,9 por 100 mil habitantes em 2012. Em 2007, antes do começo da pacificação, a taxa era de 37,8, praticamente o dobro. CapturarNesse ano, porém, houve algumas altas no crime, com subidas nas taxas de homicídio e roubo de rua em agosto e setembro, os últimos meses pelos quais temos estatísticas, até o momento. Alguns bairros experimentaram aumentos em roubos de rua, quando se compara o segundo trimestre de 2013 com o de 2012, de quase noventa por cento.

No segundo trimestre de 2013, de acordo com a ONG Rio Como Vamos, com base em dados do governamental Instituto de Segurança Pública e a Secretaria Estadual de Segurança Pública, o Rio de Janeiro sofreu um total de 8.667 roubos de rua, mais do que em qualquer trimestre neste ou no ano passado.

Moradores de Santa Teresa, Botafogo, Leblon e Ipanema, entre outros bairros, dizem que andam com medo, após uma trégua bem vinda que durou dois anos. O topo da favela pacificada Pavão-Pavãozinho, em Copacabana, supostamente foi retomado por traficantes de droga. Provavelmente há outros locais na cidade em situação parecida.

Ninguém oferece uma explicação global pelo retrocesso. Claramente, uma mudança começou no meio do ano com os protestos de rua, iniciados por causa de um aumento na tarifa de ônibus. Em função disso, os políticos perderam qualquer brilho que tivessem, cedendo a demandas (o prefeito Eduardo Paes, o congresso nacional e a presidente Dilma Rousseff), ou vivendo implacavelmente sob o sítio de manifestantes (governador Sérgio Cabral). A polícia também, focado há muito tempo em drogas e armas, revelou, por meio da violência e da incompetência, seu alto grau de despreparo para lidar na rua com estudantes de classe média, e, mais tarde, com manifestantes que destruíam abrigos de ônibus, caixas automáticas e objetos afim.

Esse vídeo pelo grupo de comédia Porta dos Fundos, com quase quatro milhões de acessos até hoje, demonstra que a polícia militar do Rio de Janeiro caiu num abismo, das alturas de relações públicas onde estiveram há apenas três anos, quando os cariocas aplaudiam o heroísmo de Wagner Moura no filme Elite da Tropa 2. Nesse vídeo, os policiais são retratados como imbecis traumatizados. Fabio Porchat só consegue balbuciar, repetidamente, “bala de borracha”.

Portanto, uma diminuição no respeito aos agentes da ordem pode ter algo a ver com o aumento do crime. Os protestos também podem ter esticado demais o cobertor policial, nos quesitos mão de obra, habilidades gerais e atenção ao crime, exacerbando as fraquezas institucionais e as fragilidades políticas. Há, além disso, teorias de conspiração, não provadas, responsabilizando políticos de oposição pela violência nos protestos e o aumento do crime.

Silvia Ramos, cientista social e especialista nas áreas de polícia, juventude e violência, do CESeC, lembra nossos dias de euforia, no início da virada. Dois anos após a instalação da primeira UPP, em 2008 — que aconteceu a pedido de um grupo de cariocas preocupados, do setor privado  — ela dirigiu uma reunião no auditório da FIRJAN, a federação de industria do estado do Rio. Foi a primeira vez em que representantes do setor privado, ONGs, favelas e do governo se encontraram num local como esse, para falar das necessidades sociais das favelas. “[…]  iríamos cumprir a missão de uma geração, finalmente levando a coordenação de políticas sociais onde havia políticas de segurança implantadas pela primeira vez,” ela recorda, num email, respondendo a um pedido por retrospeção, do RioRealblog. “Olhando para trás, reconheço que o otimismo tinha um tanto de ingenuidade e nos nossos cálculos naquele momento não entraram as dificuldades históricas e resistências para prover serviços boa qualidade para as favelas – que é a marca da cidade há décadas.”

Ela continua: “Não que a situação na maioria das favelas está hoje como estava antes das UPPs, mas a verdade é que os avanços são mínimos em relação a aspectos tão básicos e simbólicos, como lixo, saneamento, ordenamento urbano e outros. É difícil entender onde está o ponto cego e por que tão pouco se avançou mesmo ali onde há recursos, interesses e imensas possibilidades, como nas favelas da Zona  Sul, situadas nas áreas mais ricas do país, que afinal está entre os dez mais ricos do mundo. Rio, a dor e a delícia de ser o que é. Mudamos pouco em relação aos nossos sintomas“.

Onde está o ponto cego?

Não se pode dizer que nada muda no Brasil, uma hipótese esse artigo maravilhoso da ESPN discute, ao colocar os recentes protestos de rua no contexto das manifestações no fim dos anos 1960.

A diferença hoje, em contraste com toda a história brasileira, é que as mudanças sociais não acontecem de maneira gradativa e devagar. Até meados dos anos 2000, a inclusão social era um caminho muito bem administrado, que mantinha praticamente intactas as estruturas sociais do país. Hoje, em comparação, o que acontece é um maremoto. Desafia a todos a repensarem atitudes, comportamentos e relacionamentos.

Acima de tudo, talvez, as tentativas brasileiras de lidar com a desigualdade trazem à tona o custo verdadeiro de séculos de desleixo.

Como coletar todo o lixo e levar saneamento a lugares onde, até então, nenhuma pessoa de meios queria morar? Lugares que se desenvolveram por conta própria, provendo moradia, esgoto, luz, água e transporte, com pouco ou nenhuma governança ou planejamento? Onde, fundamentalmente, são precisas soluções de grande escala, de engenharia e de planejamento urbano, que acarretam controversas remoções de moradores? Como fazer com que isso aconteça — tomando o cuidado de preservar a espontaneidade e as redes comunitárias que enriquecem a vida na favela, sem atrair exércitos de “gentrificadores” de classe média e alta?

O secretário estadual de segurança pública, José Mariano Beltrame, reconhece, corretamente, que tais melhorias (promessa descumprida, de parte da prefeitura) fazem parte do que jaz no nosso horizonte, que também inclui eleições a nível estadual e nacional, em outubro próximo. “Daqui a 20 anos o que será da favela?” ele perguntou, numa recente entrevista no jornal O Globo. “A reconquista do território é uma janela de oportunidade para a transformação daquele espaço público. E não se trata apenas de escola, posto de saúde etc. Em muitas favelas a oferta desses serviços é até adequada. Mas como levar saneamento se o cano não passa? Mas como ajudar os mais pobres se eles vivem em aglomerados quase impenetráveis? Adianta levar o médico se a tuberculose vai voltar por causa das condições do ambiente? A favela precisa de acesso, de canos, de transporte coletivo, de ar livre, de uma verdadeira malha que transforme a cara desses lugares.”

Não existe estar um pouco grávida

Ao cogitar tudo isso, a pacificação — ela mesma enfrentando dificuldades e questões de continuidade — parece uma obra facílima. “Todos sabemos quais são os efeitos das UPPs no curto prazo,” Beltrame disse. “O morador do morro fica aliviado e o do asfalto, muito feliz com o fim dos tiros. Mas isso é apenas uma anestesia para a cirurgia maior. A grande questão que ainda está mal resolvida é o que o Rio quer fazer das UPPs no longo prazo.”

Anestesia para uma cirurgia. É útil essa metáfora? Depende do peso que se dá ao impacto de longo prazo, da pacificação. Se você pensa que é maquiagem para os mega-eventos, o paciente pode muito bem acordar em 2017 e se encontrar sem cirurgião, grogue, de alta, coxeando em direção àquele horizonte fugaz.

Se você acredita que os cinco anos de UPPs já produz algum efeito duradouro, talvez queira considerar uma outra possibilidade. Nesse caso, a anestesia pode preceder não um transplante de rim, nem uma grande cirurgia cardíaca, nem implantes mamários, mas um atendimento obstétrico a um novo Rio, nascido aos berros.

Até lá, enquanto nos preparamos pela Copa do Mundo em junho e julho e uma forte probabilidade de renovados protestos de rua , o debate aqui em 2014 com certeza irá focar no que fazer das UPPs.

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Is Rio getting worse?

Mega-event make-up might be right, after all

Assim é que se coleta lixo na Favela da Mineira

Trash collection in Favela da Mineira

Your blogger has been quiet for too long, partly due to other commitments, mostly out of bewilderment.

What to say? Over the last five years, improved public safety has been at the heart of Rio’s turnaround.

The better part of 2013 sent daggers to that heart. Starting last June, we’ve had street protests, Black bloc and other destruction, police torture and abuse, increasing crime, beach-gang assaults, Lapa murders and UPP territory ceded to drug traffickers, plus torrential rain and flooding, with thousands losing their homes, mostly in favelas, including pacified ones. 

Last week O Globo newspaper published this interview with Viva Rio founder Rubem César Fernandes.  In it, he said, “The more you move forward, the further away [the horizon] lies.”

His image was meant for the challenges Rio still faces. It also applies to the protests themselves, which surprised us all, yet, in retrospect, given our ever-receding horizon, shouldn’t have. Brazil has begun to deal with its inequality, and that particular line visible out at sea moves fast, indeed, against a history of sluggish social change.

The protests (which have now ebbed) and Rio’s transformation are part and parcel of large-scale socio-economic change that all of us have trouble digesting.

It’s hard to say what brought on the elephant that the boa constrictor that is Brazilian society ingested, or when the process started. But the interview with the Viva Rio founder, meant to mark the pioneering NGO’s 20th anniversary, serves to remind us of a before, when, as he remarks, banks and airlines were leaving Rio and the naval industry was dying.

In those days — 1993 — eight young people were shot dead as they slept on the steps of the downtown Candelária church.  Twenty-one Vigário Geral favela residents were also shot dead, by an off-duty police death squad. Such violence is what led to the creation of Viva Rio.

“Rio is obviously out of the hole,” Fernandes last week told O Globo. “We began in an environment where people were saying ‘Rio is done for’. Today, in contrast, the city has become a magnet for great world events. There are obvious changes, such as the public safety policy. The [military police’s elite squad] BOPE and the [police pacification units] UPP are important institutions today. The debate centers on how to improve them.”

Does it truly? So many of us, like Fernandes, have invested our days and years in making a better future. Are we afraid to recant?

What exactly has gone wrong?

Starting in 2010, Rio’s homicide rate came down significantly, dropping to an annual  rate of 18.9 per 100,000 inhabitants in 2012. In 2007, before pacification began, the rate was 37.8, just about double.

Capturar

But this year saw several crime spikes, with both homicide and street robbery up in August and September, the last months for which statistics are so far available. Some neighborhoods have experienced increases in street robbery, comparing the second quarter of 2013 to that of 2012, of close to ninety percent.

In the second quarter of 2013, according to Rio Como Vamos, based on data from the state Public Safety Secretariat and the governmental Public Safety Institute, the city proper saw a total of 8,667 street robberies, more than any quarter this or last year.

Residents of Santa Teresa, Botafogo, Leblon and Ipanema, among other neighborhoods, say they again live in fear, after a welcome two-year respite. The top of the pacified Pavão-Pavãozinho favela, in Copacabana, has reportedly been taken back by drug traffickers. Most likely there are other such areas in the city.

No one has come forward with an overarching explanation for the backslide. But a shift clearly began midyear with the street protests, which began over a bus fare hike. As a result, politicians  lost whatever glow they had, caving to demands  (Mayor Eduardo Paes, Congress and President Dilma Rousseff), or blithely living under siege by protestors (Governor Sérgio Cabral). The police too, long focused on drugs and guns, revealed by way of violence and incompetence just how unprepared they were for middle-class student marchers, and later, protestors who destroyed bus shelters, cash machines and the like.

This video by the Porta dos Fundos comedy troupe, with almost four million views to date, shows that Rio’s military police have fallen into an abyss from the public relations heights they enjoyed only three years ago, when cariocas applauded Wagner Moura’s heroics in the movie Elite Squad 2. In it, the cops are portrayed as traumatized imbeciles. “Rubber bullets” is all Fabio Porchat can say, over and over again.

So diminished respect may have something to do with increased crime. The protests may also have stretched thin police manpower, capability and attention to crime, exacerbating institutional weaknesses and political fragility. And there are unproven conspiracy theories that lay both protest violence and the crime spikes at the door of opposition politicians.

Silvia Ramos, a police, youth and violence social scientist at CESeC, remembers our euphoric early days. Two years after the first pacification unit was installed  in 2008 — at the behest of a group of concerned Rio businessmen — she ran a meeting in the auditorium of the Rio de Janeiro state industrial federation, FIRJAN. It was the first time that business, NGOS, favela leaders and residents and government officials had met in such a venue, to discuss favelas’ social needs.

“… we were going to carry out the mission of a generation, at last taking social policy coordination to places where public safety policy had been implemented for the first time,” she recalls in an emailed response to a RioRealblog request for retrospection. “Looking back, I can see that the optimism was tinged with ingenuousness and that we underestimated the longtime difficulties and resistance to the provision of good quality services to favelas — the city’s trademark for decades.”

She continues: “Not that most favelas are just as they were before the UPPs, but the truth is that the advances made are so small, when it comes to such basic and symbolic aspects such as trash collection, sanitation, urban order and others. It’s hard to understand where the blind spot is and why so little has been accomplished even in places where there are resources, interest and immense potential, as is the case with the South Zone favelas, located in the richest areas of the country, which stands among the ten richest countries in the world. Rio, the pain and delight of what it is. We’ve changed so little when it comes to our symptoms.”

Where is the blind spot?

It’s not as if nothing ever changes in Brazil, a hypothesis that this marvelous ESPN article explores, putting the recent street protests in the context of those of the late sixties.

What’s  different now, from previous Brazilian history, is that the present social change isn’t slow and gradual. Until the mid-2000s, social inclusion was a managed process that kept the country’s social structure fairly intact. Now, in comparison, what’s going on is a tidal wave. It challenges everyone to rethink attitudes, behaviors and relationships.

Perhaps most important, Brazil’s varied attempts to address inequality have brought to the surface the real costs of long neglect.

How to pick up all the trash and collect all the sewage in places where, for centuries, no person of means wanted to live? Locations that developed on their own, meeting the need for shelter, sanitation, electricity, water and transportation with little or no oversight or planning? Where, fundamentally, large-scale engineering and urban planning solutions, involving controversial resident relocation, are what’s needed? How to push this forward — and take care to preserve the attractive spontaneity and community networks of favela life, without bringing in droves of middle- and upper-class gentrifiers?

State Public Safety Secretary José Mariano Beltrame has correctly recognized that such an upgrade (an unfulfilled promise on the part of the city government) is part of what lies on our horizon, which also includes gubernatorial and presidential elections, this coming October.

“In twenty years what will become of the favela?” he asked, in a recent interview with O Globo newspaper. “The reconquest of the territory is a window of opportunity for the transformation of that public space. And we’re not just talking about schools and health clinics. Many favelas have enough of these. But how can you bring in sanitation if there’s no space for the pipes? How to help the poorest when they live in almost impenetrable agglomerations? Is it worth bringing in doctors, when tuberculosis will come back because of the environment? The favela needs access, pipes, public transportation, air, what amounts to a structure that will change the face of these places.”

You can never be just a little pregnant

All of this makes pacification — itself plagued with difficulties and issues of continuity — look easy. “We all know what the effects of the UPPs are in the short term,” Beltrame said. “The hilltop resident feels relief, and the asphalt resident feels very happy when the shooting ends. But this is just anesthesia for the bigger surgery. The big question, still unanswered, is what Rio wants to do with its UPPs over the long term.”

Anesthesia for surgery. Is this a useful metaphor? It depends what weight you give to the long-term impact of pacification. If you think it’s makeup for megaevents, the patient could well awaken in 2017 and find himself with no surgeon on hand, groggy, discharged from the hospital, sent off limping in the direction of that elusive horizon.

If you believe that the last five years of UPPs will have some lasting effect, you might want to consider another possibility. In this case, the anesthesia might precede not a kidney transplant, not open-heart surgery, nor breast implants, but the unavoidable delivery of a squalling new Rio.

Meanwhile, even as we gear up for the June-July World Cup, and a strong likelihood of renewed street protests, the local 2014 electoral debate will certainly focus on what Rio wants to do with its UPPs.

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Conferência internacional traz rica troca de ideias

For International conference affords a rich exchange, click here

Número expressivo de autoridades cariocas deixou de comparecer

“Não há atenção suficiente às escolas, nem ao desemprego […] há uma noção de renda trickle-down […] os planos não incluem as pessoas que moram lá. Depois, há a questão de como construir confiança no setor público […] as cidades não contam com a infraestrutura suficiente para gerir as transformações urbanas de setor público.”

Tais comentários não tratam do Rio de Janeiro ou de qualquer outra cidade latino americana. Foram tecidos por Richard Baron, fundador de uma empresa que revitaliza alguns dos bairros mais miseráveis dos Estados Unidos, em cidades como Nova Orleans e Detroit.

Suas palavras poderiam ter trazido certo alento aos membros do alto escalão do governo do Rio, que lidam com os duros desafios da transformação urbana, foco da conferência Urban Age deste ano, trazida ao Rio de Janeiro pela London School of Economics e pela Alfred Herrhausen Society do Deutsche Bank.

Se tivessem comparecido ao evento.

As autoridades ausentes, dos governos estadual e municipal, talvez tivessem ficado surpresas ao perceber que os desafios urbanos do Rio parecem pouca coisa, comparados aos dos países africanos, levantados durante a apresentação de Edgar Pieterse, diretor do African Centre for Cities na University of Cape Town. Pieterse contou aos participantes que 62% dos africanos que vivem em áreas urbanas moram em favelas, metade da população tem 17 anos ou menos, a força de trabalho deve triplicar até 2040 e 63% dos africanos estão em empregos de risco.

A wealth of ideas

Uma riqueza de ideias

Cinco palestrantes confirmaram presença, mas não compareceram ao evento: o prefeito Eduardo Paes, o governador Sérgio Cabral, o diretor presidente da CDURP Alberto Gomes Silva (encarregado da revitalização da região portuária), o chefe do Rio Negócios Marcelo Haddad (responsável por atrair investimentos para o Rio) e o chefe de gabinete de Eduardo Paes, Pedro Paulo Carvalho Teixeira.

“Ano passado, em Londres, tivemos o primeiro ministro, além do prefeito,” disse, decepcionado, o crítico de design Justin McGuirk. O livro deste, Radical Cities: Across Latin America in Search of New Architecture [Cidades radicais: a busca por uma nova arquitetura na América Latina] será publicado no ano que vem.

Os faltosos perderam a oportunidade de conhecer o trabalho criativo de Richard Baron para produzir habitação de baixa renda de qualidade, que abre caminhos para melhorias de vida. Baron busca financiamentos em diferentes níveis de governo para  seus projetos sem fins lucrativos, além de obter fundos do setor privado e de fundações. Ele disse ao RioRealblog que, diferentemente da habitação social do Brasil, as unidades que produz são alugadas, em vez de se tornarem propriedades daqueles que as habitam.

“Moradia de aluguel é um modelo melhor por causa do custo da manutenção,” Baron explicou. “Os proprietários de baixa renda não têm como pagar por esses custos. Os aluguéis são subsidiados, e as famílias podem ir melhorando de condição, de locatários de baixa renda, a locatários de renda média, a proprietários propriamente ditos — sempre no mesmo bairro, para que os filhos possam continuar na mesma escola.”

Algo bem diferente do programa nacional Minha Casa Minha Vida, que talvez tenha beneficiado mais às construtoras e aos seus funcionários, do que às pessoas que acabam por morar nas casas construídas.

Também, representantes do governo de São Paulo falaram sobre novos esforços para revitalizar o centro da cidade, reduzir o tempo de deslocamento e oferecer habitação de baixa renda.

Dame Tessa calls for a rethink of relations with the Olympic Committee

Jowell sugere a repaginação de relações com o Comitê Olímpico

Outro ponto alto da conferência foi a palestra da quase ex Diretora de Planejamento Urbano de Nova York, Amanda Burden, que descreveu seus anos de trabalho para revisar o regimento de zoneamento da cidade, intocado desde 1961. “Mexemos em mais de duzentos bairros. Produzimos um  Guia de Zoneamento. Andamos de quarteirão em quarteirão, ouvindo as comunidades. Em alguns casos, levamos de um a cinco anos para conseguir um consenso comunitário.”

O novo regimento tem por objetivo, ela disse, adensar todos os bairros, criar múltiplos centros urbanos e focar na proximidade ao metrô. Notavelmente, críticos afirmam que os doze anos de mandato do chefe de Amanda Burden, o prefeito Michael Bloomberg, serviram para expulsar muitos nova iorquinos de bairros em processo de gentrificação — algo que o Rio está começando a experimentar. Ainda assim, mesmo que uma revisão tão profunda do zoneamento urbano pareça um luxo no nosso contexto, certamente é uma tarefa a se considerar para o futuro.

Uma das palestras mais instigantes foi a de Dame Tessa Jowell, a ministra britânica para as Olimpíadas de 2012. Descreveu ter feito um trabalho de sessenta anos em seis – revitalizando os cinco bairros mais pobres de Londres, melhorando educação e treinamento, levando jovens, mulheres e deficientes para a indústria da construção civil, modificando o quadro de moradia de baixa renda. O impacto no East End ainda se desenrola e tem sido objeto de muito debate.

Jowell foi seguida por sua colega respectiva no Brasil, Maria Sílvia Bastos Marques, cuja apresentação  focou em mobilidade e infraestrutura como peças centrais para a transformação urbana vinculada aos Jogos Olímpicos. Isso levou Andy Altman, chefe executivo da London Legacy Development Corporation entre 2009 e 2012, a falar de “infraestrutura soft”.

“Como que o legado brasileiro trata da desigualdade?” perguntou a ela, dando a todos naquela sala lotada uma chance de refletir. Bastos Marques, uma de nove autoridades cariocas que compareceram à conferência, falou em seguida sobre a UPP Social da cidade (que mapeia demandas sociais em favelas pacificadas e coordena a resposta da prefeitura a elas), a inclusão de aulas de inglês no currículo de todas as escolas públicas municipais e as mudanças culturais em curso, estimuladas, por exemplo, por novas multas e uma campanha de educação pública para convencer os cariocas a deixar de jogar lixo no chão.

Comparada à abordagem londrina, isso tudo pode parecer inconsequente, principalmente quando se considera a condição do Brasil como membro do BRICS  e o fato de o Rio de Janeiro não ter acompanhado a redução na desigualdade que tem ocorrido a nível nacional.

Pouco se tem conversado aqui sobre o legado olímpico e os desafios socioeconômicos do Rio. Há três anos, o prefeito Eduardo Paes anunciou que, como parte do legado olímpico do Rio, todas as favelas seriam urbanizadas até 2020 no âmbito do programa Morar Carioca. Porém, isso ainda não acontece em escala maior e parte da culpa pelos atrasos talvez se deva às barreiras burocráticas e sociais a uma verdadeira integração urbana.

Faz muito sentido afirmar que as citadas melhorias em mobilidade e os investimentos em infraestrutura combatem a desigualdade de forma efetiva, ainda que indireta. Trabalhadores no Rio gastam mais tempo com o deslocamento que os de São Paulo, uma cidade muito maior e mais populosa, tempo que poderia servir para melhorar a baixa produtividade econômica brasileira. E as obras caras para o controle de enchentes na área do Maracanã devem resolver um problema que durante décadas danificou casas e estabelecimentos comerciais, paralisando a cidade.

Former mayor of Bogotá, Enrique Peñalosa (far left), a ferocious advocate of green space and dedicated bus lanes

O ex prefeito de Bogotá, Enrique Peñalosa (à esquerda), entusiasta fervoroso dos espaços verdes e de faixas exclusivas para ônibus, troca ideias com Dame Tessa Jowell, Amanda Burden, o ex prefeito de Washington D.C, Anthony Williams e o fundador da Transparência Internacional, Peter Eigen. A mesa suscitou debate sobre a corrupção como barreira à transformação urbana

Ainda assim, vale a pena perguntar, como fez Suketu Mehta, autor de
Bombaim: cidade máxima: “[…] para quem, exatamente, vai bem a vida urbana? Quem está no jogo e quem está fora?”

O prefeito Eduardo Paes e o governador Sérgio Cabral viajam muito e certamente já trocaram ideias com seus pares ao redor do mundo. Mas, a conferência, que reuniu uma prefeita em exercício, um vice-prefeito e ex-prefeitos de cinco cidades diferentes, ofereceu uma rara oportunidade para amplo debate e reflexão.

Vários palestrantes mencionaram o DNA de uma cidade, conceito útil no contexto da transformação urbana. O Rio manterá seu DNA de urbe sociável e criativa? Ou condomínios fechados, com moradores dependentes de automóveis, continuarão a proliferar na Zona Oeste enquanto edifícios comerciais espelhados e de formas bizarras competem esteticamente com a baía e os morros que a cercam, na zona portuária — relegando ao Centro antigo e às Zonas Norte e Sul o papel de relíquias exóticas de uma cidade que não mais existe?

E, como indagou Adam Greenfield, autor  de Against the Smart City [Contra a cidade inteligente], “E os bits? E o compartilhamento de informação?” enquanto o Rio se moderniza e ainda sofre para manter seu DNA. Nenhuma autoridade estava presente para falar sobre o Centro de Operações do Rio nem sobre o apoio governamental à criação, por cidadãos, de aplicativos para dispositivos móveis.

Jailson da Silva and Celso Athayde, favela pioneers, trade thoughts after their presentations

Jailson da Silva and Celso Athayde, pioneiros de pensar favela , trocam ideias após suas apresentações no Palácio do Itamaraty

Deyan Sudjic, diretor do Museu de Design de Londres, apontou os riscos do “planejamento zumbi” — a adoção do que ele chamou de políticas públicas “de prateleira”, implementadas com sucesso, mas possivelmente inapropriadas para a reprodução.  Barcelona, disse ele — o modelo do Rio para as Olimpíadas — “mudou o modo como pensávamos o planejamento. Todo mundo tentou copiar.”

Por último, mas não menos importante, aqueles que perderam a conferência Urban Age do Rio perderam uma convocação à revolução, por parte de cidades-sede de mega eventos, feita por ninguém menos que Dame Tessa Jowell. Ela falou da “brutalidade” dos Jogos Olímpicos e da necessidade de prestar “atenção, dia a dia, às pessoas que moram nas cidades sede”.

“Precisa haver uma renegociação com as entidades internacionais,” ela sugeriu. “Deve haver relações mais igualitárias com o Comitê Olímpico Internacional”. Para efetuar uma mudança, ela sugeriu que uma coalizão de cidades trabalhasse junto ao COI.

Tradução de Rane Souza


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International conference affords a rich exchange

Missed out on by not a few Rio VIPs

“There’s not enough attention to schools, nor to unemployment…there’s a trickle-down notion … plans don’t include the people who live there. Then there’s the issue of building public-sector confidence … cities don’t have public infrastructure to manage public sector urban transformations.”

These comments weren’t made regarding Rio de Janeiro, nor any other Latin American city. They came from Richard Baron, founder of a company that redevelops some of the most depressed neighborhoods in the United States, in cities such as New Orleans and Detroit.

And they might have brought a measure of reassurance to top Rio government officials dealing with the tough challenges of urban transformation, focus of this year’s Urban Age conference, brought to Rio de Janeiro by the London School of Economics and Deutsche Bank’s Alfred Herrhausen Society.

If they’d been present.

Absent city and state officials might also have been surprised to learn that Rio’s urban challenges pale beside those of African countries, discussed during a presentation by Edgar Pieterse, director of the African Centre for Cities at the University of Cape Town. Pieterse told participants that 62% of urban Africans live in slums, half the population is age 17 or younger, the labor force is set to triple by 2040 and 63% of Africans are in “vulnerable” jobs.

A wealth of ideas

A wealth of ideas

Confirmed but missing speakers were five: Mayor Eduardo Paes, Governor Sérgio Cabral, CDURP CEO Alberto Gomes Silva (in charge of the port transformation), Rio Negócios chief Marcelo Haddad (in charge of attracting investment to Rio) and Paes’ chief of staff,  Pedro Paulo Carvalho Teixeira.

“Last year, in London, the prime minister came, as well as the mayor,” design critic Justin McGuirk observed, with disappointment. His book Radical Cities: Across Latin America in Search of New Architecture, is due out early next year.

Those absent might have had a chance to hear about Richard Baron’s creative efforts to provide quality low-income housing that opens the door to life improvements. Baron puts together “layered financing” for his for-profit projects, tapping into funds at all levels of government, plus the private sector and foundations. He told RioRealblog that unlike Brazilian affordable housing, his units are rentals, not to be owned by those who live in them.

“Rental housing is a better model because of maintenance costs,” Baron explained. “Low-income homeowners cannot afford them. Plus our rents are subsidized, and families can move up, from being low-income renters, to middle-income renters, to homeowners — all while staying in the same neighborhood, so the kids don’t have to change schools.”

This sounds like a far cry from Brazil’s Minha Casa Minha Vida program, which may have benefitted Brazilian construction companies and their employees, more than the people who eventually live in the homes.

The conference also heard from São Paulo government officials, about new efforts to revitalize a central area, reduce commutes and provide low-income housing.

Dame Tessa calls for a rethink of relations with the Olympic Committee

Jowell calls for a rethink of relations with the Olympic Committee

Another high point of the conference was a presentation by outgoing New York City Planning Commissioner Amanda Burden, who described her years of work to revise the city’s zoning ordinances, untouched since 1961. “This involved more than two hundred neighborhoods. We produced a Zoning Handbook. We went block by block, listening to communities. In some cases it took from one to five years to win community consensus.”

The new ordinances are meant, she said, to bring density to all boroughs, create multiple urban centers, and focus on proximity to the subway. It should be noted that critics say the twelve-year tenure of Burden’s boss, mayor Michael Bloomberg, served to push many New Yorkers out of gentrifying neighborhoods — something that Rio is starting to experience. Even so, though such a full-fledged zoning redesign sounds like a luxury in our context, it’s certainly a task to consider for the future. 

One of the most thought-provoking presentations was made by Dame Tessa Jowell, the UK Minister for the 2012 Olympics. She described doing sixty years’ work in six — turning around London’s five poorest boroughs, improving education and training, bringing young residents, the disabled and women into the construction industry, changing the affordable housing picture. The impact on the East End is still developing and has been the object of much debate.

Jowell was followed by her Rio counterpart, Maria Silvia Bastos Marques, whose presentation focused on mobility and infrastructure as the centerpieces of urban transformation stemming from the Olympics. This led Andy Altman, 2009-2012 chief executive of the London Legacy Development Corporation, to bring up “soft infrastructure”.

“How does the Brazilian legacy address inequality?” he asked her, giving all in the crowded room pause for thought. Bastos Marques, one of nine Rio officials who did show up, then spoke of the city’s Social UPP (which maps social needs in pacified favelas and coordinates the city’s response), the inclusion of English language lessons in all municipal public school curricula, and ongoing cultural change, sparked, for example, by new fines and a public education campaign to persuade cariocas to stop throwing trash on the ground.

Compared to the London approach, this might all appear inconsequential, especially given Brazil’s standing as a BRIC and the fact that Rio de Janeiro hasn’t experienced the decreasing income inequality now occurring on a national level.

There hasn’t been much public conversation here regarding the Olympic legacy and Rio’s socioeconomic challenges. Three years ago, Mayor Paes announced that as part of Rio’s Olympic legacy, all favelas would be urbanized by 2020 under the Morar Carioca program. But this has yet to happen on a broad scale, and part of the reason for delays may be bureaucratic and societal barriers to true urban integration.

It can easily be argued that improved mobility and infrastructure investment do address inequality in very real ways, if indirectly. Workers in Rio spend more time commuting than those in São Paulo, a much more populous and larger city, time that could be spent to improve Brazil’s lagging economic productivity. And expensive flood control works in the Maracanã area should solve a problem that for decades has constantly damaged homes and businesses, crippling the city.

Former mayor of Bogotá, Enrique Peñalosa (far left), a ferocious advocate of green space and dedicated bus lanes

Former mayor of Bogotá, Enrique Peñalosa (far left), a ferocious advocate of green space and dedicated bus lanes, shares ideas with Dame Tessa Jowell, Amanda Burden, former Washington D.C. mayor Anthony Williams and the founder of Transparency International, Peter Eigen. The panel sparked debate on corruption as a barrier to urban transformation.

Still, it’s worth asking, as did Suketu Mehta, author of Maximum City, about Mumbai: “… who exactly is [urban life] going well for? Who’s in the game, and who’s out of it?”

Mayor Paes and Governor Cabral travel a great deal and have surely compared notes with their counterparts around the world. But the conference, bringing together a current mayor, a deputy mayor and former mayors from five different cities, afforded a rare opportunity for ample debate and reflection.

Many speakers mentioned the DNA of a city, a useful concept in the context of urban transformation. Will Rio maintain its DNA of conviviality and creativity? Or will gated automobile-dependent communities continue to sprawl in the West Zone while bizarrely shaped mirrored office buildings compete aesthetically with the harbor and surrounding mountains, in the Port area — leaving the old Center plus North and South Zones as quaint relics of a city that once was?

And, as Adam Greenfield, author of Against the Smart City, asked, “What about the bits? What about sharing information?” as Rio modernizes yet struggles to protect its DNA. No official was there to describe Rio’s Operations Center nor official support for citizen-developed mobile applications.

Jailson da Silva and Celso Athayde, favela pioneers, trade thoughts after their presentations

Jailson de Souza e Silva and Celso Athayde, favela pioneers, part of Rio’s DNA, trade thoughts after their presentations at the Palácio Itamaraty

Deyan Sudjic, London’s Design Museum director, pointed out the dangers of “zombie planning” — the adoption of what he called “off-the-shelf” public policies, used successfully elsewhere but possibly inappropriate for replication. Barcelona, he said — Rio’s model for the Olympics — “changed the way we saw planning. Everyone tried to copy it.”

Last but not least, Rio’s Urban Age conference absentees missed out on a call to revolution on the part of mega-event host cities, from none other than Dame Tessa Jowell, who spoke of the “brutality” of the Olympics and the need to pay “day-to-day attention to the people who live [in host city sites]”.

“There has to be a renegotiation with global bodies,” she suggested. “There need to be more equal relations with the International Olympic Committee”. To bring change, she suggested a coalition of cities work together with the IOC.

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Cadê o Morar Carioca?

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Você é um dos 1,4 milhão de moradores de favela desta cidade (22% da população)? É arquiteto, urbanista ou cientista social, ou simplesmente um carioca preocupado? Talvez agora seja o momento perfeito para pintar uns cartazes novos e sair para protestar nas ruas.

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Andam devagar as negociações para a remoção de famílias que estão no caminho do novo parque linear em Manguinhos

Morar Carioca,  o programa de urbanização de favelas, alardeado há apenas três anos como um legado social central dos Jogos Olímpicos – e que mobilizou dezenas de escritórios de arquitetura em um concurso de projetos organizado pelo Instituto Brasileiro de Arquitetos — tinha o intuito de adequar todas as favelas cariocas até 2020.  Em janeiro de 2011, o prefeito Eduardo Paes alegremente anunciou que os trabalhos começariam em março daquele ano. Mas até o momento pouco foi feito, exceto alguns projetos pontuais.

Quando perguntados, os secretários municipais, que ainda incluem o Morar Carioca nas suas apresentações públicas, dizem que o programa irá acontecer, apesar de dificuldades inesperadas.

O programa deveria alçar o pioneiro projeto de urbanização de favelas, Favela Bairro, lançado durante a década de 1990, a um novo patamar. Baseado na filosofia de igualdade urbana, ele teria focado na integração dos territórios formais e informais do Rio e poderia ter mostrado o caminho para outros esforços de integração urbana, mundo afora.

Para ser bem sucedido, era preciso desenvolver estratégias de participação comunitária. Até o momento, a maior parte das transformações que ocorreram na cidade foi feita de cima para baixo, evidenciando que todos os interessados no processo têm dificuldades para ouvir, organizar, articular e negociar as necessidades.

The house on the right collapsed. Will hers, on the left, be next?

A casa à direita desabou. Será a próxima a casa dela, à esquerda?

Por quase três anos, desde a divulgação dos resultados do concurso em dezembro de 2010, uma pergunta se faz: Cadê o Morar Carioca? Quarenta equipes foram selecionadas, porém a maior parte delas ainda aguarda convocação para iniciar os trabalhos.

As respostas mudaram ao longo do tempo. A princípio, dizia-se que o atraso estava relacionado com os contratos, maldição do processo de transformação do Rio. Em seguida, houve rumores de que a prefeitura, após ter gasto milhões em infraestrutura e ter falhado em criar incentivos à iniciativa privada para construção ou renovação de moradias acessíveis, ficou sem recursos e aguardava verbas do governo federal.

Agora, segundo avaliação de uma fonte da prefeitura, o problema é político: a Secretaria Municipal de Habitação (SMH) é chefiada por um membro do PT, Pierre Batista. Tudo bem, levando em consideração a aliança PT-PMDB que comanda a cidade — até que o PT decidiu lançar candidato próprio para a eleição estadual de outubro de 2014. O senador Lindbergh Farias pretende disputar o governo estadual contra Luiz Fernando “Pezão” de Souza, o candidato do PMDB, partido do prefeito.

Se o Morar Carioca andasse agora, o PT, ao invés do PMDB, partido do prefeito Eduardo Paes, receberia o crédito pelo êxito. Portanto, segundo a fonte, o programa será adiado mais uma vez, no mínimo, até após as eleições.

A never-ending stench

Um fedor sem fim em meio a casas novas em Manguinhos, atrás de uma biblioteca de alto nível

Na falta de uma revolução urbana, a prefeitura está contando com as boas e velhas obras públicas para agradar aos cidadãos. Sob a égide da Secretaria Municipal de Obras, gastam-se R$2 bilhões no programa Bairro Maravilha nas Zonas Norte e Oeste da cidade, que, após décadas de descaso, realmente precisam de melhorias. Além disso, a fonte da prefeitura diz que o prefeito Eduardo Paes vai se encontrado com moradores de vários bairros, prestando atenção às demandas deles e instigando seus secretários a atendê-las. O noticiário do meio dia da TV Globo parece apoiar essa abordagem, pois os repórteres apontam uma série de problemas cidade afora, falam com os moradores, estabelecem prazos e pressionam os responsáveis.

“É tudo feito sem planejamento,” a fonte assinalou.

E, na ausência do Morar Carioca, o legado dos Jogos Olímpicos ao Rio certamente será a mobilidade urbana, com as novas faixas exclusivas para ônibus construídas pela administração Paes, conectando a Zona Oeste ao restante da cidade; o serviço de ônibus mais bem organizado; e a quase extinção das vans (em grande parte, geridas por milícias). Trata-se de um feito admirável que, em conjunto com a extensão da Linha 4 do Metrô de parte do governo estadual, irá mesmo mudar a cara do Rio de Janeiro. Também traz novos desafios, tais como a necessidade de integrar o Metrô com o serviço de trem da Supervia e manter o crescimento da Zona Oeste a níveis mínimos.

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Casas condenadas em Manguinhos: apesar do perigo, moradores ficam

A ausência do Morar Carioca também significa que muitos daqueles 1,4 milhão de moradores de favelas continuarão a viver em condições deploráveis. Os enormes desafios de políticas públicas para melhorar a vida deles explicam muito o ritmo devagar de mudanças, tanto na esfera municipal quanto estadual. Porém, uma visita às vielas e aos terrenos cobertos de entulho do complexo de favelas de Manguinhos na Zona Norte é uma experiência tão fétida e devastadora só se pode concluir que os 55 mil moradores oficialmente registrados naquela área simplesmente ainda estão fora do mapa.

E trata-se de uma favela pacificada onde recursos do governo federal permitiram que o governo estadual construísse uma biblioteca fabulosa e contratasse o mundialmente famoso arquiteto Jorge Jauregui para fazer um projeto de elevação dos trilhos do trem, criando um parque linear.

Cracked political alliance means leaving people falling through cracks?

O rompimento de uma aliança política significa abandonar as pessoas à própria sorte?

Segundo algumas pessoas que têm trabalhado na urbanização daquela área, a falta de coordenação entre secretarias estaduais e municipais, as negociações difíceis com os moradores a serem relocados, e mais a situação trágica do saneamento e do abastecimento de água, levaram a uma situação em que o parque está inacabado, sumiram os pregos das tábuas ecológicas, o esgoto escorre de bueiros e tomou conta de cursos d’água, moradores permanecem em casas condenadas com paredes rachadas e tortas, e as adutoras de abastecimento d’água quase sempre vazam.

CEDAE water pipes

Adutoras de abastecimento da CEDAE, um contraste…

Public square in front of library, where fountain has been destroyed and tower supplies local water, some days

…à praça em frente à Biblioteca e a apartamentos de moradia acessível, onde um chafariz foi destruído, e a torre fornece água, alguns dias

Além disso, a tentativa de transferir os empreendimentos comerciais dos moradores das casas deles para alguns quiosques construídos nas proximidades e abaixo do elevado do trem encontrou problemas, apesar de um programa de treinamento. Surgiram dificuldades relacionadas aos proprietários e à manutenção. Apesar de cada quiosque ter sido planejado para vender produtos diferentes, todos eles vendem os mesmos itens, inclusive cerveja, o que é ilegal. “A integração social não se constrói”, aponta uma pessoa com experiência em Manguinhos. “Essa é a grande questão em todos esses projetos. Não se faz uma transformação social por meio de nova infraestrutura”.

Essa é a mesma conclusão a que urbanistas chegaram pela experiência com o programa Favela Bairro. A integração social, justamente, era para ser o foco do Morar Carioca.

A área de Manguinhos talvez seja menos infernal para muitos após a pacificação, ocorrida em janeiro de 2013, (apesar de os moradores afirmarem que a polícia pacificadora matou um jovem inocente de 18 anos, quinze dias atrás), mas ainda falta tanto, principalmente em matéria de água e saneamento.

Underneath this new concrete, raw sewage

Embaixo deste concreto novo, puro esgoto

A CEDAE somente passará pelo crivo da agência reguladora Agenersa em 2015. Na semana passada, boa parte da cidade do Rio ficou sem água encanada; apenas 30% de todo o esgoto carioca recebe tratamento adequado. O governo estadual acabou de anunciar com orgulho que limpará algumas praias do Rio, mas, na verdade, isso se resume apenas à coleta de esgoto adicional para então despejá-lo no mar.

Claramente, tanto para moradores do morro quanto do asfalto, a CEDAE é mais uma “caixa preta” que demanda atenção; o grupo de ativismo digital Meu Rio está trabalhando nisso.

Enquanto isso, Cadê o Morar Carioca? Os croquis eram tão bonitos; a realidade tão feia e degradante. No início deste ano o  programa foi incluído no plano estratégico do prefeito, mas os arquitetos selecionados — e milhares de moradores de favelas — ainda estão à espera.

Jauregui's work is sadly derelict

Infelizmente, a obra de Jauregui está abandonada

Os políticos, presumivelmente sob pressão do Comitê Olímpico e da FIFA para reduzir a violência nas ruas, preocupados com suas carreiras na política, prestam mais atenção a muitas demandas. E, apesar do fato de que a campanha “Cadê o Amarildo?” não ter revelado o paradeiro do corpo dele, ela desencadeou talvez a mais abrangente e eficiente investigação policial sobre uma morte em favela, já vista no Rio.

De acordo com a fonte da prefeitura, o prefeito Eduardo Paes interrompeu as remoções para evitar manifestações (talvez seja por isso que há pessoas em Manguinhos morando em casas condenadas).

Portanto, talvez este seja um bom momento para lembrá-lo, pacificamente, de cumprir sua promessa de garantir moradia adequada para todos no Rio de Janeiro.

Tradução de Rane Souza

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Where is Morar Carioca?

If you are one of this city’s 1.4 million (22% of the population) who live in a favela, if you work as an architect, urbanist or social scientist, or are simply a concerned carioca, now may well be the perfect moment to paint some new protest banners and get out on the streets to march.

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The removal negotiation process for the new linear park in Manguinhos has gone slowly

Morar Carioca (Carioca Living), the favela upgrade program hailed only three years ago as a key social legacy of the Olympic Games –and which mobilized scores of architectural firms in a project contest held by the Brazilian Institute of Architects — was meant to bring the city’s favelas up to standard by 2020.  In January 2011, mayor Eduardo Paes happily announced that work would begin in March of that year. Yet not much has happened, except for some scattered projects.

When asked, government officials, who still include Morar Carioca in their Olympics and other presentations, say the program has met with unexpected difficulty but will soon get under way.

The program was to have taken Rio’s pioneering 1990s favela urbanization approach, Favela Bairro, one giant step further. Based on a philosophy of urban equality, it would have focused on integrating Rio’s informal and formal territories, and could have shown the way for urban integration efforts around the world.

To succeed, it would have to have developed effective community participation strategies. So far, most of the city’s transformation has taken place from the top down, suggesting that all those concerned face difficulty in listening to, organizing, articulating and negotiating needs.

The house on the right collapsed. Will hers, on the left, be next?

The house on the right collapsed. Will hers, on the left, be next?

For almost three years, since the contest results were announced in December 2010, the question has been posed: Where is Morar Carioca? Forty teams were selected, most of which still await a call to action.

Over time, the answers have changed. Initially, the delay had something to do with contracts, the bane of Rio’s transformation. Then it was murmured that the city, having spent millions on infrastructure and having failed to create private-sector housing-related incentives, had run out of funds and was looking to the federal government.

Now, a City Hall source concludes, the problem is political: the municipal housing secretariat, SMH, is run by a Worker’s Party (PT) member, Pierre Batista. That was fine, given the city’s governing PT-PMDB alliance — until the PT decided to field a candidate of its own in the October 2014 gubernatorial contest. Senator Lindbergh Farias plans to run against the mayor’s PMDB party’s candidate, Luiz Fernando “Pezão” de Souza.

If Morar Carioca were to move forward now, credit for any success would go to the PT, instead of Mayor Paes’ PMDB. Thus, the source says, Morar Carioca is once again put off, at least until after the election.

A never-ending stench

A never-ending stench amid new homes, in Manguinhos, behind the world-class library

In the absence of an urban revolution, City Hall is counting on good old public works to please its citizens. Under the aegis of the municipal public works secretariat, SMO, over US$ 900,000 equivalent are being spent on the Bairro Maravilha program in the North and West Zones, which, after decades of neglect, do need their own upgrades. In addition, the City Hall source says, Mayor Paes has been meeting with residents of many neighborhoods, jotting down their needs, and pushing his secretaries to attend to them. TV Globo’s noon news program seems to be on board with this approach, as reporters point out a variety of problems across the city, talk to residents, set up deadlines and pressure those responsible.

“It’s all done without any planning,” the source pointed out.

And, in the absence of Morar Carioca, mobility will surely be Rio’s Olympic legacy, with Mayor Paes’ new dedicated bus lanes connecting the West Zone to the rest of the city, better-organized bus service and the virtual extinction of the largely informal (and to a great extent run by paramilitary groups) van transportation service. This is an admirable achievement, and, in addition to the state government’s extension of the Metro’s Line 4, will truly change the face of Rio de Janeiro. It also poses new challenges, such as the need to integrate the Metro with the existing Supervia train service and keep growth in the West Zone to a minimum.

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Condemned homes in Manguinhos, where people still live, despite the danger

The absence of Morar  Carioca also means that many of those 1.4 million favela residents continue to live in dreadful conditions. The public policy challenges of improving their lives are daunting and explain much of the slow pace, both at the municipal and state levels of government. But a visit to the alleys and rubble-strewn lots of the North Zone Manguinhos favela complex, is such a stinky, devastating experience that it’s impossible not to conclude that its official 55,000 residents are still simply off the map.

And this is a pacified favela where federal funds have allowed the state government to build a fabulous library and to hire world-renowned architect Jorge Jauregui to design a project to raise the train tracks and create a linear park.

Cracked political alliance means leaving people falling through cracks?

Cracked political alliance means leaving people falling through cracks?

According to people who have been working on the upgrade in that area, the lack of coordination between state and city government agencies, difficult negotiations with residents to be relocated, plus tragic sewage and water supply conditions, have led to a situation where the park is unfinished, nails have been stolen from faux-wood planking, sewage flows out of manholes and has taken over local streams, residents remain in condemned homes with cracked and crooked walls, and water pipes leak enormous amounts of water more often than not.

CEDAE water pipes

CEDAE water pipes, quite a contrast to…

Public square in front of library, where fountain has been destroyed and tower supplies local water, some days

…the square in front of library and affordable housing, where a fountain has been destroyed and the tower supplies local water, some days

In addition, efforts to transfer residents’ at-home commercial enterprises to ready-made kiosks near and under the train tracks have not wholly met with success, despite a training program. Ownership and maintenance issues have arisen. Though each kiosk was meant to sell something different, they all sell the same products, including beer, which is illegal. “Social integration cannot be built,” notes a person who has been involved in work going on in Manguinhos. “This is a big question in all these projects. You don’t make social change by way of infrastructural change”.

This was the exact conclusion that planners and urbanists drew from the Favela Bairro experience. It was social integration that Morar Carioca was supposed to address.

The Manguinhos area is perhaps less hellish for most than before its pacification in January 2013, (though residents claim pacification police killed a helpless 18-year-old ten days ago), but so much is still lacking, particularly in the realm of water and sewage.

Underneath this new concrete, raw sewage

Underneath this new concrete, raw sewage

CEDAE, the state water and sewage concession, will only come under Agenersa‘s regulatory scrutiny in 2015. This past week, much of the city of Rio was without running water; only 30% of all sewage is properly collected and treated. The state government has just proudly announced that it will clean up a number of Rio beaches, but in fact this merely involves collecting additional sewage and sending it out to sea.

Clearly, both for favela and non-favela residents, the concession is yet another “black box” that demands attention; the digital activism group Meu Rio is working on this.

Meanwhile, Where is Morar Carioca? The drawings were so beautiful; the reality so ugly and demeaning. The program was included in the mayor’s Strategic Plan, early this year, but the selected architects — and thousands of favela residents — are still waiting.

Jauregui's work is sadly derelict

Jauregui’s work is sadly derelict

Politicians, presumably under pressure from the Olympic Committee and FIFA to reduce street violence, worried about their political careers, are paying better attention to many demands. And, while the “Where’s Amarildo?” campaign hasn’t turned up his body, it did unleash perhaps the most sweeping and efficient police inquiry into a favela death ever seen in Rio.

According to the City Hall source, mayor Paes has put a halt to virtually all removals, to avoid demonstrations (maybe this is why people in Manguinhos are living in condemned homes).

So it might just be a good time to remind him, peacefully, to fulfill his promise for suitable living quarters for everyone in Rio de Janeiro.

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Beltrame: a reta final

Fez a parte dele, diz

Fez a parte dele, diz

For Beltrame’s last lap, click here

O Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, subiu pesadamente a escada ao segundo andar do restaurante Osteria dell’ Angolo na noite de segunda-feira passada. Ao chegar no último degrau, se apoiou no batente da porta como se estivesse com muita dor nas costas.

No entanto, minutos depois, estava debatendo animadamente os quase sete anos de altos e baixos, passados entre favelas e seu quartel general, localizado em cima da estação central de trem do Rio, um local estranho que lembra o filme Quero ser John Malkovich.

“Você tem que botar a polícia no século XXI,” ele disse. “mas não tem coturno,  não tem rádios. Esse é o problema do país”.

Polícia carioca mais ocupada com os manifestantes do que qualquer outra coisa

Beltrame disse estar na expectativa de mais manifestações e murmurou que pretende implementar em breve uma nova estratégia nesse front. A administração do governador Sérgio Cabral estará quase no fim durante a Copa do Mundo de junho-julho/2014, com uma eleição para o governo estadual em outubro do mesmo ano. Mas terá que cuidar, e cuidar muito bem, da segurança pública durante a final da Copa e outros seis jogos da competição que serão disputados no Rio de Janeiro, palco de protestos violentos durante a recente Copa das Confederações.

Beltrame também anunciou a criação de uma ouvidoria na Rocinha para receber reclamações sobre abusos por parte da polícia. Essa é a favela onde policiais supostamente torturaram um trabalhador até a morte em julho; dez oficiais já foram presos em conexão com a morte de Amarildo de Souza e um total de 25 já foram indiciados; o delegado Ruchester Marreiros, que conduziu a investigação inicial, será investigado agora. Enquanto isso, outro morador de favela morreu em circunstâncias em que há suspeita de violência policial, em Manguinhos.

Todos — o público do debate OsteRio e também Pedro Strozenberg, do ISER, que conduziu o debate, tomaram o cuidado de apresentar as críticas no contexto dos avanços obtidos com o programa de pacificação do Rio, que começou em 2008. Ninguém perguntou sobre a tão discutida proposta de unificação das forças policiais (civil e militar) no Rio e Beltrame não respondeu a questionamentos específicos sobre abusos policiais ou sobre a necessidade de aumentar o diálogo com as forças de segurança, assunto bastante aventado nos últimos meses.

Beltrame também foi diplomático ao fazer suas próprias críticas, culpando, acima de tudo, à “sociedade”. Ele exigiu “mudança estrutural”.

Ainda assim, ficou claro que o secretário culpa o sistema judiciário brasileiro e a prefeitura municipal do Rio de Janeiro por muitas das dificuldades que enfrentou ao longo dos últimos anos.

“Você vai para uma a birosca  para apreender um caça-níquel , e vê que o dono utiliza gato para luz e água, que não tem alvará, que ninguém fiscaliza os joelhos e pastéis que vende”, Beltrame reclamou, dizendo ainda que a maioria das UPPs continua funcionando em contêineres por causa de ações judiciais que impedem a construção de unidades mais permanentes nos locais.

Disse que precisa aumentar o número de policiais na patrulha da favela Pavão-Pavãozinho porque “a favela cresce para cima”, a despeito de leis municipais proibirem isso.

Pedro Paulo

O presidente da Light, Paulo Roberto Pinto, o mestre de cerimônias da OsteRio, David Zylberstajn, o secretário executivo do ISER, Pedro Strozenberg e o Secretário Estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame

Beltrame parabenizou o trabalho da presidente do Instituto Pereira Passos, Eduarda la Rocque (que estava presente), com a UPP Social, porém, ele disse que gostaria de ver maior integração entre as agências municipais. “A administração pública não trabalha articulada,” ele lamentou.

Quando perguntado sobre a ação policial contra as milícias, apontou que a carência de empresas idôneas oferecendo bujões de gás e TV a cabo, por exemplo, viabiliza o retorno desses grupos, mesmo quando há prisões — mediante investigação meticulosa e respaldadas por uma nova lei federal que tipifica crimes paramilitares.

Beltrame também mencionou os problemas que as favelas têm com cursos d’água poluídos e com o esgoto, uma responsabilidade da concessão estatal, CEDAE. Disse que os policiais lidam com problemas que estão fora da competência deles porque outras instituições não estão atendendo às necessidades dos moradores.

No entanto, Beltrame disse que talvez o sistema judiciário brasileiro esteja atuando além do devido. A maioria das pessoas presas na semana passada, após a manifestação dos professores no centro da cidade, foi posta em liberdade por ordem judicial.“Os órgãos fiscalizadores têm mais força do que os órgãos executivos,” comentou.

Futuro incerto

O tom cordial do debate de segunda-feira deve-se, provavelmente, ao início informal da campanha eleitoral para o governo estadual, levando a dúvidas sobre o futuro da pacificação. A eleição estadual no Rio pode surpreender: a aliança do governador Cabral com o prefeito Eduardo Paes já se desfez e a aliança com a presidente Dilma Rousseff (também candidata à reeleição) é frágil. O Partido dos Trabalhadores pretende lançar candidato próprio a governador, o senador Lindbergh Farias, ao invés de apoiar a escolha do partido de Cabral, o vice-governador, Luiz Fernando “Pezão” de Souza. Enquanto isso, outros candidatos entram no páreo, se aproveitando da fraqueza de Cabral.

Juliana Barroso, responsible for police academy reform

Juliana Barroso, responsável pela reforma do treinamento policial

Beltrame ajudou Cabral a conseguir uma vitória fácil nas eleições de 2010. Mas, agora, devido à persistência dos protestos, a pacificação está mais vulnerável às críticas, colocando a continuidade em risco. Porém, na noite do debate, para a maioria dos presentes, o valor do trabalho do secretário estava claro, enquanto ele citava suas conquistas:

  • Concurso público para funcionários de segurança pública, com 400 novos recrutas admitidos por mês.
  • Reformulação da academia de polícia e do currículo da instituição, principalmente, no que tange a direitos humanos.
  • 8.600 policiais atuando na pacificação, com os soldados circulando da academia para as UPPs e depois para atividades de rotina. (Esses policiais compõem uma força policial de aproximadamente 50 mil policiais militares. A polícia civil carioca, principalmente dedicada ao trabalho investigativo, totaliza aproximadamente 12 mil. A soma de 62 mil policiais contrasta drasticamente com os 34.526 homens e mulheres –segundo dados de 2010 –da força policial de Nova York, que atende uma população de 8 milhões. Segundo Beltrame, as vielas estreitas das favelas cariocas demandam maior densidade policial.)
  • Aumento nas ocorrências , à medida que moradores de favelas deixam de buscar mediação dos traficantes de drogas para a resolução de conflitos com, por exemplo, um aumento de 400% na ocorrências na 15ª Delegacia Policial, na Gávea, perto da Rocinha.
  • Mais prisões — e menos balas sendo disparadas. No 16o Batalhão, em Bonsucesso, a polícia disparou 56 mil balas em 2009. No ano passado, usaram 2 mil.
  • Instalação de 35 unidades de polícia pacificadora, com apenas quatro ou cinco pendentes, afetando diretamente aproximadamente 500 mil moradores – um número que chega a 1,5 milhão quando se considera os moradores de áreas contíguas às UPPs.
  • A redefinição formal das atribuições da polícia, se distanciando do policial guerreiro e se aproximando ao guardador da paz.

Beltrame, que se vê agora “engatando a quinta marcha”, destacou que seu plano estratégico se estende para além do mandato de Cabral, encaminhando o trabalho para o sucessor. Resta saber quem, se é que alguém dará continuidade. Enquanto os participantes do OsteRio, em sua maioria moradores da Zona Sul, apreciam as sutilezas da pacificação em face da caótica política de segurança pública que a precedeu, esse pode não ser o caso da maioria dos eleitores do estado do Rio de Janeiro.

“A UPP não é solução, é uma possibilidade,” disse Pedro Strozemberg, representante do ISER. “É divisor de águas”.

Clique aqui  para uma matéria no Globo que cita Beltrame sobre as estatísticas de crimes do mês de agosto de 2013, com aumentos significativos em comparação com agosto de 2012.

Tradução de Rane Souza

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