Protestos no Rio: prefeito se abre ao diálogo; governador na defensiva

For Rio Protests: the city begins to dialogue; the state gets more defensive, click here

O prefeito do Rio, Eduardo Paes, está ficando conhecido como “Paes volta atrás“. O governador, Sérgio Cabral, tem atitude diferente, fincando os pés. Veremos somente daqui a um tempo a eficácia da estratégia de cada um deles, em face das demandas populares e da escalada da violência, com o Papa Francisco prestes a beijar o solo da Cidade Maravilhosa.

Ambos os políticos estão cumprindo o segundo mandato e ambos trabalham ao meio dos escombros da  aliança histórica entre os três níveis do governo; fora disso, têm muito  poucoem comum. Paes, autoritário, porém cosmopolita, cujos críticos o acusam de favorecer empreiteiras, empreendedores imobiliários e donos de empresas de ônibus, terminará sua gestão janeiro de 2017; portanto, presidirá os Jogos Olímpicos. Cabral, com a reputação maculada por acusações de corrupção e enriquecimento ilícito pessoal, cujo governo é responsável por uma política de segurança pública bastante bem sucedida, cerne da reviravolta da na cidade, quer eleger seu vice como sucessor no ano que vem. No entanto, o segundo homem mais importante no governo estadual, Luiz Fernando Pezão, atrai pouco apoio.

Paes navega em mares mais calmos: mesmo antes dos protestos de junho, ele  finalmente havia começado a dar ouvidos aos urbanistas e arquitetos do Rio, adaptando seus planos a algumas das sugestões desses especialistas. Contudo, sua gestão claramente tem priorizado investimentos de larga escala em projetos de infraestrutura, em detrimento do fornecimento de serviços sociais essenciais, a urbanização de favelas e participação comunitária – e isso não vai mudar. Paes também está cooperando com uma investigação da contabilidade das empresas de ônibus.

Como a polícia é uma entidade administrada pelo governo estadual e o governador é alvo fácil para manifestantes que se opõem à corrupção, Cabral, desde junho, é um homem sitiado, com comícios e protestos nos arredores de seu apartamento no Leblon e do Palácio em Laranjeiras. O resultado tem sido uma série de embates violentos e questionáveis, o último deles na noite de quarta-feira no Leblon e em Ipanema. Na quinta-feira pela manhã, autoridades policiais prometeram reprimir mais energicamente a violência, afirmando que acordos com grupos de direitos humanos não tiveram impacto.

É impossível saber o que acontece de verdade, pois faltam matizes à cobertura jornalística local, que  não fornece informações concretas sobre quem são os saqueadores e vândalos e o que eles pretendem. Por exemplo, o chamado Black Bloc é citado como responsável pelos ataques à polícia e à propriedade pública, sem menção ao fato de que um movimento Black Bloc desempenhou um papel nas manifestações no Egito. Por outro lado, o Facebook é uma fonte inesgotável e sem curadoria de informação, difícil de entender e de filtrar. Enquanto O Globo basicamente denuncia o vandalismo feito por jovens mascarados, alguns relatos pessoais levantam suspeitas sobre o comportamento policial.  Há relatos de policiais, agentes de inteligência (ABIN) e vândalos infiltrados em protestos e incitando a destruição.

O governador responsabilizou os políticos da oposição pela violência. Os políticos da oposição, exceto Marcelo Freixo, que se envolveu em um debate via Twitter com a Polícia Militar, ficaram relativamente quietos. Ninguém fala da pacificação, mas alguns analistas sugerem que aqueles negativamente afetados por ela estão por trás da violência. Há receio de que a pressão sofrida por Cabral terminará por angariar votos a políticos como, o ex-governador Anthony Garotinho e o ex-senador Marcelo Crivella, ambos de olho no cargo de governador. O senador Lindbergh Farias, um oponente jovem e progressista, co-autor de um artigo de opinião sobre reforma política publicado ontem em O Globo, poderá se beneficiar do caos atual no ano que vem. Todavia, ele também é alvo de acusações de corrupção, o que ressalta um dos desafios centrais que as manifestações apresentam em todo o país: quem representa os brasileiros agora?

O slogan de um protesto recente declarava que a honestidade do Secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, só seria provada se ele prendesse o governador, chefe dele. Beltrame, que nega ter qualquer interesse em política, até junho mantinha uma imagem imaculada. Mas, no final das contas, ele e o governador são responsáveis pela violência policial que resultou na morte de nove moradores do Complexo da Maré e de um policial. Após aquele incidente, um comandante da Polícia Militar disse não saber quem havia ordenado a invasão da favela.

O cenário Estado x manifestantes/vândalos é um pano de fundo assustador para a visita papal em homenagem Jornada Mundial da Juventude, começando nesta segunda-feira, com a chegada de uns dois milhões de peregrinos jovens, colocando o Rio mais uma vez nos holofotes internacionais.  Os termos “toque de recolher” e “estado de sítio” estão no ar; ao chegar, o Papa pretende desfilar no centro do Rio em seu papamóvel, e em seguida dirigir-se a uma recepção formal no Palácio da Guanabara, onde Cabral e a Presidente Dilma Rousseff lhe darão as boas vindas.

Sim, segundo o Facebook, uma manifestação está marcada para o local.

Enquanto o evento principal, uma enorme missa campal, acontece em 28 de julho na Zona Oeste da cidade, em Guaratiba, haverá uma apresentação da Via Crúcis na noite de 26 de julho, em diversas partes da praia de Copacabana.

As forças de segurança estarão presente em massa, com até 20 mil homens e mulheres. Contudo, considerando o que tem acontecido aqui nas últimas seis semanas, pode-se imaginar qualquer coisa — inclusive que jovens de uma gama de origens e crenças se encontrem, numa fuga frenética dos policiais.

Tradução de Rane Souza

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Rio protests: the city begins to dialogue; the state gets more defensive

Rio’s mayor, Eduardo Paes, is coming to be known as “Paes volta atrás“, or a backtracking kind of guy. The governor, Sérgio Cabral, has taken a different tack, digging in his heels.

Just how effective their approaches are, in the face of popular demands and mounting violence, with Pope Francis about to kiss the soil of the Marvelous City, remains to be seen.

Both politicians are in their second terms and are digging out amid the ruins of Rio’s historic alliance among the three levels of government, but that’s about all they have in common. Paes, an authoritative yet worldly character whose detractors say he has favored construction companies, real estate developers and bus company owners, will be in office until January 2017, thus presiding over the Olympic games. Cabral, with a reputation darkened by allegations of corruption and personal gain, whose administration is responsible for a largely successful public safety policy at the heart of the city’s turnaround, hopes to elect his vice-governor as successor next year. But the state’s number two man, Luiz Fernando Pezão, has little appeal.

Paes has an easier row to hoe: even before the June protests, he’d at last begun to listen to Rio’s urban planners and architects, adapting his plans to some of their input. However, his administration has clearly prioritized large-scale infrastructure investments over the nitty-gritty of social services provision, favela upgrades and community participation — and this won’t change. Paes is also cooperating with an investigation of the bus companies’ finances.

Because the Rio police are a state-run entity and the governor is an easy target for anti-corruption protesters, Cabral is, since June, a man under siege, with rallies and marches focusing on both his apartment building in Leblon and his palace in Laranjeiras. The result have been a series of violent and questionable clashes, the last of which took place Wednesday night in Leblon and Ipanema. Thursday morning, police officials vowed to crack down, saying agreements with human rights groups had not been effective.

It’s impossible to know what’s truly happening, since local coverage is without nuance and has failed to provide concrete information on just who the looters and vandals are and what they’re about. For example, the so-called Black Bloc is mentioned as responsible for attacks on police and public property, without reference to the fact that a Black Bloc movement has played a role in the Egyptian protests. Meanwhile, Facebook is an endless, uncurated source of information, difficult to grasp and filter. While Globo mostly decries the vandalism carried out by masked young men, some personal accounts cast doubt on police behavior. There are reports of police, intelligence agents (ABIN) and vandals infiltrating protests and spurring destruction.

The governor blamed opposition politicians for the violence. Opposition politicians, except for Marcelo Freixo, who engaged in a Twitter debate with the military police, have stayed fairly quiet. No one speaks of pacification, but some observers hint that those negatively affected by it are behind the violence. There is fear that the pressure on Cabral will ultimately award votes to politicians such as former governor Anthony Garotinho and former senator Marcelo Crivella, both eyeing his post. Senator Lindbergh Farias, a young and progressive opponent, co-author of an op-ed piece on political reform in today’s O Globo, could  reap the most benefit from the current chaos, next year. But he’s got his own corruption allegations to worry about, underscoring one of the core challenges the protests present, nationwide: who represents Brazilians now?

A recent protest slogan declared that Public Safety Secretary José Mariano Beltrame’s honesty would only be proven once he arrests the governor, his boss. Beltrame, who has denied any interest in politics, boasted an unblemished image until June. He is ultimately responsible, together with the governor, for the police violence that included the shooting deaths of nine residents of the Maré favela complex and one police officer. After that incident, a military police commander said he didn’t know who had given the order to invade the favela.

The state-versus-protesters/vandals scenario is a frightening backdrop to the Pope’s visit for the World Youth Day (actually a week), beginning this Monday, as Rio receives millions of young pilgrims and emerges once more into the international limelight. The terms “curfew” and “state of siege” have been heard; on arrival, the Pope plans to take a ride downtown in his papamóvel,  and then head over to a formal reception at the governor’s Guanabara Palace, where Cabral and President Dilma Rousseff are to greet him.

Yes, a protest is planned there, according to Facebook.

While the main event, an enormous mass, is to be held July 28 at the edge of the city in Guaratiba, there will be a presentation the night of July 26 of the stations of the cross, in different spots along the Copacabana beach.

Security forces will be out in huge numbers, as many as 20,000. But, given what’s taken place here in the last six weeks, anything is imaginable — including young people of a wide variety of backgrounds and beliefs, running from the cops.

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Protestos no Rio: dizendo o indizível

E fazendo o que não se pensava possível? O Morar Carioca – programa de urbanização das favelas — está praticamente parado

As casas de quem serão derrubadas, para criar mais espaço, luz e ar?

As casas de quem serão derrubadas, para criar mais espaço e trazer mais luz e ar?

É inverno, não primavera, no entanto, um novo tipo de claridade acompanha a generosa luz que faz desta cidade um lugar único. As pessoas fazem perguntas – e as respostas estão começando a surgir. Costumávamos compartimentalizar experiências e conhecimento. Atualmente, os elementos começam a se integrar, compondo um quadro impressionantemente feio. Na semana passada, vários leitores do blog chegaram com alguma informação.

Não é o caso de um Estado totalitário que parou de nos espionar. Após e durante os protestos, as pessoas se convencem que dizer o indizível pode fazer alguma diferença.

“Quando o papa visitou a Polônia [em 1979], saímos às ruas e, pela primeira vez, pudemos nos contar. A maioria das pessoas era contra o sistema, porém somente naquele momento pudemos ver quantos éramos,” diz Monika Libicka, uma jornalista que escreve para a edição polonesa da revista Newsweek, dentre outras publicações. Libicka, uma leitora do blog que passa uma temporada no Nordeste do Brasil todos os anos, disse que a experiência de vivenciar o fim do comunismo na Polônia é similar ao que está acontecendo aqui.

Nossa nova liberdade se estende até aos menores detalhes. Atualmente, os usuários brasileiros do Facebook perguntam por que, há três anos, tiveram que mudar para um novo plugue elétrico, só utilizado no Brasil, e “quem faturou nisso?”.  Ainda não há respostas para essas perguntas.

Nesta semana, a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro criou uma CPI para investigar os contratos e fornecedores de transporte municipais, depois de ver as galerias abarrotadas de manifestantes. Quarta-feira, o editor da seção Rio d’O Globo, Gilberto Scofield, publicou uma coluna explicando em que A CPI irá focar. 

Também, as milhares de pessoas nas ruas, muitas em pequenas cidades, mudaram o modo de reportar as notícias. O Jornal Nacional do dia 25 de junho, na TV Globo, dedicou quase cinco minutos à violência na favela da Maré, na Zona Norte do Rio. Segunda e terça-feira, tiroteios na favela, após manifestações pacíficas, mataram ao menos um policial e oito civis. Enfatizando o possível abuso de direitos humanos, a cobertura da Globo terminou com o âncora William Bonner dizendo que a rede havia perguntado à polícia se os suspeitos mortos tinham passagem pela polícia. Segundo ele, a polícia respondeu que ainda não havia identificado os mortos e que investigaria os homicídios.

No passado, o velho ditado “bandido bom é bandido morto”, ainda bastante ouvido por aqui, influenciava o jornalismo brasileiro, e poucas perguntas eram feitas sobre mortes em favelas.

Enquanto isso, uma fonte próxima ao prefeito Eduardo Paes confirmou ao RioRealblog o que já era óbvio para a maioria dos observadores mais atentos: o programa Morar Carioca, criado para urbanizar todas as favelas cariocas até 2020, a um custo estimado de R$ 8 bilhões, está praticamente parado.

Apresentado com grande destaque em 2010, o programa faria parte do legado social dos Jogos Olímpicos e está descrito no site Cidade Olímpica da Empresa Olímpica Municipal, EOM. Não fez parte explícita da candidatura olímpica, que menciona sim “melhorias na habitação”.

Quarenta projetos, selecionados em um concurso organizado em 2010 pelo capítulo carioca do Instituto Brasileiro dos Arquitetos e pela Secretaria Municipal de Habitação, deveriam ter começado os trabalhos há dois anos.

“De fato, o Morar Carioca parece ter saído completamente da agenda prioritária da prefeitura,” diz Jailson da Silva, coordenador da ONG de defesa das favelas, Observatório de Favelas. “De qualquer forma, seu processo de implantação não leva em conta as perspectivas dos moradores.”

Oficialmente, a prefeitura diz que o programa ainda vai acontecer. No mês passado, durante um debate do OsteRio, Washington Fajardo, presidente do Instituto Patrimônio da Humanidade, do município, assegurou a uma arquiteta insatisfeita que o programa seria implementado em breve. Mas isso já foi dito muitas vezes.

De acordo com a fonte próxima ao prefeito, o Morar Carioca recebe recursos apenas do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que são suficientes apenas para custear os dois projetos que estão em andamento. A fonte disse ainda que a prefeitura, com dificuldades financeiras, aparentemente dá prioridade orçamentária a projetos de infra estrutura de grande escala, em detrimento das favelas, visando os Jogos Olímpicos de 2016.

Recursos poderiam vir do governo federal, responsável pelos programas PAC II na Rocinha, no Jacarezinho e no Complexo do Lins, que são também programas de urbanização.

Segundo urbanistas, o Rio não oferece incentivos para que o setor imobiliário contribua por tais melhorias ou por quaisquer iniciativas de habitação de baixa renda ou de renda mista. O direito de construir é concedido sem que haja exigências sociais nos contratos, como acontece frequentemente em outras cidades, inclusive São Paulo.

Pode haver outras dificuldades de implementação, além da questão de recursos. Quando se analisa a descrição do programa sob à luz dos acontecimentos dos últimos dois anos – e principalmente dos acontecimentos das últimas duas semanas – ela parece fora da realidade. Como realmente engajar os moradores para escolher prioridades e para decidir quais casas darão lugar aos tão necessários espaços abertos?

À medida que os acontecimentos se aceleram e que políticos cedem à pressão, somente o tempo irá dizer como os moradores de favelas irão dialogar com a prefeitura e se o Rio de Janeiro conseguirá manter sua ambiciosa promessa de integração urbana.

Catherine Osborn colaborou neste post.

Tradução de Rane Souza

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Rio protests: saying the unsayable

And doing the undoable? Morar Carioca –total favela upgrade — at a near standstill

Whose houses get town down to make space and bring light and air to favelas?

Whose houses get torn down to make space and bring light and air to favelas?

It’s winter, not springtime, but a new kind of clarity rides the bountiful light that makes this city so unique. People are asking questions — and answers are starting to appear. We used to compartmentalize experiences and knowledge. Now these are coming together, into one damaging picture. In the last week, several blog readers have stepped forth with information tidbits.

It’s not that a totalitarian state stopped spying on us. Post- and mid-protest, people feel that saying the unsayable might make a difference.

“When the Pope came to Poland [in 1979], we went into the streets and it was the first time we could count ourselves. Most people were against the system, but it was only then that we could see how many we were,” says Monika Libicka, a journalist who writes for the Polish edition of Newsweek, among other publications. Libicka, a blog reader who spends a chunk of every year in Northeastern Brazil, says she identifies her experience of the end of Communism in Poland, with what’s happening here.

Our new freedom extends even to the smallest detail. Today, local Facebook users are asking why, three years ago, the whole country had to change to an electrical outlet format unique to Brazil, and who made money on it. No answer on that, yet.

This week, Rio’s City Council set up an inquiry into the city’s transportation contracts and contractors, with galleries  filled with protesters. Today, O Globo‘s Rio editor, Gilberto Scofield, published a column outlining what the Council will be looking into.

The thousands in the streets, many in small towns across the country, have changed the way the news is reported, as well. Last night’s Jornal Nacional, on TV Globo, dedicated almost five minutes to violence in the Maré favela, in Rio’s North Zone. Monday and yesterday, shooting there after a peaceful demonstration left at least one police officer and eight civilians dead. Underscoring possible human rights abuses, the Globo coverage ended with announcer William Bonner noting that the network had asked police if the dead suspects had prior police records. The police, he said, claimed they hadn’t yet identified those slain and would investigate the deaths.

Previously, the old saw, “bandido bom é bandido morto” (a good crook is a dead crook), still very much heard in these parts, colored Brazilian journalism, with few questions asked about deaths in favelas.

Meanwhile, a source close to Mayor Eduardo Paes has confirmed to RioRealblog what was long obvious to most informed observers: the Morar Carioca program, created to bring all of Rio’s favelas up to standard by 2020, at an estimated cost of R$8 billion, is almost at a complete standstill.

Announced with fanfare in 2010, the program was said to be part of the social legacy of the Olympic Games and is described on the EOM (Municipal Olympic Enterprise) Olympic City site. It’s not a specific part of the actual Olympic bid, though this does mention “improved housing”.

Forty projects, selected in a highly publicized contest held in 2010 by the Rio chapter of the Brazilian Architects Institute and the city housing secretariat, were meant to start work two years ago.

“In fact, Morar Carioca seems to have been totally left off city hall’s priority list,” says Jailson da Silva, coordinator of the favela advocacy group, Observatório de Favelas. “But, anyway, [it] didn’t consider residents’ points of view.”

Officially, city officials say the program is still going to happen. Last month at an OsteRio debate, Washington Fajardo, president of the city’s Rio World Heritage Institute, reassured a disgruntled architect that it would soon get under way.

According to the source close to the mayor, Morar Carioca has no funding beyond that of an Inter-American Development Bank loan, which is only enough for two ongoing projects. The source added that city hall, strapped for funds, has apparently given budget priority to large-scale infrastructure projects, over favelas, with an eye toward the 2016 Olympics.

Funding could come from the federal government, responsible for PAC II programs in Rocinha, Jacarezinho and Complexo do Lins which also consist of urban upgrades.

Rio lacks sufficient incentives for private real estate developers to help pay for such upgrades, or any kind of low-income or mixed-income housing, specialists say. The right to build is awarded with no social requirements embedded in contracts, as is often the case in other cities, including São Paulo.

Implementation difficulties may go beyond funding. When read in light of the events of the last two years — particularly the last two weeks — the program description sounds unrealistic. How indeed, to involve residents in determining priorities and deciding whose homes will give way to needed open spaces?

Only time will tell, as events accelerate and politicians initially bow to pressure, just how favela residents will dialogue with city hall and if Rio de Janeiro will manage to keep its ambitious promise for urban integration.

Catherine Osborn helped research this post

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Protestos no Rio: e agora?

Demonstrators pass by the Sambadrome on Avenida Presidente Vargas on June 20

Em 20 de junho, arquibancadas do Sambódromo vazias, enquanto pelo menos um milhão de pessoas lota a avenida Presidente Vargas

For Rio protests: what’s next? click here

“A sociedade brasileira é bastante unida?” um radialista canadense perguntou ao RioRealblog na manhã de sexta-feira passada.

É uma ótima pergunta.

O futebol sempre foi o aglutinador mais forte do Brasil, conforme apontado neste excelente artigo do New York Times sobre as manifestações em todo o país.

Rio's architects speak out, calling for debate and dialogue with government officials, on the future of our city

Os arquitetos do Rio se pronunciam, pedindo debate e diálogo com representantes do governo sobre o futuro de nossa cidade

Políticos brasileiros sempre recorrem ao futebol quando falam para uma multidão. É um modo de dizer “Estamos juntos, temos algo em comum”. Diferentemente dos Estados Unidos, grandes cidades brasileiras têm vários times de futebol, cada um representando, de certa forma, um grupo específico. No Rio, os times são: Vasco, o time dos portugueses; Fluminense, a escolha das elites; Botafogo, para os descolados e Flamengo, o time de todo mundo. Ao se deparar com um torcedor do time rival, o carioca faz piadas para amenizar as diferenças.

 Devido às desigualdades que se perpetuam há séculos na sociedade brasileira, as pessoas daqui são especialistas em dissipar a tensão. Futebol, humor, música, carnaval e praia fazem parte do jogo.

PEC is a proposed constitutional amendment that would limit criminal investigations to police forces, removing this responsibility from federal and state attorney generals' offices

A PEC  propõe uma emenda constitucional que limitaria a investigação criminal às forças policiais, retirando esta responsabilidade dos Ministérios Públicos estaduais e da federação. Congressistas corruptos têm a ganhar com a emenda

Na última década, diminuíram as desigualdades econômicas. Essa é a mudança que move os protestos: sem educação e saúde adequados, não é possível manter o crescimento econômico, e, sem isso, os jovens nas ruas não terão os empregos e o estilo de vida que querem. O boom econômico que está chegando ao fim deixou isso bem claro. O motorista de ônibus que perdeu controle do veículo, em abril deste ano, durante uma discussão com um passageiro, capotando de um viaduto, não estava preparado para desempenhar sua função; assim como a maioria dos colegas maníacos dele.

Agora, as palavras de orden mais comuns dos manifestantes propõem trocar a Copa do Mundo de 2014 por melhor educação e saúde. Os protestos são o novo aglutinador. Durante a semana passada, em praticamente todos os lugares do Rio, você podia conversar com um desconhecido sobre as manifestações e encontrar diversos pontos de convergência.

Entoar “sem violência” não é o suficiente

Porém, ninguém sabe por quanto tempo os protestos irão durar ou por quanto tempo a euforia poderá superar diferenças reais – evidentes tanto nas filmagens de jovens mascarados destruindo propriedade pública e privada em todo o país (filmagens exibidas nacionalmente e internacionalmente) e vídeos e relatos sobre policiais que, no Rio, foram acusados de perseguir manifestantes nas ruas da Lapa (a maior parte desse material foi compartilhado no Facebook, mas também pode ser visto no site d’O Globo) e de ter exagerado no uso de gás lacrimogênio e spray de pimenta.

(Quem são eles? Traficantes de drogas furiosos? Bandidos, simplesmente? Jovens de classe média movidos a testosterona, irritados por ter que compartilhar sua fatia do bolo econômico com os recém-chegados? Em São Paulo, aparentemente um dos vândalos presos, além de ser um estudante de arquitetura (que pela lógica deveria pensar mais em construir do que destruir) é também filho do dono de uma pequena empresa de ônibus. “Todos bandidos,” comentou, sem conhecimento de causa, um carioca na manhã de sábado em uma academia, referindo-se aos que destruíram uma concessionária da Mercedes-Benz na véspera, na Zona Oeste do Rio. Supostamente, os baderneiros eram da Cidade de Deus, uma favela pacificada.)

É obvio que o Brasil precisará desenvolver algo novo para unir a nação e mantê-la coesa. No fim das contas, a solução será a consagrada força e confiabilidade de instituições governamentais.

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Comerciantes assustados de Ipanema protegeram vitrines com tapumes na sexta-feira à noite – no final das contas, foi desnecessário.

Mas, considerando que muitos dos que ocupam essas instituições são corruptos, egoístas e pouco transparentes, como mudar essas instituições? Por exemplo, para instituirmos a representação distrital aos níveis federal, estadual e municipal, uma condição necessária para a transparência política, será necessária uma emenda constitucional aprovada pelo Congresso.

Além dos protestos, precisa-se de pontes, como a presidenta Dilma Rousseff admitiu no discurso dela de sexta-feira à noite. Os manifestantes querem “mais”, ela disse e para oferecer isso a eles, ela se reúne hoje com governadores e prefeitos para criar um pacto em prol de melhores serviços públicos com foco em mobilidade urbana e educação. “Cidadania [sic — talvez ela se referisse à coletividade?], não o poder econômico, é o que precisa ser ouvido em primeiro lugar,” ela acrescentou, dizendo que ela também se reunirá com líderes dos protestos e outros.

Alguns grupos, tais como Comunidades Catalisadoras, têm defendido isso há muito tempo; finalmente, o assunto chega ao centro das atenções

A sociedade civil também constrói pontes para um governo mais participativo. No Rio, o capítulo local do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) finalmente assumiu um papel na elaboração de políticas públicas. Segundo o jornal O Globo, na semana passada, o IAB sediou uma reunião entre moradores da favela da Providência, arquitetos e representantes do governo —  que resultou em uma decisão de suspender a remoção de 16 famílias. Essa experiência, por sua vez, levou à criação de uma comissão mista de habitação composta por membros do IAB, moradores da Providência e representantes do Conselho de Arquitetura e Planejamento Urbano e do IPPUR, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, dentre outros. Segundo o jornal, a comissão avaliará outras intervenções urbanas propostas.

“O IAB aplaude a decisão, fruto de um diálogo produtivo,” Sérgio Magalhães, presidente do IAB (que também publicou no sábado este alentador artigo de opinião) disse a O Globo. “As intervenções em favelas devem ser planejadas com cuidado, implementadas com cuidado, pois nesses locais as famílias construíram suas casas através de gerações, com muito esforço – e quaisquer intervenções devem levar em consideração aspectos sociais e emocionais. Boas práticas de planejamento urbano moderno recomendam que isso seja feito.”

Agora, a bola está com a gente — e ganhamos domingo da Itália, 4-2.

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Rio protests: what’s next?

Demonstrators pass by the Sambadrome on Avenida Presidente Vargas on June 20

Sambadrome bleachers are empty, while at least a million filled Avenida Presidente Vargas on June 20

“How cohesive is Brazilian society?” a Canadian radio announcer asked RioRealblog yesterday morning.

Now there’s a good question.

Soccer has always been Brazil’s strongest glue, as noted in this excellent New York Times article about the ongoing unrest nationwide.

Rio's architects speak out, calling for debate and dialogue with government officials, on the future of our city

Rio’s architects speak out, calling for debate and dialogue with government officials, on the future of our city

Soccer is what Brazilian politicians turn to, when addressing a crowd, a way of saying “We’re all in this together, we share something”. Different from the United States, major Brazilian cities have several soccer teams, each one representing, in a sense, a particular group. In Rio, these are Vasco, the Portuguese team; Fluminense, the choice of the elites, Botafogo, for cool folks, and Flamengo, everyman’s club. When faced with a fan from a competing team, cariocas will make a humorous dig as a way to tone down differences.

Given the centuries-old differences in Brazilian society, people here are experts at defusing tension. Soccer, humor, music, Carnival and the beach all come into play.

PEC is a proposed constitutional amendment that would limit criminal investigations to police forces, removing this responsibility from federal and state attorney generals' offices

PEC is a proposed constitutional amendment that would limit criminal investigations to police forces, removing this responsibility from federal and state attorney generals’ offices. Corrupt congressmen stand to gain

In the last decade, economic differences have been lessening. It’s this change which powers the protests: without sufficient education and health you can’t effectively keep on growing an economy, and without that, the young people in the streets won’t have the jobs and lifestyles they want. The economic boom now coming to an end has pointed this up; the bus driver who lost control of his vehicle last April during an argument with a passenger, allowing it to flip off an overpass, wasn’t sufficiently prepared for his job, as is the case with most of his maniacal colleagues.

So now, the most common slogans protesters have been chanting propose to trade the 2014 World Cup for better education and health care. And the protests are the new glue. Almost anywhere in Rio this past week, you could chat with a stranger about the demonstrations and find many points of convergence.

Chanting “Sem violência” isn’t enough

But no one knows how long the protests will last, or for how long the euphoria can paper over some very real differences — evident in both the footage of masked young men wrecking public and private property all over the country (aired nationally and internationally) and video and reports of police who, in Rio, are said to have hunted down protesters in the streets of Lapa (mostly shared on Facebook, but also on the O Globo site) and to have gone overboard in their use of tear gas and pepper spray.

(Who are they? Angry drug traffickers? Simple hoodlums? Testosterone-fueled sons of traditional middle class families, ticked off at having to share their piece of the economic pie with newcomers? In São Paulo, one arrested vandal has apparently turned out to be not only an architecture student (who by rights should be thinking more about building things, than destroying them), but the son of a small bus company owner. “All bandits,” blithely commented a carioca this morning at a local gym, referring to those who trashed a Mercedes-Benz dealership yesterday, in Rio’s West Zone. Reportedly, the rioters were from Cidade de Deus, a pacified favela.)

Clearly, Brazil will have to develop something new to bring and keep the nation together. Ultimately, the solution will be the time-honored strength and dependability of government institutions.

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Terrified Ipanema merchants boarded up storefronts last night– unnecessarily, as it turned out.

But, when so many of those who now occupy them are corrupt, self-centered and secretive, how can the institutions be changed? It will take, for example, a Congress-approved constitutional amendment to bring district representation to federal, state and municipal government — a necessary condition for political accountability.

Beyond the protests, bridges are needed, as President Dilma Rousseff recognized in her speech last night. The protesters want “more”, she said, and to provide this, she’ll be meeting with governors and mayors to create a pact for better public services, with a focus on urban mobility and education. “Citizenship [sic— maybe she meant the citizenry?], not economic power, is what must be heard in the first place,” she added, saying she’ll also be meeting with protest leaders and others.

Many groups, such as Catalytic Communities, have long been advocating for this; at last, the issue has become central

Civil society can and does also build bridges to more participatory government. In Rio, the local chapter of the Institute of Brazilian Architects (IAB) has at last taken on a policy-making role. According to O Globo newspaper, last week the IAB hosted a meeting among Providência favela residents, architects and government officials that resulted in the decision to allow 16 families slated for removal to remain in their homes. That experience, in turn, has led to the creation of a mixed Housing Committee, composed of IAB members, Providência residents, and representatives from the Rio de Janeiro Architecture and Urban Planning Council and IPPUR, the Regional Urban Research and Planning Institute, among others. The Committee will, according to the newspaper, evaluate other proposed urban interventions.

“The IAB applauds the decision, fruit of a productive dialogue,” IAB president Sérgio Magalhães (who today also published this heartening op-ed piece) told O Globo. “Interventions in favelas must be carefully undertaken, as this is a place where families have built their homes through generations, with a great deal of effort– and any action must consider social and even emotional issues. Good contemporary urban planning practice recommends this.”

And now, the bola, as they say, is with us — and we’re winning over Italy, in the second half, 2-1.

 

 

 

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RioRealblog sai da toca

Uma exceção à regra em primeira mão

(c) Fabio Pamplona

(c) Fabio Pamplona

For RioRealblog steps out of the cage, click here

Em 1981, quando eu cheguei ao Brasil, uma música da parada de sucessos americana demorava seis meses para aparecer nas rádios daqui. Quando eu cheguei aqui, pessoas pobres acima de 30 anos usavam dentaduras. Atualmente, eles usam aparelhos ortodônticos.

No ano passado, eu tentei explicar para Alessandra Orofino, de 24 anos, co-fundadora do bem sucedido site de ativismo digital, Meu Rio, o quanto o país já mudou.

“Eu não me importo com isso,” ela disse. “Eu não estava aqui para ver isso. Estou aqui agora e quero mudanças agora.”

Quem são esses jovens?

Quem são os manifestantes, pessoas que finalmente tomaram as ruas em todo o país? Há imensa variedade. Nesta semana na televisão, vi professores de Juazeiro do Norte, cujos salários sofreram corte de 40%, que cercaram  o prefeito da cidade, ao flagrá-lo fazendo um depósito (!) numa agência bancária. Horas depois, o prefeito conseguiu sair, escoltado por policiais. Considerando o que eu vi na TV, li no Facebook e vi com meus próprios olhos nas ruas do Rio, os manifestantes em sua maioria são estudantes do sexo masculino, de vinte e poucos anos. Eles não são trabalhadores. Então, por que eles estão protestando?

Aposto que os prefeitos do Rio e de São Paulo amaldiçoaram o dia em que, em janeiro deste ano, acataram o pedido de Dilma para adiar o aumento nas passagens de ônibus por seis meses para ajudá-la a manter a inflação baixa. Se o aumento nas tarifas de ônibus tivesse acontecido em janeiro, os estudantes estariam em férias…

Como disse no meu último post, o aumento na tarifa de ônibus é um lembrete doloroso das duas camadas que compõem a estrutura socioeconômica brasileira, onde o rico e o pobre têm seus próprios planos de saúde, escolas, transporte e soluções para segurança pública. Muitos dos manifestantes talvez não façam uso do SUS e talvez tenham frequentado colégios particulares. Mas, eles andam de ônibus. E, apesar de eles não enfrentarem o longo deslocamento que uma empregada doméstica, um garçom ou um atendente de posto de gasolina enfrentam, eles também sofrem a opressão de um sistema que oferece serviços mal administrados e inadequados cujos custos reais são desconhecidos pelos passageiros.

O aumento das tarifas de ônibus fez lembrar que isso acontece em todos os aspectos da vida aqui. E, enquanto trabalhadores, principalmente aqueles que enfrentam longos deslocamentos, não têm tempo para marchar nas ruas: os estudantes têm sim.

Não estou dizendo que eles são um bando de altruístas, marchando pelos trabalhadores.

Eles simplesmente sentem a desigualdade na própria pele – e, eles sabem conscientemente ou não, que um país com um sistema como esse não vai longe. Isso traz um impacto para o futuro deles. Na atualidade, todos sofremos com o pouco preparo de tantos trabalhadores, o que, por exemplo, atrasa a capacidade do país de explorar as reservas petrolíferas.

Por que os estudantes que andam de ônibus não se pronunciaram antes? O Brasil se tornou um país de classe média.  Quando era um país dos que muito têm e dos que pouco têm, de que adiantava reclamar das injustiças? Agora, quando os brasileiros se sentem menos desiguais do que nunca, a lógica do sistema parece mais distorcida do que nunca. Ninguém investe em mudança sem que ela pareça factível.

O que vai sair disso tudo?

O governo da presidente Dilma, e de todos os que a precederam, provavelmente, desde os tempos coloniais, tem por base uma sociedade em que são desconhecidos os custos reais de serviços públicos mal administrados e inadequados (assim como os arranjos por trás deles). Até agora, ela disse que as reivindicações dos manifestantes são legítimas e que merecem ser ouvidas – é a coisa certa a se dizer.   

Mas… como ela irá reformar, com a rapidez esperada por Alessandra Orofino, as escolas, os hospitais, a polícia, os ônibus, os trens, as estradas e os sistemas de metrô do país? Isso sem falar dos aeroportos.

O governo dela está alicerçado em alianças políticas instáveis com muita troca de favores. Além disso, imagino que ela e muitos outros políticos em várias esferas do governo tentarão dar uma esmola para os manifestantes. Muitos prefeitos já baixaram as tarifas de ônibus.

Não é só por vinte centavos

O mundo guarda muitas surpresas para nós: em 1989, quem imaginava que fosse possível derrubar o Muro de Berlim? Quem poderia imaginar que milhares de brasileiros acordariam para lamentar as desigualdades e injustiças do próprio país? Nos mais de 30 anos em que tenho morado aqui, até a semana passada, eu achava que as mudanças aconteceriam aos poucos. Porém, atualmente você pode baixar uma música instantaneamente e você pode iniciar um movimento sem depender de populismo – de modo colaborativo. A figura do líder já não é tão crucial.

Então, talvez, exista a possibilidade de que o diálogo que surge dessa inquietação nos leve a algum lugar um pouco mais rápido do que eu esperava. #MUDABRASIL

Raul Mourão

Conforme se vê na escultura de Raul Mourão, colocou-se muita coisa em movimento

Tradução de Rane Souza

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RioRealblog steps out of the cage

A first-person exception to the rule

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(c) Fabio Pamplona

When I first came to Brazil, in 1981, hit parade American songs took six months to show up on the radio here. When I first came, working-class people over 30 had false teeth. Now, they sport braces.

Last year, I tried to explain to Alessandra Orofino, 24, co-founder of the successful new Meu Rio digital activism group, how much the country has changed.

“I don’t care about that,” she said. “I wasn’t here to see it and I’m here now, and I want change now.”

Who are these young people?

Who are the protesters, people who have taken to the streets all over the country, at long last? There’s great variety. Today on television, I saw teachers in Juazeiro do Norte whose wages had been cut 40%. Discovering their mayor at a bank branch making a deposit (!), they surrounded him. Hours later, the police safely escorted him out.

From what I’ve watched on TV, read on Facebook and, last Monday night, seen on the streets of Rio myself, the protesters are mostly young men in their twenties, students. Not workers. So why are they protesting?

I bet the mayors of Rio and São Paulo rue the day this past January, when they bowed to President Dilma’s request that they put off the bus fare hike for six months, to help her keep inflation down. If the fare hike had taken place then, the students would have been on vacation…

As I said in my last post, the fare hike is a painful reminder of Brazil’s two-tiered socioeconomic structure, where rich and poor each have their own health care, schools, transportation, and public safety solutions. Many of the protesters may not use the public health system and may have gone to private schools. But they take buses. And though they  may not make the hours-long commute of a maid, waiter or gas-station attendant, they also feel the oppression of a system that provides poorly-managed, inadequate service at a real cost unknown to passengers.

The fare hike reminded them that this is the case in every aspect of life here. And, while workers, especially those with the long commutes, don’t have time to march in the streets, the students do.

I’m not saying they’re a bunch of altruists, marching for workers.

They just feel the inequality in their own skin–and they know, consciously or not, that a country with a system like this one won’t go far. That makes a difference in their futures.

Why didn’t bus-riding students speak up before? Brazil has become a middle-class country.  When it was a country of haves and have-nots, what was the use of complaining about injustices? Now, when Brazilians feel more alike than ever before, the system’s logic looks more skewed than ever before. No one invests in change until change begins to look possible.

Check out this video, to better understand this.

What will come of all this?

Dilma’s government, and every one that preceded hers, probably back to colonial times, is stitched onto the top of a society where you don’t know the real costs (nor the real back-room deals) of poorly managed, inadequate public services. She’s said the protesters’ gripes are legitimate and deserve to be heard– and this is the right thing to say.

But … how is she going to fix, as fast as Alessandra Orofino would like, the nations’s schools, hospitals, police, buses, trains, highways and metro systems? Not to mention airports.

Her government is built on shaky political alliances that involve a lot of bone-tossing, and I imagine she and many other politicians, at all levels, will try tossing bones to the protesters. Already, some mayors have lowered bus fares.

It’s not about twenty centavos

The world holds many surprises for us: who ever thought it possible to take down the Berlin Wall, in 1989? Who ever thought that hundreds of thousands of Brazilians would wake up to the inequities and injustice in their country? In the 30-plus years I’ve lived here, until last week, I thought change would continue to occur gradually. But you can download a song almost instantaneously now, and you can get a movement going without using personalist politics — collaboratively. Leadership is no longer as crucial as it once was.

So maybe, just maybe, the dialogue that comes out of the unrest will get us somewhere, a little less slowly than I thought. #CHANGEBRAZIL

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As Raul Mourão’s sculpture indicates, much has been set in motion

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Protesto no Rio: parte de uma mudança que ganha corpo e importância

On Rio Branco

Na Rio Branco, vibrando enquanto pessoas em escritórios piscavam as luzes

 As manifestações, em todo o Brasil e, até mesmo, feitas por brasileiros morando no exterior, na verdade são contra a desigualdade e a injustiça – as bases da corrupção e da impunidade.

For Rio protest: part of a growing and important shift, click here.

O louro José – um companheiro em forma de fantoche – disse quase nada durante a primeira hora do programa da Ana Maria Braga nesta manhã. Ana Maria, que geralmente oferece aos espectadores receitas, informações sobre saúde, beleza e desenvolvimento pessoal, afirmou que os protestos de ontem entrarão para a história brasileira. “É legítimo querer uma sociedade mais justa,” ela concluiu.

Por décadas, as classes mais baixas têm encarado deslocamentos desumanos para chegar ao trabalho. O aumento de vinte centavos nas tarifas de ônibus do Rio de Janeiro e de São Paulo (estopim para os primeiros protestos) é parte de um problema maior do opressivo transporte público, que, por sua vez, representa uma opressiva estrutura maior, política e social. A falta de transparência nos setores público e privado, de prestação de contas e de diálogo são partes vitais do problema. Por exemplo, no Rio, as empresas de ônibus não divulgam seus custos reais, assim, os cidadãos não conseguem avaliar se o aumento da tarifa é justo. Uma reportagem recente no jornal Globo mostrou que as empresas não cumprem os critérios de concessão de transporte municipal.

These are the names of the bus company owners

Nomes dos donos das empresas de ônibus

 Os brasileiros culpam seus representantes eleitos. É importante destacar que, quem quer que tenha efetuado o ataque violento ao prédio da Assembleia Estadual do Rio de Janeiro na noite de ontem – um grupo pequeno comparado às 100 mil pessoas que pacificamente lotaram a avenida Rio Branco, – não escolheu o Teatro Municipal, a Biblioteca Nacional ou o Museu de Belas Artes, todos na mesma região. Infelizmente, o vandalismo atingiu o Paço Imperial, lojas e carros que estavam por perto; alguns desses manifestantes também brigaram com a polícia, que disparou tiros. Em São Paulo, um pequeno grupo tentou atacar o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual.

Possibly the demonstration's most dramatic moment: the crowd realizes that protesters in Brasília have invaded the roof of Congress

Possivelmente, o momento mais dramático da manifestação no Rio: a multidão percebe que os manifestantes em Brasília haviam invadido a cobertura do Congresso Nacional

What they were watching

O que eles estavam assistindo

 A TV Globo, que na semana anterior havia dado pouca importância aos protestos e que é tão odiada pelos manifestantes que seus repórteres usaram microfones sem logomarca ontem à noite, se juntou ao bonde. Até mesmo o programa feminino que vai ao ar depois de Ana Maria Braga focou nos protestos, fazendo uma análise do que aconteceu. E quando a Globo se junta ao bonde, ela anda – mesmo que o itinerário do bonde seja desconhecido.

Antes dos protestos, que segundo estimativas mobilizaram 230 mil pessoas em doze capitais, o secretário geral da FIFA  Jerôme Valcke, em abril deste ano, verbalizou sua irritação com a democracia brasileira, nascida há apenas 28 anos. “Quando lidamos com um chefe de Estado que pode tomar decisões, como talvez Putin possa fazer em 2018 [… ] o trabalho de nós, organizadores, é mais fácil que em um país como a Alemanha […] onde precisamos negociar com diferentes níveis [de governo].”

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Muitos vestiam branco e carregavam flores — e vinagre, um antídoto para o gás lacrimogênio

Os protestos estão ocorrendo no Brasil – com mais planejados para esta semana, com a convocação de uma greve geral em 1 de julho — no momento quando a Copa das Confederações acontece, em seis cidades. Os brasileiros vibraram em todo o país quando o Rio de Janeiro foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. Mas, à medida que o dinheiro deles é usado em infraestrutura de custos altíssimos feita para os mega eventos (e, muitos dizem, que o dinheiro também vai para os bolsos de políticos e de outros atravessadores), os brasileiros estão acordando para o que esses recursos poderiam fazer em setores historicamente negligenciados como educação, saúde, segurança pública e transporte.

A internet ajuda a disseminar a informação e a criar redes. Os brasileiros de vinte e poucos anos parecem com os baby boomers americanos dos anos 1960. Muitos deles, ao contrário de seus pais e avós desiludidos, são idealistas e acreditam em sua capacidade de mudar o país. Líderes do Movimento Passe Livre, no programa Roda Viva de ontem à noite, demonstraram de maneira convincente e clara seus motivos para exigir o passe livre e para organizar o que se tornou um movimento nacional.

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A reforma do Theatro Municipal feita em 2010 faz parte das transformações na cidade, que contribuíram para o surgimento de novas demandas

Os mega eventos vieram após cerca de uma década de mudanças econômicas e sociais, com milhões deixando a pobreza e entrando na economia formal. As favelas do Rio, por exemplo, vivenciam um aumento de renda real. Tanto as universidades públicas quanto as privadas têm recebido um número crescente de alunos de baixa renda. O desemprego atingiu os níveis mais baixos registrados.

Há muito tempo, os pobres do Brasil têm demandado inclusão econômica e social. O golpe de 1964, conduzido no contexto da Revolução Cubana, teve o objetivo de conter essa demanda. Durante os governos militares, entre 1964-85, os tecnocratas diziam que os ganhos econômicos teriam um efeito trickle-down, e isso aconteceu em algum grau. Porém, enormes abismos em desigualdade persistiram.

This was the general feeling

Esse era o sentimento geral

Assim que a hiperinflação (criada pela ditadura) foi domada em 1994, o salário mínimo teve ganhos reais e os programas de transferência de renda puderam ser expandidos. Durante o governo Lula, finalmente removeu-se a tampa da panela de pressão que represava as demandas por mais igualdade econômica – e não poderá mais ser recolocada. Para um país cujas estruturas políticas e sociais foram basicamente construídas sobre um sistema de dois níveis, na justiça na educação, no transporte e na saúde pública os desafios atuais  são imensos.

Alguns sinais são encorajadores. Ontem, quando líderes do movimento se reuniram com a polícia de São Paulo para discutir o trajeto do protesto, o chefe da Polícia Militar do estado tinha uma sugestão: “Gostaria que vocês fizessem outras manifestações como, por exemplo, contra a impunidade e pela prisão dos mensaleiros”.

Clique aqui para assistir a uma paródia divertida sobre o protesto em São Paulo, na semana passada.

Tradução de Rane Souza

 

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Rio protest : part of a growing and important shift

On Rio Branco

On Rio Branco, cheering as office workers blink the lights

The demonstrations, across Brazil and even carried out by Brazilians abroad, are really about inequality and injustice — the foundations of corruption and impunity.

The parrot José –a puppet sidekick– said almost nothing for the first hour of Ana Maria Braga’s TV Globo morning show, Mais Você, today. Braga, who usually treats her viewers  to recipes, health, beauty and personal growth, declared that yesterday’s protests would go down in Brazilian history. “It’s legitimate to want a more just society,” she concluded.

For decades, the lower classes have suffered inhuman commutes to their jobs. The twenty-cent bus fare hike in Rio de Janeiro and São Paulo (which sparked initial protests) is part of a larger, oppressive public transportation issue, which in turn represents a larger oppressive political and social structure. Lack of public- and private-sector transparency, accountability and dialogue are key parts of the story. For example, the Rio bus companies haven’t made public their real costs, so citizens can’t judge for themselves whether the fare hike is just. A recent Globo newspaper story noted that they haven’t complied with concession requirements.

These are the names of the bus company owners

Names of the bus company owners

Brazilians blame their elected officials. Whoever carried out the violent attack last night on the Rio State Legislature building — a small group, compared to the 100,000 who peacefully filled Avenida Rio Branco — notably did not choose the Municipal Theater, the National Library, or the National Fine Arts Museum, all nearby. Sadly, their vandalism did spill over onto the colonial-era Paço Imperial and some nearby shops and cars; some also battled with police, who used firearms. In São Paulo, a small group also tried to attack the governor’s Bandeirantes Palace.

Possibly the demonstration's most dramatic moment: the crowd realizes that protesters in Brasília have invaded the roof of Congress

Possibly the  Rio demonstration’s most dramatic moment: the crowd realizes that protesters in Brasília have invaded the roof of Congress

What they were watching

What they were watching

TV Globo, which last week gave initial protests short shrift and is so reviled by protesters that its reporters last night used unmarked microphones, has gotten on the bandwagon. Even the women’s program that follows Braga’s focused on the demonstrations, providing analysis. And when Globo gets on the bandwagon, it goes places — even if no one has a clear idea of the wagon’s itinerary.

Before the protests, which mobilized an estimated 230,000 in twelve state capitals, FIFA General Secretary Jerôme Valcke this past April voiced his irritation with Brazil’s democracy, born only 28 years ago. “When you have a very strong head of state who can decide, as maybe Putin can do in 2018…that is easier for us organizers than a country such as Germany….where you have to negotiate at different levels [of government].”

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Many wore white and carried flowers –plus vinegar, an antidote for tear gas

The protests in Brazil are occurring –more are planned later this week, with calls for a general strike July 1 — as the Confederations Cup (a FIFA soccer championship that precedes the 2014 World Cup, which also takes place in Brazil) gets under way, in six cities. Brazilians cheered across the nation when Rio de Janeiro won the chance to hold the 2016 Olympics. But now, as their tax money pours into overpriced mega-event infrastructure (and, many say, the pockets of politicians and other middlemen), they’re waking up to what those same funds could do in the long-neglected areas of education, health, public safety and transportation.

The internet has helped spread information and create networks. Brazilian twenty-somethings seem akin to American baby boomers. Many, unlike their jaded forebears, are idealists, and believe in their capacity to change the country. Leaders of the Movimento Passe Livre, on last night’s Roda Viva TV program, were impressively articulate and convincing about their reasons for demanding free bus fare and for organizing what has become a national movement.

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The Municipal Theatre’s 2010 renovations are part of the city’s turnaround, which helped spur new demands

The mega-events crown a decade or so of social and economic change, with millions leaving poverty and joining the formal economy. Rio’s favelas, for example, have seen a significant real increase in income. Universities, both public and private, have accepted a growing number of low-income students. Unemployment is at record lows.

Brazil’s poor have long pressured for social and economic inclusion. The 1964 coup, carried out in the context of the Cuban Revolution, was meant to keep the lid on such pressure. Technocrats, during the 1964-85 military government, said that economic gains would trickle down, and some did. But huge gaps persisted.

This was the general feeling

This was the general feeling

Once hyperinflation (created by the dictatorship) was tamed in 1994, the minimum wage saw real increases and income transfer programs could be expanded. Under President Lula, the lid at last came off — and cannot be put back on. For a country whose political and social structures were basically built on a two-tier system of  justice, education, transportation and health care, the challenges are now enormous.

Some signs are heartening. Yesterday, when movement leaders met with São Paulo police to discuss their protest route, the state Military Police chief had a suggestion: “I’d like you to hold other demonstrations, for example, against impunity and for the imprisonment of the mensaleiros” (congressmen convicted for accepting monthly payments for their votes, but still at large).

Click here to watch a fun video parody (with English subtitles) about the São Paulo protest last week.

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