A UPP ainda existe?

Teoricamente, sim

É isso que disse um morador de uma das favelas atrás do Leme ao RioRealblog, após presenciar o que chamou de “invasão” por integrantes do Comando Vermelho, na madrugada do dia 20 de janeiro.

[ATUALIZAÇÃO] Houve uma troca de comando na UPP desses morros na última semana de fevereiro. De acordo com a assessoria de imprensa da Coordenadoria de Polícia Pacificadora, “O atual comandante da UPP Chapéu Mangueira, capitão Sérgio Stoll, vai se afastar para iniciar o Curso de Aperfeiçoamento de Oficiais (CAO), previsto na continuidade da carreira militar. Durante a ausência dele, o tenente [Rodrigo] Veillard vai assumir o comando da unidade sob supervisão do major Felipe Magalhães, ex-comandante da unidade”– mas a troca com certeza tem ligação com o assunto deste post.

Enquanto a polícia trabalha para controlar a situação em várias favelas com UPP, um repórter francês conseguiu permissão de traficantes que migraram de áreas pacificadas para um “subúrbio” não denominado, e filmou o dia a dia deles. O programa, muito bem produzido e com uma resposta do Secretário Estadual de Segurança Pública José Mariano Beltrame, se encontra neste link, e está em inglês.  E ainda, aqui está uma matéria da revista Veja sobre a condição de “cabeça de ponte” da UPP no Complexo do Alemão. Aqui, uma nova entrevista da Veja com Beltrame, que fala da situação nas favelas atrás do Leme; e mais uma matéria da Veja, sobre a nova unidade de inteligência nas UPPs.

O ponto dos policiais da UPP do Morro da Babilônia e Chapéu Mangueira

O ponto dos policiais da UPP do Morro da Babilônia e Chapéu Mangueira, num dia em dezembro 2012

Para a polícia, os relatos de moradores exageram os fatos, pois o medo é enorme de que tudo volte ao que era antes. Há violência esporádica em favelas com UPP, que leva a investigações, buscas, e outras ações, de acordo com a situação.

Os morros da Babilônia e de Chapéu Mangueira receberam a quarta UPP do Rio de Janeiro, em junho de 2009. Desde então, eles têm sido considerados um modelo de pacificação, atraindo visitantes nobres tais como o prefeito de Nova York Michael Bloomberg, durante a Conferência da ONU Rio +20; e o ator Harrison Ford com sua família, poucos dias atrás.

Em 2012, o Bar do David, localizado no morro de Chapéu Mangueira e famoso pela feijoada de frutos do mar, foi o primeiro boteco de favela a ganhar o concurso Comida de Buteco. A Babilônia também é exemplo do que pode ser feito em termos de eco turismo e reflorestamento, uma vez que a pacificação abre um território da cidade para todos. E o programa de urbanização Morar Carioca focou na área logo em 2009, com melhorias de drenagem, esgoto, abastecimento de água, reflorestamento, iluminação pública, contenção de encostas e abertura de espaços de lazer.

Só que, de acordo com esta reportagem e com relatos de moradores, a violência está voltando aos morros e de certa maneira ao próprio Leme, onde os valores imobiliários aumentaram muito em função da UPP na vizinhança.

Não é um caso aparte: de acordo com fontes citados no jornal O Globo, a pacificação no morro da Mangueira, Zona Norte, nunca chegou a se consolidar. Outra UPP bem problemática é a dos morros do Coroa, Fallet e do Fogueteiro, onde está sendo investigado um esquema de corrupção que veio à tona em 2011 .

Supostamente, criminosos da facção ADA ficaram no morro Chapéu Mangueira, trabalhando sem mostrar armas, após a pacificação. Até aí, nada de novo. O tráfico continua em toda a cidade, como acontece em praticamente qualquer metrópole do mundo. O propósito da pacificação não é acabar com o tráfico, mas retomar territórios e diminuir a violência.

O que houve no dia 20, de acordo com moradores, é que chegaram membros de uma segunda facção, a CV. “Eram três da manhã. Passaram por nós meninos do tráfico que a gente conhece, da ADA,” diz um morador. “Correndo. Atrás deles, um pequeno grupo de homens encapuzados, armados. Esses voltaram depois, para nos assegurar que não corríamos perigo.”

Essa fonte acompanhou uma pessoa do local em que estavam até o asfalto, passando pelo paradeiro usual dos policiais da UPP, em frente à quadra da FAETEC, na ladeira Ary Barroso. Mas policial nenhum estava lá.

Desde aquela noite, moradores dizem que não dormem em paz. “Houve toque de recolher para os moradores e na última sexta, 22/02, e domingo, 24/02, houve tiroteios às 19h e 21h, respectivamente,” diz um.

“Agora a noite não é mais dos moradores,” comenta outro.

De acordo com eles, a nova concorrência entre as facções levou a uma corrida armamentista. Desde de o fim de janeiro, à noite é comum ver fuzis AK47, pistolas e metralhadoras nos braços de homens do tráfico. “O CV invade um dia. Depois é a vez dos ADA,” comenta um dos moradores.

De acordo com uma fonte qualificada que não quis ser identificada, as tais batalhas noturnas se resumem a alguns tiros dados do alto do morro do Chapéu Mangueira.

“Um cara de uma facção saiu da cadeia,” diz a fonte, e outro, de outra facção, já estava traficando. “Um ameaçou o outro de morte.”

Para descobrir o que aconteceu no alto do morro, um inquérito foi aberto na 12a delegacia, em Copacabana.

Hoje, a Polícia Militar fez uma busca na mata a procura de armas e drogas, com o auxílio de cães farejadores, mas nada foi encontrado.

O problema no Babilônia/Chapéu Mangueira surge em um momento delicado da transformação do Rio de Janeiro, repleto de realizações e desafios. A aliança entre a prefeitura e o governo de estado não está tão firme hoje quanto cinco anos atrás, quando Eduardo Paes e Sérgio Cabral estavam em seus primeiros mandatos e a cidade começava a se transformar.

Agora, Paes está colocando lenha nos preparativos para os mega-eventos. Encontra oposicão de moradores e ativistas contra remoções demolições— mas já está reeleito.  Quem acompanha a prefeitura com um olhar crítico se preocupa sempre mais com uma falta de transparência, diálogo, e participação.

Cabral, responsável pela pacificação, perde força ao se aproximar da eleição de 2014. Enfraquece a aliança entre o PMDB dele e o PT na esfera federal, pois cada partido tem um candidato próprio a sua sucessão.

Enquanto isso, o Metrô avança, idem a revitalização do Portofalta água porque a Light cortou a luz da Cedae porém Light diz que a culpa é da Cedae, começou a internação forçada de dependentes de crackas tarifas de barcas e do Metrô aumentam, o governo de estado prepara a privatização do Maracanão primeiro de uma leva de novos museus está prestes a se inauguraro teleférico do morro da Providência idem, Eike Batista consegue fazer o que quer na Marina da Glóriaa baía de Guanabara aparentemente fica mais suja aindavem aí um novo Papa (junto com milhões de jovens peregrinos), e os vereadores, ah, os vereadores… reduziram a renda deles.

E, no coração de todas estas mudanças, boas ou ruins, reside a política de pacificação, já com 30 unidades e começando a adentrar o Complexo da Maré. A esta altura, as UPPs têm que dar certo. Que o diga os moradores apavorados do Chapéu Mangueira e Babilônia.

Veja a cobertura do Globo aqui.

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Jogos vorazes

Uma brincadeira que traz lições surpreendentes

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O prefeito Eduardo Paes parece não se incomodar em vestir a carapuça. Enquanto críticos condenam a especulação imobiliária que as políticas dele teriam estimulado, ele deixou uma empresa de brinquedos brasileira criar o jogo Banco Imobiliário em versão Rio Cidade Olímpica, e ainda comprou 20 mil unidades do jogo para as escolas municipais. Segundo o jornal O Globo, o Ministério Público estadual está verificando se referências no jogo às BRTs e às clínicas de família constituem “propaganda irregular”.

O sociólogo Paulo Baía destacou o fato de que um jogador que caia na casa “doação para projeto social” é penalizado e obrigado a doar dinheiro a um projeto social. “Isso produz um ser humano que vê políticas compensatórias, de apoio à pobreza, como esmola. E o governo erra ao fazer isso. Ele está treinando crianças e adolescentes para enxergarem iniciativas em favor de minorias como algo desnecessário, que, por isso, merece punição. A visão pedagógica é equivocada,” ele disse, citado no jornal O Dia.

Banco Imobiliário Cidade Olímpica acirra os ânimos. Meu Rio, o grupo de ativismo digital, criou uma campanha de “panela de pressão”, exigindo que o fabricante tire o brinquedo de circulação. “Nós, cariocas, não queremos que o Rio seja retratado como um “banco imobiliário”para as nossas crianças,” afirma a campanha.

Meu Rio talvez consiga acabar com essa versão do Banco Imobiliário; o grupo, custeado por doadores individuais, já é uma bela pedra no sapato das autoridades municipais e dos encarregados dos Jogos Olímpicos. Na semana passada, fez com que centenas de pessoas ligassem para o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Nuzman. As ligações eram para se opor à proposta dele de tomar conta do polêmico Museu do Índio, construído no século XIX, marcado para a demolição em função da reforma do Maracanã.

Ousadia digital

No fim do ano passado, junto com outros grupos de ativistas, Meu Rio impediu a demolição de uma escola pública extraordinariamente bem sucedida, também localizada perto do estádio do Maracanã. A prefeitura pretendia dispersar para escolas próximas um corpo unido e dedicado de alunos, pais e professores, descartando anos de trabalho duro para construir a comunidade escolar.

“Começavam as férias escolares, e, com a escola fechada, a gente temia que a prefeitura fosse enviar as escavadeiras. Então fomos bater nas portas de todos os vizinhos que moram em frente à escola”, lembra Leonardo Eloi, diretor de projeto.

“Encontramos um casal de velhinhos que tinha internet e não se importava que a gente instalasse uma câmera do lado de fora da janela deles. Não sabiam rebootar quando a internet caía, assim tivemos que criar uma conexão remota. Então, recrutamos pessoas, guardiões, para assistir às imagens no streaming. Se vissem um caminhão ou uma escavadeira, dissemos que era para ‘apertar esse botão’, clicando em um botão vermelho na tela. Se isso acontecesse, automaticamente iriam aparecer mensagens de texto nos celulares de pessoas chave do Meu Rio. Se de fato estivesse acontecendo a demolição, todos os guardiões iriam receber uma mensagem para se dirigir à escola”.

Ninguém precisou apertar o botão (será que a prefeitura segue o Meu Rio?), porém, no dia 29 de dezembro, veio a notícia oficial de que  a escola continuará a funcionar durante o ano letivo de 2013, enquanto procura-se por uma solução.

Mais participação, mais informação, mais diálogo

Agora que a cidade já soma cinco anos de virada, e a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos estão bem próximos, Meu Rio não é o único crítico do processo. Outros apontam a falta de transparência das autoridades, de participação comunitária e representativa, e de gestão conjunta na criação e execução de políticas urbanas.

Neste sentido, um grande grupo de pessoas, de toda a região metropolitana do Rio, a maioria jovem, encheu uma sala no ISER  na semana passada para fundar a Associação Casa Fluminense. Qualquer um pode participar, e pede-se que todos façam uma contribuição financeira, de qualquer quantia. O grupo planeja obter outras fontes de sustento; sua missão é “[f]omentar a ampliação da esfera pública e a elaboração  e sustentação de políticas para a promoção de igualdade e o aprofundamento democrático em toda a cidade metropolitana e o estado do Rio de Janeiro”.

De acordo com José Marcelo Zacchi, consultor do IETs e ex-diretor da UPP Social; e Pedro Strozenberg, secretário executivo do ISER, que idealizaram a associação, a Casa Fluminense irá monitorar políticas públicas, organizar debates (em toda a região metropolitana) e elaborar políticas públicas.

Tente lançar os dados 

O nome original de Banco Imobiliário  é Monopoly (Monopólio). Em língua inglesa o nome do jogo, que data das primeiras décadas do século XX, remete aos grandes monopólios históricos dos Estados Unidos, como a Standard Oil, dismembrada em 1911. Mas, por causa da tradução inexata, quem joga Banco Imobiliário no Brasil dificilmente irá lembrar dos grandes monopólios econômicos e  financeiros brasileiros,  atuais ou antigos.

Como a maioria dos brasileiros, o prefeito Paes provavelmente nem imagina que o jogo Banco Imobiliário justamente surgiu de um jogo que  tinha por objetivo ensinar os males do capitalismo.  A mensagem ainda está aí, ainda que subliminarmente, pois sem falha é o jogador mais impiedoso quem ganha, enquanto os derrotados sentem o açoite da injustiça. Assim, talvez as escolas do Rio devessem ficar com os jogos que o prefeito comprou, e deixar que os alunos contemplem o que está acontecendo na cidade deles.

Vencedores ou derrotados, agora todos nós sabemos– ainda que bem no canto mais escuro de nossas mentes— que para termos uma cidade segura, precisamos de uma cidade integrada. E que, para ter uma cidade integrada, todos precisam desfrutar de direitos e responsabilidades iguais. E, para que todos desfrutem igualmente de direitos e responsabilidades, é necessário contar com um sistema efetivo de educação.

E que somente cidades seguras atraem investimentos, sejam de monopólios ou de qualquer um.

Para mais informações sobre a Associação Casa Fluminense, acompanhe a página do RioRealblog no Facebook e o Twitter do RioRealblog; logo haverá um site da nova entidade. A próxima reunião será em 20 de março.

Nova geração de ativistas na reunião de lançamento da Casa Fluminense: à esquerda, Miguel Lago, presidente do Meu Rio

Nova geração de ativistas na reunião de lançamento da Casa Fluminense: à esquerda, Miguel Lago, presidente do Meu Rio

Tradução de Rane Souza

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Do not pass Go

A game with surprising lessons

Mayor Eduardo Paes seems to like the way his shoe fits. While critics decry the real estate speculation they say his policies have sparked, he allowed a Brazilian toy company to make a Rio Olympic City version of the Monopoly board game, and then bought 20,000 of them for city schools. According to O Globo newspaper, the state attorney general’s office is looking into the ethics of the game’s inclusion of Paes’ recent public works, such as family health clinics and dedicated bus lanes.

A Rio sociologist pointed to the fact that a player who lands on the Community Chest square is penalized by having to donate money to a “social project”. “This produces a human being who views compensatory policies that help the poor as giving alms to beggars. And the government is wrong to do this. They’re training children and teens to see initiatives for minorities as unnecessary, as a punishment. It’s a bad teaching tool,” he said, as quoted in O Dia.

Banco Imobiliário Cidade Olímpica is stoking debate. Meu Rio, the digital activism group, has created a “Pressure Cooker” campaign demanding that the manufacturer take the game off the market.  “We cariocas don’t want Rio to be portrayed as a “real estate bank” for our children,” says Meu Rio.

Meu Rio might just bring down this version of Monopoly; the group, funded by individual donors, is quite the thorn in the heels of city and Olympic Games officials. Last week its activism sent hundreds of people phoning Brazilian Olympic Committee president Carlos Nuzman to protest his offer to take over the controversial 19th century Museu do Índio (Indian Museum), which had been scheduled for demolition as part of the Maracanã soccer stadium overhaul.

Digital derring-do

Late last year, together with other activists, Meu Rio thwarted the planned destruction of an unusually successful public school also located near the Maracanã soccer stadium. City hall intended to disperse a long-united and devoted student body and faculty to several nearby schools, undoing years of hard community-building work.

“It was Christmas vacation, and we were afraid the city would send the bulldozers in once the school was closed. So we went knocking on the doors of all the neighbors who live in front of the school,” says Leonardo Eloi, project director.

“We found this elderly couple that had internet and didn’t mind our installing a camera outside their window. They had no idea of how to reboot when the internet went down, so we had to set up a remote connection. Then, we enlisted people, guardiões, to watch the streamed images. We told them that if they saw a truck or a bulldozer, to ‘press this button’, clicking on a red button on their screens. If that happened, messages would automatically show up on key Meu Rio cell phones. If demolition was truly under way, all the “guardians” were to receive messages to rush over to the school.”

No one had to press the button (perhaps the mayor’s office follows Meu Rio?), but the city announced Dec 29 that the school will continue to function during the 2013 school year, while a solution is sought.

More participation, more information, more dialogue

Meu Rio isn’t alone in questioning aspects of Rio’s turnaround, now that the city is a good five years into the process, and the World Cup and Olympic Games are just around the corner. Others note the lack of official transparency, community and representative participation, and co-management of urban policy-making and execution.

With this in mind, a large group of people from all over the metropolitan area of Rio, mostly young, filled a room at ISER last week to found the Associação Casa Fluminense. Anyone can join, and all are asked to make a contribution, no matter how small. The group plans to seek additional funding; its mission is to “encourage the expansion of the public sphere and the creation and support for policies that promote equality and the deepening of democracy in the entire metropolitan region and state of Rio de Janeiro.”

Casa Fluminense will monitor policy, hold debates (all over the metropolis) and draft policy, according to IETs consultant and former Social UPP director José Marcelo Zacchi, and ISER Executive Secretary Pedro Strozenberg, who conceived the association.

Try rolling the dice 

Strangely, in Portuguese Monopoly is euphemistically called Banco Imobiliário, or Real Estate Bank. So here, the name doesn’t bring to mind the country’s big economic and financial players, past or present.

Like most Brazilians, Mayor Paes probably has no idea that Monopoly is rooted in a game that was actually meant to teach the evils of capitalism. The message is still there, if only subliminally, for it’s always the most ruthless companion who wins, leaving the losers to feel the sting of injustice. So maybe Rio’s schools should keep the games, and allow students to contemplate what’s going on in their city.

Winners or losers, by now we all know– even if only in the darkest recesses of our minds– that in order to have a safe city, you have to have an integrated city. And to have an integrated city, all must enjoy equal rights and responsibilities. And for all to enjoy equal rights and responsibilities, you have to have an effective education system.

And that only safe cities attract investment, be it from monopolists or just about anyone else.

For more information about the Associação Casa Fluminense, keep up with the RioRealblog Facebook page and Twitter account; a site is forthcoming. The next meeting will be March 20.

New activist generation: left, Miguel Lago, Meu Rio president

New activist generation at founding meeting of Casa Fluminense: left, Miguel Lago, Meu Rio president

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Carnaval 2013: no limite da sustentabilidade

Que tal repensar?

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Carnival can be quite  a serious affair

Carnaval também é caso sério

As autoridades municipais divulgaram na segunda-feira que o Carnaval atraiu um total de 5,4 milhões de foliões.  Desses, estima-se que 900 mil eram turistas (bem mais do que os 850 mil de 2012), 70 mil dos quais teriam desembarcado de navios transatlânticos.

Somente um bloco, o Cordão da Bola Preta, o mais antigo do Rio, levou aproximadamente 1,8 milhão de pessoas para um desfile de cinco horas, que virou caos no final.

Caught up on work, for the moment

Garis: tarefa completa, pelo momento

Nas ruas, havia mais policiais militares, coordenadores de trânsito e guardas municipais do que nunca; mais banheiros químicos e mais latas de lixo também. Pela primeira vez, a Prefeitura cercou monumentos em praças, e plantas decorativas em meio fios da Zona Sul.

Grande parte da organização deste ano, inclusive as negociações de patrocínio, coube à Dream Factory, uma empresa de eventos que também será responsável pela visita do Papa e as atividades adjuntas em julho deste ano. A Dream Factory é presidida por Roberta Medina, filha do publicitário que inventou o festival Rock in Rio, nos idos da década de 80. Dois anos atrás, a Dream Factory  fez parceria com o grupo de consultoria esportiva TSE International, sediado em Lausanne, na Suíça.

Pelo jeito, a Dream Factory pensou em tudo. Porém, como uma lembrança triste das cidades satélites de Brasília, dezenas de famílias pobres se mudaram temporariamente para a Zona Sul para suprir os foliões, dormindo em barracas ou em cima de papelão na praia, no meio fio, e nas calçadas. Um guarda municipal disse ao RioRealblog que a Secretaria de Desenvolvimento Social municipal, responsável pelas pessoas que moram nas ruas, não trabalhava durante o Carnaval. No entanto, o jornal O Dia afirma que 93 pessoas foram levadas para abrigos.

Tent city in Ipanema

Morando numa barraca em Ipanema

O metrô do Rio, uma concessão estadual, funcionou sem descanso ao invés de fechar à meia noite, mas não deu conta do movimento nos horários de pico, bloqueando entradas de estações e supostamente removendo extintores de incêndio dos vagões, para evitar vandalismo. Andar de ônibus em qualquer dia no Rio é uma experiência percussiva, mas chegou a ser assustadora durante o Carnaval, com bêbados fantasiados cantando e batucando na carroceria do ônibus, pulando a roleta e ameaçando os passageiros.

Nunca é demais

E a Comlurb, empresa de limpeza municipal, admitiu que subdimensionou o que as pessoas jogariam no lixo – e, portanto, o número de garis, que somou 1.700 homens e mulheres.

Not a light footprint

Pegada pesada

De acordo com uma pesquisa conduzida pela Consultoria em Turismo e Fundação Cesgranrio, um em cada quatro turistas mencionou a limpeza urbana como ponto negativo da experiência carnavalesca no Rio. Outras reclamações eram as diárias altas dos hotéis (38%) e o mau serviço de táxi (18%). Notavelmente, 75% dos entrevistados conheciam o Rio pela primeira vez. E eles tiveram a companhia de Kim Kardashian, Kanye West e Will Smith; Harrison Ford e família apareceram no último final de semana para o Desfile das Campeãs e uma visita a uma favela pacificada.

Carnival gold

Ouro do Carnaval

O Rio goza de uma certa elasticidade. Turistas lutam com máquinas de caixa eletrônico, emudecem com o nosso monolinguismo, são vitimados por motoristas de táxi, aturam péssimo serviço em restaurantes e penam com celulares – e, logo resolvem se mudar para cá. Os atores Monica Bellucci e Vincent Cassel são apenas dois dos mais recém-chegados.

Enquanto isso, moradores tradicionais das áreas onde os blocos desfilam não encontram alento ao esbarrrar com os famosos, nem na notícia de que a polícia prendeu mais de 800 mijões. Para eles, um mijão já é demais.

Rare example

Exemplo raro

Reciclagem incipiente 

Recicladores informais – alguns dos quais são as pessoas que dormiram na praia- catam e amassam logo as latas de alumínio, para vendê-las. Mas – recado para a Ambev – ainda falta encontrar um destino adequado para o plástico que embala as latas e o gelo que as mantém geladas, além de um monte, se não um Corcovado, de outros tipos de lixo.

Isso tudo chegou a 1.120 toneladas. Ou seja, o peso da estátua do Cristo Redentor.

Not even Superman...

Nem Superhomem…

Aproximadamente 500 blocos do Carnaval 2013 desfilaram todos os dias em diferentes partes da cidade, mas de acordo com a Prefeitura, houve uma redução de 2,3% de participantes nos blocos da Zona Sul. Mesmo assim, houve aumento de quase 30% do volume de lixo coletado em comparação ao ano passado, quando pouco mais de cinco milhões de pessoas curtiram Carnaval no Rio (um crescimento enorme, após 1,2 milhões em 2011).

Se a produção de lixo per capita tivesse sido a mesma de 2012, isso significava que 6,5 milhões de foliões agradeceriam aos céus por não ter chovido na semana passada – mesmo que uma boa chuva tivesse aliviado o calor – e o mau cheiro.

Porém, de acordo com a prefeitura, o número total de foliões não cresceu de maneira significativa de 2012 para 2013. Assim, só se pode concluir que cada um de nós foi mais porco neste ano do que no ano passado. Também somos culpados, de acordo com as autoridades, de ter festejado demais o Carnaval, pois eles reclamam que os blocos demoravam a dispersar no fim dos desfiles, dificultando o trabalho dos garis.

A maioria das latas era de cervejas da Ambev, conglomerado que patrocinou o Carnaval de rua no Rio (e que recentemente comprou a Heinz, em parceria com Warren Buffet). Segundo uma estimativa, os foliões de rua no Rio conseguiram beber 600 mil latas de cerveja por hora.

Anything goes

Vale tudo, mas há de se proteger

No ano que vem, cestas de lixo com rodas

De acordo com o jornal O Globo, a Comlurb planeja estabelecer parcerias com patrocinadores e blocos para aumentar seu exército laranja de garis, e investir em mecanização.

A Prefeitura afirma que o esquema de patrocínio para o Carnaval de rua, que neste ano arrecadou R$15 milhões, ajuda a pagar pelos banheiros químicos e coordenadores de trânsito, além do credenciamento e os uniformes de vendedores.

O presidente da Riotur, Antônio Pedro Figueira de Mello, disse que a Prefeitura “economizou” essa quantia, ao receber fundos da Ambev e de outras empresas.

Messy preparations

Preparativos bagunçados

Parece que eles não se dão conta de que quanto mais cerveja se vende, mais banheiros químicos são precisos; portanto, pode-se dizer que os patrocínios aumentam os custos da cidade. E esses custos provavelmente aumentarão todos os anos, à medida que mais e mais pessoas descobrirem os encantos da cidade – desde que aquela elasticidade continue a se esticar.

They moved from Minas Gerais

Eles se mudaram de Minas Gerais

Uma proposta para pioneiros

Quem sabe no ano que vem, um bloco progressista como o Me Beije que sou Cineasta, que desfila na Quarta-Feira de Cinzas, na Gávea, poderia servir chope, e pedir que os participantes tragam suas próprias canecas de cerveja?

Uma leitora do blog lembrou que a Oktoberfest de Blumenau funciona desse jeito, e sugeriu que a venda de canecas comemorativas ajudasse os catadores, que iriam perder renda sem as latas.

Mas pode ser que os foliões já tenham encontrado a solução logística. Aparentemete as bebidas destiladas oferecem certas vantagens em relação à cerveja…

Tradução de Rane Souza

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Carnival 2013: straining sustainability

How about a re-think?

Carnival can be quite  a serious affair

Carnival can be quite a serious affair

Possibly, 6.5 million did the dance

City officials usually announce the number of revelers just after Ash Wednesday, but so far this year there’s no news. A mere 900,000 tourists (up from 850,000 in 2012) were expected, 70,000 of whom were to arrive on cruise ships.

One bloco alone, Cordão da Bola Preta, Rio’s oldest, on Saturday drew an estimated 1.8 million people downtown for a five-hour parade, which resulted in chaos at its completion.

Caught up on work, for the moment

Trash collectors: caught up on work, for the moment

There were more military police, traffic coordinators and municipal guards in the streets, more porta-potties, and more trash receptacles than ever before. The city also, for the first time, put up protective fencing around monuments and decorative plantings on median strips.

Most of such organizing this year, including sponsorship negotiations, was carried out by Dream Factory, an events company that will also set up the Pope’s visit and accompanying activities this coming July. Dream Factory is run by Roberta Medina, daughter of the adman who invented the Rock in Rio festival, back in the 1980s. Two years ago, Dream Factory partnered with the Lausanne-based TSE international sports consultancy outfit.

Dream Factory seems to have thought of just about everything. But Brasília’s unplanned satellite cities came to mind, as dozens of poor families moved temporarily to the South Zone to supply the revelers, sleeping in tents or on cardboard on the beach, median strips, and city sidewalks. A municipal guard told RioRealblog that the city social development secretariat, responsible for those living on the street, wasn’t working during carnival– though O Dia newspaper reported that 93 people were in fact picked up.

Tent city in Ipanema

Tent life in Ipanema

The Rio metro, a state concession, ran 24 hours a day instead of closing at midnight, but was unable to handle peak traffic, shutting down station entrances and reportedly removing fire extinguishers from trains to prevent vandalism. Riding a bus any day in Rio is a percussive experience, but this can be terrifying during Carnival, with chanting costumed drunks beating on the bus body, jumping turnstiles and threatening passengers.

Never enough

And Comlurb, the city sanitation company, admitted that it sorely underestimated what people decided to discard– and thus, the number of needed trash collectors, which came to 1,070 men and women.

Not a light footprint

Not a light footprint

Urban sanitation was mentioned as a negative aspect of the Rio Carnival experience by one out of four tourists, in a survey of 1,200 carried out by the Consultoria em Turismo e Fundação Cesgranrio. Other complaints included hotel rates (38%) and taxis (18%). Notably, 75% of those interviewed were here for the first time. They were kept company by Kim Kardashian, Kanye West and Will Smith; Harrison Ford and family showed up last weekend for the parade of champions and a visit to a pacified favela.

Carnival gold

Carnival gold

Rio enjoys a certain elasticity. Tourists grapple with ATM machines, are shocked by how few people speak English, get ripped off by taxi drivers, suffer abominable restaurant service and cell phone hardships– and immediately make plans to move here. Actors Monica Bellucci and Vincent Cassel are just two of the most recent arrivals.

Meanwhile, longtime residents of areas where the blocos parade find little consolation in rubbing shoulders with the fancy newcomers, or in the news that police arrested more than 800 mijões, or pee-ers. For them, even one mijão is one too stinking many.

Rare example

Rare example

Incipient recycling 

Informal recyclers– some of whom are the people who stay overnight on the beach– quickly pick up the aluminum cans and smash them for selling. But– note to Ambev– that still leaves the plastic wrapping the cans and the ice to cool them, plus all kinds of other trash.

By last Thursday, this totaled 400 tons. Multiply by three, and you get the weight of Rio’s Christ Redeemer statue. Another 170 tons were collected in the weekend prior to Carnival, and more is sure to have piled up last weekend, also part of the bloco calendarwhen the Carnival parade of champions took place.

Not even Superman...

Not even Superman…

In the case of the estimated 500 bloco parades in different parts of the city every day of Carnival 2013, almost 30% more trash was collected than last year, when about five million people reveled in Rio (up from a mere 1.2 million in 2011). If per capita trash production remained the same from 2012, that means 6.5 million were thankful it didn’t rain last week– though a nice shower might have mitigated the heat– and the stench.

The cans are mostly beer empties, from the Ambev conglomerate that sponsored Rio’s street Carnival (and just bought Heinz, together with Warren Buffet). According to one calculation, Rio street revelers managed to drink a total of 600,000 cans’ worth an hour.

Anything goes

Anything goes, but be protected

Trash cans on wheels, next year

According to O Globo newspaper, Comlurb plans to seek partnerships with sponsors and blocos to grow its orange army, and invest in mechanization.

The city says the street carnival sponsorship mechanism, which this year brought in US$7.5 million equivalent, helps to pay for porta-potties and traffic coordinators, plus vendor licensing and uniforms.  Riotur president Antonio Pedro Figueira de Mello says the city “saved” this amount, by having Ambev and other companies chip in.

Messy preparations

Messy preparations

But what they don’t seem to realize is that the more beer you sell, the more bathrooms you need, so the sponsorships can actually be said to add to the city’s costs. And these are likely to rise every year, as more and more people discover the city’s charms– as long as that elasticity keeps on stretching.

They moved from Minas Gerais

They moved from Minas Gerais

A proposal for beer pioneers

Perhaps next year, a progressive bloco such as Ash Wednesday’s Me Beije que Sou Cineasta (Kiss Me, I’m a Filmmaker), in Gávea, could ask participants to bring their own beer mugs, and serve draft beer?

Meanwhile, revelers may be finding their own logistical solutions. Apparently, distilled liquor has some distinct advantages over beer…

[UPDATE: yesterday the city at last announced Carnival statistics— and blamed revelers for the cleanup difficulties.]

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Nós somos Santa Maria, mas somos realmente iguais uns aos outros?

Mentalidade de vilarejo – em transformação

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Night in Rio

Noite no Rio

É sempre útil lembrar que até uns dois anos atrás, os ônibus paravam no Rio de Janeiro para quem simplesmente levantasse um dedo. A vida seguia como se todos se conhecessem, uma cidade de primos e tias e colegas de turma. Muitas vezes, essa era de fato a realidade.

O trágico incêndio em uma casa noturna no sul do Brasil indica que tal fenômeno está presente em praticamente todo o país. Em todos os níveis da sociedade, uma rede de contatos pessoais se sobrepõe a instituições e leis. O comportamento, portanto, parte do pressuposto de que nem todos os brasileiros são iguais.

A família, os colegas de trabalho, amigos e contatos são mais importantes do que as outras pessoas. E, assim, o bem comum fica relegado a segundo plano. Bem como quase tudo que reside  na esfera pública. É por isso, por exemplo, que algumas das melhores obras de arte moderna brasileira se encontram em casas particulares.

A confiança suprema no círculo de convivência se realimenta, pois aqueles que administram as instituições frequentemente agem como se elas atendessem um grupo relativamente pequeno, não a um município, estado ou país. E, portanto, a continuidade de políticas públicas cede aos interesses dos sucessivos grupos dominantes .

Mercedes Guimarães, dona da casa na zona portuária sob a qual foram encontrados em 1996 aproximadamente 30 mil esqueletos de escravos, diz que nunca entregou a propriedade aos cuidados de uma entidade governamental, por temer um apoio inconsistente. Como se fosse para confirmar as expectativas dela, perto do museu que é o “cemitério de escravos” alojado na casa de Mercedes Guimarães, a prefeitura do Rio supostamente acaba de deixar sete contêineres cheios de artefatos arqueológicos raros e valiosos da época da escravidão ,descobertos durante escavações recentes feitas para a revitalização da região portuária, sem qualquer plano para o manuseio ou guarda deles.

O clã promove seus interesses e protege seus membros. O grau de proteção oferecido é maior no topo da pirâmide socioeconômica e menor na base. Tradicionalmente, as tragédias afetam brasileiros com menos acesso a um grupo poderoso. Logo, temos o fatalismo.

Desrespeito às normas e leis de segurança; falta de fiscalização pelas autoridades municipais

A revista Veja desta semana reporta:

Nas principais cidades brasileiras, há quadrilhas de funcionários públicos, despachantes e policiais especializadas na cobrança de propinas e no comércio de alvarás. Empresários da noite em São Paulo contam que a morosidade e a burocracia os obrigam a contratar “consultorias” que se dedicam à obtenção de alvarás. Oficialmente, elas orientam na colocação correta dos extintores de incêndio e em questões sanitárias. Na prática, fazem, também, o serviço sujo de negociar a propina com os fiscais municipais para liberar o funcionamento das casas noturnas. “Trata-se de corrupção com nota fiscal”, diz um empresário paulista. O valor a ser pago vai de 10 000 a 100 000 reais, dependendo do tamanho do estabelecimento. Para evitar o incômodo, muitas casas simplesmente ignoram a necessidade de alvarás e abrem as portas sem sequer solicitá-los. Seus donos preferem pagar eventuais multas a gastar com a propina. Atualmente, apenas um terço das casas noturnas da capital paulista está em dia com a inspeção dos bombeiros.

E assim, no Rio de Janeiro em outubro de 2011, uma explosão de gás aconteceu em um restaurante na Praça Tiradentes, matando quatro pessoas. Depois disso, três prédios desabaram no início de 2012, logo atrás do Teatro Municipal, matando 22 pessoas. No primeiro caso, os donos estocavam botijões de gás, o que é proibido; no segundo, os operários que faziam uma reforma removeram pilares de sustentação sem o conhecimento da prefeitura.

Na quinta-feira passada, o jornal O Globo noticiou que o Rio tem 49 locais públicos operando sem a autorização do corpo de bombeiros. Deste total, 36 são administrados pela prefeitura, o restante estando sob a égide do estado. Dentre esses locais está a conceituada Escola de Artes Visuais do Parque Lage, a sofisticada galeria de arte Casa França-Brasil e o Teatro Carlos Gomes, além de outros espaços vitais à vida cultural da cidade. De acordo com o jornal O Globo  de sábado passado, todos esses locais serão fechados por vinte dias, até que as inspeções sejam efetuadas.

(Resta saber se os fiscais do corpo de bombeiros trabalharão durante o carnaval, que começa no dia 8, e praticamente paralisa qualquer atividade séria por dez dias).

No entanto, de acordo com o jornal, o fechamento dá margem para que alguns locais funcionem sem alvará após os vinte dias, desde que não ofereçam risco aos clientes e que os reparos necessários estejam encaminhados. Muitos locais mal equipados já estavam neste limbo, fato que provavelmente levou o recém-saído secretário municipal de cultura, Emílio Kalil, a dizer, conforme citação em O Globo, “Estou absolutamente surpreso com essa notícia. Achava que eles tinham autorização, nunca haviam me passado essa informação.”

Na quinta-feira passada, a prefeitura fechou mais de cem casas noturnas privados.

Agora os cariocas começam a reparar nas saídas de emergência – inclusive além de seus círculos e territórios particulares (e mesmo nestes locais, raramente há escadas de incêndio).

Na semana passada, usuários do Facebook compartilharam uma foto de pilares corroídos no elevado do Joá, que conecta São Conrado à Barra da Tijuca, exigindo que o prefeito Eduardo Paes amplie a reforma planejada. Em resposta a isso ou por outros motivos, Paes anunciou que investirá mais. A Escola de Engenharia da UFRJ, COPPE, que realizara uma análise estrutural, não comentou publicamente a decisão. O estudo feito pelo COPPE indicou que o Elevado corre perigo de desabar e que deveria ser completamente reconstruído.

A tough transition, in the light of day

Transição difícil, à luz do dia

É possível mudar?

Muitos brasileiros temem que as respostas rápidas e enérgicas, em todo o país, ao incêndio na casa noturna em Santa Maria, sejam apenas fogo de palha, desaparecendo assim que o carnaval ou qualquer outro evento ocupe as mentes e os corações do povo. Pois o sistema de clãs tende a se perpetuar.

Porém, a mudança socioeconômica, tanto no âmbito nacional quanto no Rio de Janeiro, está começando a desafiar esse sistema, dando motivos para se acreditar que a sociedade brasileira está lentamente começando a trocar os interesses privados pelo bem comum. À medida que milhões deixam a pobreza para trás e ganham acesso ao mercado formal de trabalho, tornando-se usuários competentes de tecnologia, viajando, consumindo – e alimentando a economia nacional – membros dos grupos tradicionalmente mais poderosos encontram mais dificuldade ao tratá-los como cidadãos de segunda classe. Enquanto a pirâmide socioeconômica se alarga, o abismo sociocultural diminui.

“Nós somos Santa Maria” era o título de muitos artigos e posts do Facebook publicados na semana passada.

E à medida que ocorre a virada do Rio de Janeiro, o velho fatalismo cede a novas possibilidades – e responsabilidades. O grupo de ativismo digital Meu Rio lançou semana passada uma campanha para interditar o elevado do Joá. Recentemente, protestos populares alteraram os planos do estado e da prefeitura de demolir um prédio do século XIX que já abrigou o Museu do Índio (apesar disso, não se sabe para onde irão os índios que vivem acampados lá), e no final de dezembro, uma excelente escola pública que estava no caminho das escavadeiras sofreu uma reviravolta parecida (ainda que temporária). Mesmo enquanto mofam os achados arqueológicos encontrados na região portuária, pela primeira vez a prefeitura cercou o chafariz Saracuras localizado na praça General Osório, construído no século XVIII pelo mestre Valentim,  para protegê-lo dos foliões do carnaval. Isso envia uma mensagem sobre o valor daquilo que ocupa os espaços públicos – que quem sabe chegue até os vândalos que depredaram o chafariz no final do ano passado.

É importante destacar que muitos dos estudantes universitários mortos no incêndio não eram da cidade de Santa Maria, onde está localizada uma grande universidade federal. Eles vieram de cidades pequenas no estado do Rio Grande do Sul, motivados para subir na vida, com empregos nas áreas de engenharia, medicina veterinária, agronomia e odontologia. Faziam parte de uma geração que poderia ser considerada o baby boom brasileiro, finalmente com renda disponível suficiente e acesso a bolsas de estudo e cotas, para poder obter um diploma universitário e curtir com amigos shows em casas noturnas.

Essa é a geração que traçará o caminho do Brasil como democracia e economia emergente, e agora está marcada por uma enorme tragédia que inegavelmente decorreu da prevalência de interesses privados sobre o bem comum.

A transição de um vilarejo de clãs para uma metrópole com instituições confiáveis e imparciais não chega a ser, de modo algum, um caminho fácil e sem obstáculos. Como que para comprovar isso, na semana passada,  um cão resolveu passear na ponte Rio-Niterói, de oito pistas e treze quilômetros. Não é a primeira vez que isso acontece nem deve ser a última.

Tradução de Rane Souza

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We are Santa Maria, but are we the same as everyone else?

A village mentality– in transformation

Night in Rio

Night in Rio

It’s always useful to recall that until about two years ago, you could get a bus to stop and pick you up in Rio de Janeiro merely by raising a finger. Life occurred as if everyone knew everyone else, a city of cousins and aunts and people you’d gone to school with. And this was often truly the case.

The tragic nightclub fire in southern Brazil demonstrates that the phenomenon exists just about everywhere in the country. At all levels of society, a web of personal connections takes precedence over institutions and laws. Behavior thus flows from the assumption that not all Brazilians are created equal.

One’s family, colleagues, friends and contacts are more important than everyone else. And so the common good is relegated to the back seat. As is much that resides in the public sphere. This is why, for example, some of the best Brazilian modern art is housed in private homes.

Overriding trust of the familiar feeds on itself, since those who run institutions often treat them as if they serve a relatively small group, not a municipality, a state, or the nation.  And so continuity yields to revolving-door interests.

Mercedes Guimarães, owner of the port-area house under which as many as 30,000 slave skeletons were found in 1996, says she never turned the property over to a government agency, for fear of lagging support. As if to live up to her expectations, close to Guimarães’ slave “cemetery” museum, the city of Rio has just reportedly left seven containers full of rare and valuable archeological slavery-era artifacts discovered during recent port revitalization excavations, with no provision for upkeep.

The clan promotes its interests and protects its members. The degree of protection afforded is greater at the top of the socioeconomic pyramid, and least at the bottom. Traditionally, tragedy befalls Brazilians with least recourse to a powerful group. Ergo, fatalism.

Disregard for safety regulations and laws; lack of city inspections

Says this week’s Veja magazine:

In Brazil’s most important cities, there are gangs of public servants, brokers and police that specialize in charging bribes and the purchase of permits. Nighttime entertainment executives in São Paulo say that delays and bureaucracy force them to hire “consultants” to get permits. Officially, the consultants advise clients on the correct placement of fire extinguishers and sanitation issues. In practice, they also do the dirty work of negotiating bribes with city inspectors to permit nightclubs to open. “We’re talking about corruption with a nota fiscal (bill of sale),” says one São Paulo businessman. The amount paid ranges from ten thousand to a hundred thousand reais, depending on the size of the establishment. To avoid  the trouble, many clubs simply ignore the need for permits and open their doors without even trying to get them. Their owners prefer to pay fines, instead of paying the bribes up front. Currently, only a third of São Paulo’s nightclubs have been fully inspected by the fire department.

And so, in Rio de Janeiro in October 2011, a gas explosion occurred at a restaurant on Praça Tiradentes, killing four. Then three buildings collapsed in early 2012, just behind the Municipal Theatre, killing 22. In the first case,  the owners allegedly stored gas cannisters, which is illegal; in the second, renovation workers removed supporting pillars, unknown to city inspectors.

Thursday, O Globo newspaper reported that Rio has 49 public venues operating without authorization from the fire department. Of these, 36 are run by the city, with the remainder under state aegis. These include the highly-regarded Parque Lage arts school, the sophisticated Casa França-Brasil art gallery and the Carlos Gomes theater, among other venues that are central to the experience of culture in the city. Today’s Globo reports that all venues will be shut down for twenty days, until inspections are completed.

(It remains to be seen if fire inspectors will work during Carnival, which begins Feb. 8 and pretty much paralyzes any serious  activity for ten days.)

Yet according to the paper, the shutdown left leeway for some venues to function without a permit after the twenty days, as long as patrons are in no immediate danger and the needed work is undertaken. Many poorly-equipped venues were already in fact in exactly such limbo, which is probably what led recent municipal culture secretary Emílio Kalil to say, as quoted in O Globo, “I am completely surprised by this [news that so many venues functioned without a permit]. I thought they had permission, no one told me”.

Thursday, city officials shut down more than a hundred privately-owned venues.

Now cariocas have begun looking over their shoulders for safety exits– beyond their private circles and territories (and even these rarely have fire escapes).

Facebook users this week circulated a picture of corroded supports on the Joá overpass connecting São Conrado and Barra da Tijuca, demanding that mayor Eduardo Paes upgrade planned repairs. Whether in response to this or for other reasons, Paes did announce he’ll spend more. The UFRJ graduate engineering school, COPPE, which performed a structural study, hasn’t commented publicly on the decision. The COPPE study claimed the overpass could collapse and should be completely rebuilt.

A tough transition, in the light of day

A tough transition, in the light of day

Is it possible to change?

Many Brazilians fear that the hasty and rigorous responses to the Santa Maria nightclub fire, nationwide, will be a flash in the pan, disappearing as soon as Carnival or some other event occupies most minds and hearts. For the clan systems tends to self-perpetuate.

But socioeconomic change, both nationally and in Rio de Janeiro, is starting to challenge it, providing reason to believe that society is slowly beginning to trade private interests for the public good. As millions leave poverty and gain access to the formal job market, becoming digitally savvy, traveling, consuming– and powering the national economy– members of traditionally more powerful groups find it harder to to discount them as second-class citizens. As the socioeconomic pyramid widens, the sociocultural abyss is closing .

“We are Santa Maria” was the title this past week of many an article and Facebook post.

And as Rio turns itself around, the old fatalism gives way to new possibility– and responsibility. The digital activism group Meu Rio yesterday launched a campaign to close the Joá overpass. Popular outcry recently reversed state and city plans to demolish a nineteenth century building that once housed the Museu do Índio (though it remains to be seen where Indians who camp out there will go), and a topnotch public school in the path of bulldozers received a similar reversal (albeit temporary) in late December. Even as the archeological finds moulder in the port area, the city has for the first time erected protective fencing around the 18th century Saracuras fountain by Mestre Valentim, in Praça General Osório, to protect it from Carnival revelers. This sends a message about the value of that which occupies public space– hopefully also to vandals who attacked it late last year.

Notably, many of the university students who died in the fire weren’t from the city of Santa Maria, where a large federal university is located. They came from small towns in the state of Rio Grande do Sul, set to move up in the world, with jobs in engineering, veterinary medicine, agronomy and dentistry. They were part of a generation that could be considered Brazil’s baby boom, at long last with enough disposable income and access to scholarships and quotas, to be able to earn college diplomas and enjoy a show at a nightclub with friends.

This is the generation that will trace Brazil’s  path as a democracy and emerging economy, and it’s now marked by a huge tragedy that clearly arose from the precedence of interest groups over the public good.

The transition from a village of clans to a metropolis of reliable and equitable institutions is by no means a straight and narrow path. As if to prove the point this past week,  a dog decided to take a stroll on Rio’s eight-lane eight-mile Niterói bridge. It wasn’t the first time and may not be the last.

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Revitalização do porto, reassentamento e moradia

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A revista Piauí quebra o silêncio geral: não deixe de ler

Se no portão de embarque do aeroporto você já passou por um atraso ou um cancelamento de voo, você já experimentou o caos (a menos que você estivesse a uma distância confortável, na sala VIP). Primeiro, dizem que se trata de um pequeno atraso, depois não há informação alguma; depois disso, o atraso é de horas ou dias. Não dá para decifrar a fala da voz estridente nos autofalantes. As pessoas contam umas às outras versões do que elas acham que ouviram. Uma multidão se forma no balcão. Punhos levantam em riste. Bebês choram. Outras pessoas como você, num portão bem em frente, estão embarcando para o voo delas, tudo muito normal.

O quê? Como vou fazer para chegar a…? Tenho uma reunião/falecimento na família/criança com fome! Quando sai o voo? O que tem o avião? Mesmo se eles consertarem, eu não vou embarcar. Conexões… Qual hotel? Quem vai pagar? E a comida? Não tem outro voo? Você sabe quem eu sou? Transporte para o hotel? Onde? Amanhã? Passar o dia inteiro aqui? Tenho que fazer uma ligação! Quero meu dinheiro de volta!

Você já viu a cara impassiva daquele funcionário suado da empresas aérea, tentando resolver a situação – para poder dar o fora o quanto antes.

Agora imagine como é receber o comunicado da Prefeitura dizendo que você e alguns dos seus vizinhos na favela terão que se mudar, porque o governo precisa demolir a sua casa .

Além dessa situação ter sido extremamente difícil tanto para os moradores quanto para os funcionários da Prefeitura, é quase impossível dispor de (ou fazer) uma análise completa das notícias sobre moradia de baixa renda e reassentamento. Principalmente porque boa parte da informação disponível vem de ativistas, que carregam certos viés.

Tal era a situação até a semana passada, quando a revista Piauí publicou “Os Descontentes do Porto” na edição de janeiro.

O link do artigo está disponível aqui, mas o texto completo só pode ser acessado por assinantes. Pode-se comprar a Piauí em banca de jornal.

Há muitos dados novos no texto da experiente jornalista Cláudia Antunes, que apoia a conclusão de um post do blog em 2011 sobre reassentamento – de que, para além das questões difíceis de justiça, o performance da Prefeitura em termos de organização e comunicação está aquém do necessário.

Há um fato simples e impressionante no artigo da Piauí, que não é tão novo assim, mas digno de nota: na ausência de uma política de moradia para cidadãos de baixa renda, as favelas cariocas cresceram entre 2000 e 2010 mais de 27%. Na cidade inteira, a população cresceu 7,4%. Atualmente, 1,4 milhão de cariocas, 22% da população, mora em favelas.

Outros aspectos chamam atenção no artigo da Piauí, que trata dos trabalhos de melhoria urbana do programa Morar Carioca, no morro da Providência, local da primeira favela brasileira, contígua à região portuária:

  • A autora ouviu uma variedade de fontes, entre autoridades das esferas federal, estadual e municipal, ativistas, líderes comunitários e moradores. No entanto, ninguém dispunha de uma data definitiva para a entrega de apartamentos novos àqueles cujas casas serão ou foram demolidas no morro da Providência.  Na verdade, datas definitivas não estão disponíveis para muitos projetos de construção urbana no Rio. E os projetos, depois de entregues, podem apresentar problemas como isso isso.
  • No final de 2010, alguns moradores do morro da Providência (671 famílias, uns 2 mil moradores) foram comunicados sobre as demolições, mas a construção de seus novos apartamentos está atrasada. O novo secretário de habitação municipal, Pierre Batista, disse à revista que o problema é que muitas famílias ainda não decidiram qual das duas opções preferem: reassentamento ou indenização. Não está claro por que o número de apartamentos precisa estar atrelado ao número de famílias relocadas, pois seria fácil ocupar qualquer superávit. Enquanto isso, aqueles que deixaram suas casas e esperam pelo novo apartamento recebem 400 reais por mês a título de aluguel social, valor que se diz muito abaixo do custo atual do aluguel na área. Antunes escreve:

Segundo a Secretaria, está programada a edificação de 752 apartmentos em seis endereços na zona portuária, com dinheiro federal e municipal. Em dezembro, porém, dois terrenos ainda não haviam sido desapropriados, e só num deles, atrás dos trilhos da Central do Brasil, a obra havia começado. O canteiro estava quase sem operários, e o engenheiro informava que eles haviam sido deslocados para a conclusão do teleférico. Ainda assim, a prefeitura insiste em que entregará os 118 imóveis do local neste semestre.

Até agora, 475 famílias da Providência não fizeram acordo para sair. Das 196 que já deixaram suas casas, 135 recebem ajuda municipal para o aluguel, o chamado “aluguel social”, à espera dos novos apartamentos. As outras 61 aceitaram as demais propostas de compensação: indenização em dinheiro, compra de uma nova casa com ajuda da prefeitura ou a mudança pra conjuntos do programa federal  Minha Casa Minha Vida fora da zona portuária. 

Passados dois anos do início das obras, a reivindicação dos atingidos e de ativistas que os apoiam passou de um “não à remoção”  à “troca de chaves”.

  • Os moradores poderiam ter sido reassentados na área vizinha do Porto Maravilha, porém essa iniciativa de revitalização imobiliária seria para prédios comerciais, lojas e restaurantes, e moradia de classe média.  Segundo a Piauí, toda a região portuária ocupa uma área maior do que dois terços de Copacabana, e no entanto abriga uma população cinco vezes menor, de 28 mil habitantes. De seus cinco milhões de quilômetros quadrados, 3,8 milhões de quilômetros quadrados datam dos primeiros tempos do Rio. O 1,2 milhão de quilômetros quadrados restante, aterrado no século vinte, pertence principalmente ao governo federal e está lotado de armazéns vazios que se tornaram obsoletos devido ao uso de contêineres. De acordo com a revista, o governo federal tem um papel indireto (através de um fundo da Caixa Econômica Federal) em disponibilizar esses lotes para usos sofisticados . A despeito disso, Alberto Gomes Silva, o novo presidente da CDURP, o órgão municipal que administra a revitalização do porto, assegurou à Piauí que disponibilizaria um mapa dos lotes reservados para moradia de baixa renda.

Ele disse que a Cdurp alocou um “terreno nobre” próximo à orla, para o movimento dos sem-teto, e que está trabalhando com a prefeitura para “fazer um estoque” de imóveis para os mais pobres. 

  • A Defensoria estadual já tentou várias vezes parar as obras do Morar Carioca no morro da Providência, argumentando que os cidadãos não foram devidamente informados ou envolvidos no processo. Em novembro, um juiz tomou uma decisão favorável a esse posicionamento, ordenando a paralisação. E o governo federal, mediante a atuação de um grupo de trabalho sobre moradia ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, em outubro do ano passado convocou uma audiência pública sobre o impacto das obras relacionadas aos mega eventos. Representantes do governo municipal não compareceram à audiência. Esta é a única reportagem relacionada à tema na imprensa de maior circulação; na verdade, antes da publicação do artigo na Piauí, o RioRealblog desconhecia tais desdobramentos.
  • O antigo secretário municipal de habitação, Jorge Bittar, atribui as críticas a interesses políticos. Essa conclusão é o resultado inevitável da negligência do papel fiscalizador, por parte da mídia; neste caso levando a uma falta de diálogo útil sobre reasssentamento, uso fundiário da região portuária e políticas de moradia de baixa renda.

Os críticos  “têm uma visão preconceituosa e ideologizada das coisas,” ele disse. “O epicentro disso chama-se PSOL. Estão fazendo disputa política  sob a alegação de que a Copa e a Olimpíada vão explusar os pobres “.

Como todos nós sabemos, as favelas tem sido, por muito tempo, uma solução informal para suprir a demanda por moradia.

Uma vez que elas existem, e uma vez que uma cidade decide integrá-las ao tecido urbano (como o Rio de Janeiro agora faz), os formuladores de políticas públicas se encontram diante de questões básicas de qualidade de vida e custos.

“A manutenção é complicada,” disse Sergio Guimarães Ferreira, diretor de informação do Instituto Pereira Passos, ao RioRealblog na semana passada. “O saneamento básico é um problema sério.” Outros desafios, ele acrescentou, são coleta de lixo, segurança pública, mobilidade e iluminação. Em alguns casos, é preciso abrir espaços para implementar soluções.

Para fazer com que as condições de vida em favelas atinjam os padrões desejáveis, reassentamentos serão necessários. Isso faz parte do programa Morar Carioca, criado para urbanizar todas as favelas do Rio até 2020.

Poderia-se argumentar que o morro da Providência é uma espécie de piloto do Morar Carioca, iniciado no ano passado—com atraso. Lá, um teleférico super moderno está em fase de teste e, em breve, deve começar a facilitar a vida dos moradores da favela que há muito lidam com os altos e baixos do Rio de Janeiro.  E, em algum momento de um futuro não muito distante, após um período de confusão, alguns daqueles cujas trajetórias foram perturbadas pela urbanização terão um endereço permanente não muito longe de suas casas antigas.

Tradução de Rane Souza

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Port revitalization, relocation and housing

Piauí magazine takes on the subjects: a must-read

If you’ve ever had a long flight delay or cancellation at an airport gate, you’ve seen the chaos (unless you were comfortably distanced, in the VIP lounge). First they say it’s just a little late, then no information at all, then it’s a lot late. You can’t make out what they’re saying on the loudspeaker. People give each other versions of what they thought they heard. A crowd forms at the desk. Fists are shaken. Babies cry. Other people just like you, right across the way, are getting on their flight, all perfectly normal.

What? How will I get to..? I have a meeting/death in the family/hungry child! When are we leaving? What’s wrong with the plane? Even if they fix it, I’m not getting on. Connections… What hotel? Who pays? What about food? Isn’t there another flight? Do you know who I am? Shuttle to the hotel? Where? Tomorrow? Spend the whole day here? I need to make a phone call! I want my money back!

You’ve seen the poker-faced, sweaty airline employees, trying to sort it all out– and scram.

Now imagine what it’s like to have the city say that you and some of your favela neighbors have to move because they need to tear your house down.

Not only has this situation been extremely difficult for residents and city officials; it’s also been almost impossible to get a broad reading of the news regarding low-income housing and relocation. Not least because most of the available information comes from activists, who have their own biases.

Such was the case until last week, when Piauí magazine published “Os Descontentes do Porto” (The Malcontents of the Port), in its January edition.

The article is linked here, but fully available online only to subscribers. Piauí can be purchased at newsstands. There’s a lot of new information in the piece by veteran journalist Claudia Antunes, which supports the conclusion of this blog post back in 2011 about relocation– that aside from the thorny issues of justice, the city is doing a poor job of organizing and communicating such change.

Here’s a basic and startling fact in the Piauí article that isn’t so new but worth emphasizing: in the absence of a low-income housing policy, between 2000 and 2010 carioca favelas grew more than 27%. In the city as a whole, the population rose only 7.4%. Today, 1.4 million cariocas, or 22%, live in favelas.

Several other elements stand out in the Piauí article, which focuses on the Morar Carioca urban upgrade efforts in the Morro da Providência, the site of Brazil’s first favela, contiguous to the port area:

  • A variety of sources were consulted, including federal, state, and city officials, activists, neighborhood leaders and residents. Nevertheless, no one provided a firm date for delivering new apartments to those whose homes will be demolished in the Morro da Providência favela. It should be noted that firm dates aren’t available for many urban construction projects in Rio. And projects, once delivered, may present problems such as this and this.
  • Providência residents (671 families, or about 2,000 residents) were told in late 2010 they’d have to leave, but construction of their new apartments is behind schedule. The new municipal housing secretary, Pierre Batista, told the magazine that the problem is that many families haven’t yet decided which of two options they prefer: relocation or reimbursement. It’s unclear why the number of apartments needs to be neatly tied to the number of families to be relocated, when any surplus could easily be filled. Meanwhile, those who have left their homes and await new ones receive 400 reais a month in “social rent”, said to be far below the actual cost of renting in the area. Antunes writes:

According to the Municipal Housing Secretariat (SMH), there are plans to build 752 apartments at six addresses in the port area, with federal and city funds. In December, however, two lots still hadn’t been taken over by the government, and only on one of them, behind the Central Station tracks, had work begun. There were almost no construction workers, and the engineer said they’d been shifted to finish up the cable car system. Still, city hall insisted it will deliver the lot’s 118 units in the first half of this year. 

Up to now, 475 families from the Providência favela haven’t come to an agreement with the city about leaving their homes. Of the 196 that have left, 135 receive municipal aid for rent, called “social rent”, while they wait for the new apartments. The other 61 accepted other compensation offers: cash reimbursement, the purchase of a new home with help from the city, or a move to the a federal Minha Casa Minha Vida (My Home My Life) unit, outside the port area. 

Two years after work began, the demand of activists and those affected has changed from “no to removal” to “changing keys”.

  • Residents might have been relocated to the nearby Porto Maravilha, but that real estate revitalization initiative has reportedly been reserved for office buildings, shops and restaurants, and middle-class housing. The entire port area, says Piauí, is more than two-thirds the size of Copacabana, but has a population five times smaller, of 28,000. Of its five million square meters, 3,8 million hark back to Rio’s early days. The remaining 1.2 million, twentieth century landfill, mostly belong to the federal government and are chockablock with empty warehouses made obsolete by shipping containers. According to the magazine, the federal government has an indirect hand (by way of a Caixa Econômica Federal fund) in allocating these lots for upscale usage. Still, Alberto Gomes Silva, the new president of Cdurp, the city entity that manages the port revitalization, promised Piauí that he would publish a map of lots set aside for low income housing.

He said that Cdurp had allocated a waterside “desirable lot”, for the homeless movement, and that he’s working with the city to “create an inventory” of low-income real estate.

  • The state attorney general’s office has repeatedly moved to stop Morar Carioca work in Providência, arguing that citizens weren’t duly informed or involved in the process. In November, a judged ruled in favor of this, ordering a halt. And the federal government, by way of a working group on housing linked to the  Presidency’s Human Rights Secretariat, held a public hearing last October on the impact of construction related to sports mega-events, which city officials didn’t attend. This is the only related story available in the the mainstream press; in fact, until the Piauí article appeared, RioRealblog hadn’t heard about these developments.
  • Former Municipal Housing Secretary Jorge Bittar chalks up criticism to political interests. When the media shirks its watchdog role, such is the inevitable outcome, leading in this case to an absence of useful debate on relocation, port area land use, and low-income housing policy.

The critics  “have a prejudiced and ideologized view of things,” he said. “The epicenter of this is called PSOL. They’re playing politics using the allegation that the World Cup and the Olympics are pushing out the poor”.

As we all know, favelas have long been an informal solution to housing needs.

Once they exist, and once a city decides to integrate them into the urban fabric (as Rio is now doing), policymakers come up against long-ignored basic questions of life quality and costs.

“Maintenance is complicated,” Sergio Guimarães Ferreira, Pereira Passos Institute Director of Information  told RioRealblog last week. “Sanitation is a serious issue.” Other challenges, he added, are trash collection, public safety, general access and lighting. In some cases, spaces need to be opened up in order to implement solutions.

In order to bring favela living conditions up to standard, removals will have to take place. This is embodied in the Morar Carioca program, set to upgrade all Rio favelas by 2020.

You might say that Morro da Providência is a sort of pilot for Morar Carioca, which got under way–late– last year. There, a new high-tech cable car system is in a test phase, and should soon begin easing the lives of residents who have long dealt with the highs and lows of life in Rio de Janeiro. And sometime in the not-too-distant future, after a period of confusion, some of those whose lives were disrupted by the upgrade will boast a permanent address not far from where they used to live.

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Favelas: what to preserve?

A world in a van

Para Favela: preservar o quê, clique aqui

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There’s no direct bus to Copacabana, coming from Avenida Brasil at pedestrian overpass number nine, Parque União.  So what you have to do is take a  van. Except that getting to the van stop means risking your life.

“There are crackheads,” warns Jailson de Souza e Silva, Observatório de Favelas founder, “and they’ll go after you. They recognize the locals, and they’ll go after people who look like gringos.” He asks an employee to be a bodyguard. On the way, she says she thinks the government should put the addicts to work. “They could print t-shirts,” she suggests.

The Observatório de Favelas thinktank sits at the edge of the Complexo da Maré, a collection of 16 favelas and housing projects squeezed between Avenida Brasil and Guanabara Bay. Pacification hasn’t made it to the Maré. Souza e  Silva lived there seven years, and 11 more in a favela near Penha.

The van interior, almost totally occupied, is dark, cool, and soundtracked with samba. The AC is on and the windows are open, to catch the breeze of one of the last afternoons of the carioca spring. There’s almost no wait, but just as the van pulls out a black woman appears, decked in curves and  megahair. The driver, a solid man with round sweet eyes, stops, gets out, and lets her climb up to sit in half of a spot in the front seat, next to him and two other women.

But in less than a meter someone remembers that the police are on the avenue, out among the addicts, on motorcycles, with sirens and revolvers, like zombie herders– sending the devotees into diaspora. The driver stops again, the gorgeous woman gets out, goes around, and gets into the back of the van, to crouch next to the man you pay, the cobrador.

Ponto de van e de mototáxi

The sendoff spot for the van and moto-taxis

Co-author of the new book O Novo Carioca [The New Carioca] Souza e Silva is part of a group of thinkers and doers in Rio de Janeiro, who observe and encourage the rise of the so-called New Carioca. These are people, mostly young, who try make the most of the city. They crisscross it, making connections and friends, creating and participating in a range of cultural activities. Urban integration– and what the city will come to look like– say the book’s authors, depend a great deal on the new carioca.

According to Souza e Silva in an essay in the book, “… favelas are part of the carioca identity … the city has become known nationally and internationally partly due to the architectural, cultural and social importance of its favela areas. It’s crucial for Rio that the existence of this richness of landscape and cultural plurality be guaranteed”.

Jailson de Souza e Silva

A few meters ahead, past crackheads alone and in groups, some on the median strip, past the police, the van pulls over. The driver and the woman get out, she goes around, and returns to her half-seat in the middle beside him, in front. The samba blares. The trip begins anew, the van making its way onto an overpass above the avenue, to get to the side heading downtown. More crackheads come into view, below.

“We’re gonna stop for diesel,” announces the cobrador. No one complains, but the quasi copilot– muscular, in sneakers, tank top and bermudas, his head shaved except for a blond bunch of curls on top, apologizes. The driver wanted to fill up before, but there wasn’t time. The cobrador slides open the door and gets out to deal with the fuel. The gas station also sells empadas (little salty pie snacks), and through the open door the driver and the attendant trade funny remarks about empadões (big empadas) that an outsider is unable to decode.

A barefoot black woman in a purple bra and cheap elastic mini-skirt comes by, and begs at the empada counter. A one-legged man on crutches comes by.

Earlier, Souza e Silva said he never wanted to leave the favela. “It’s not true that people want to leave the favela. I’m the most concrete example. I only moved away from the favela– I had built a wonderful house in the favela– because the war made it impossible to bring up my son in the favela … if we were just my wife and I we wouldn’t have left, but bringing up a child with that, with stray bullets all the time, not being able to go out into the street, because there’s kids with rifles, and the police disrespecting residents– that’s what made me leave the favela. Where I lived we had sewage pipes, paving, lots of shops, a huge degree of solidarity among the people, intensity of life, partying, involvement, belonging, and more and more cultural activities.”

For an American born in a suburb of houses with yards to play in, grass to cut, and leaves to rake, the description of favela community life is familiar. In an American suburb, the neighbors know who’s ill, who needs a casserole, a ride, a visit. There, the state is more dependable than in Brazil — public schools are generally good, for example– but outside of large cities people live far from amenities. They depend on each other for support in times of need. Neighbors shovel snow from older folks’ front walks, canvass door-to-door for electoral candidates, drive people to church, babysit, walk dogs, water plants, and give out Halloween candy.

Pit stop

Pit stop

The carioca from the formal part of the city greets neighbors, doormen, delivery boys, market sellers, local merchants. He or she jokes, teases about a rival soccer team. He dances in carnaval blocos and goes to festa junina parties in the square. He shares the beach, beer, grilled chicken, pickup soccer. But rarely does he come together with neighbors to provide some necessity that is of general utility: water, power, shelter. In Brazil, those who live on the asfalto pay taxes, pay doormen, pay a builder, dogwalkers, and the maid– and life is sorted out.

In Brazil, the level of trust in the other is low, especially when the other is not a relative or colleague. But in the favela there’s more trust than is generally seen in the country as a whole, because there’s less inequality. The other is less different, less frightening, said Souza e Silva. And life is more public.

The van has a thermometer. In the panel above the megahair woman’s head, it shows more than 36 degrees. But the breeze is cool, the samba energizes, and Mara, the girl in the next seat, is negotiating transportation for a group in January with the driver, to Jacarepaguá. There’s a wedding. “Yours??” asks the cobrador, with a malicious smile. By his tone of voice and the plenitude of his facial expressions, plus his clothing, it’s easy to figure out he’s homosexual.

“Are you kidding?” exclaims Mara. “Me, get married in Jacarepaguá? I’m gonna get married at the Copacabana Palace!” She asks the driver how much he’d charge. He says he’s thinking. And he pulls into a bus stop. A man with skin wrinkled by the sun gets in, and stands next to the cobrador. At the next stop, the cobrador opens the door to reveal a blonde holding a large bag. She shakes her head no. The driver says there’s room. “Get in!” he urges, bending over the three women in the front seat so his voice will make it to the ears of his potential client. But she refuses.

“Now step on it!” says a passenger, as the van joins the flow of Avenida Brasil.

“I am,” answers the driver. “I have to be in Copacabana at two.”

Vans came into being in the nineties in Rio, as an informal response to a lack of transportation between far-off neighborhoods and central areas of the city. “Without the Copacanana-Maré van I don’t know what would become of us, people who circulate night and day building new forms to experience the city,” commented Souza e Silva.

Today, militias control most of the van business, and mayor Eduardo Paes is trying to infuse urban transportation with some degree of logic. To reduce the number of vehicles in the streets, buses and metro lines would make more sense. The issue isn’t that different from that of land use. There are already buildings in favelas.

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“So how much?” asks Mara. “Twenty,” says the driver.

“Per person? It’s coming out of my pocket!” She fiddles with her cell phone and shows the girl next to her something, maybe a photo.

At the moment, four years after the start of pacification in Rio de Janeiro, as its many economic and real estate effects play out, there’s a lot of talk about preserving the favela, especially those in the South Zone. A growing number of young foreigners are setting up house in Vidigal, Rocinha, Pavão-Pavãozinho and Cantagalo. A short walk in any of these reveals sacks of cement, recently laid bricks. Life is safer in many pacified favelas. People invest, the city transforms. The barrier between formal and informal areas begins to blur a tiny bit.

What should be preserved, in these long-neglected areas of the city? “There’s a lot of confusion created,” Souza e Silva said earlier in his office at the Observatório, “in thinking, when you talk about the favela as habitat, that the point is to preserve the landscape.”

The landscape, even in the most cinematographic favelas, even where children now play safely in the streets and tourists will be having New Year’s barbecues, is still often ugly and smelly.

“Basic conditions must be provided: sanitation, power, water, sewage collection, trash collection, day care, education, cultural activities and community spaces,” added Souza e Silva. “The favela has to have everything you need to live with dignity in an urban center. Except that this doesn’t mean eliminating the favela,” he explained. “It means recognizing that the favela has a particular geography, that can be preserved just as medieval cities have been preserved… we can have different types of habitats, of urban structures, without the loss of dignity.”

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And, supposing that the favela does get all this in the coming years– since the Morar Carioca program, partly supported by the Inter-American Development Bank, is in fact meant to bring all carioca favelas up to standard by 2020– what Souza Silva and other leaders from low-income areas of the city want to preserve is a lifestyle.

The cobrador tells Mara to put his phone number in her cell phone’s memory. “Now call me,” he instructs her. “So I’ll have your number.” The negotiating will take some time.

“Anyone going to the Aterro?” asks the driver. “Me,” says the girl on Mara’s other side.

“Is Largo do Machado good enough?”

“Yeah.”

“You getting married?” the cobrador asks again, like a cop trying to out a lie. “Only at the Copa Palace,” Mara repeats.

“Been a while since I’ve seen your girlfriend,” Mara’s friend says to the driver, fishing for information.

“What girlfriend?” he corrects her. “I’m married.”

Close neighbors: cobrador and passenger

The van passes by the defunct Leopoldina train station, the Sambodrome, and at last it pulls over in the Largo do Machado. The temperature has dropped a degree. The samba and the breeze both ease the heat. Mara’s friend gets out. Mara says she’s going to São Conrado, but she’ll have to get out before the Rio Sul mall and take another van, or a bus.

The passenger with the wrinkled face wants to pay  the cobrador his three reais. “When you get out,” the cobrador tells him.

Asphalt cariocas create and keep networks in their neighborhoods and in the city. The links between favela residents, said Souza e Silva, must be preserved. Often, they are the result of strong life experiences.

They must not be that different from the community links evident in the small American town of Sandy Hook, for example, recently hit by a terrible tragedy. Neighbors there, according to reports, thought it strange they’d never been inside the killer’s mother’s home. Because in much of the U.S., you go inside a neighbor’s house even if he’s not your friend. Taking such a liberty, and feeling the trust it implies, are part of American democracy.

In Brazil, such behavior could be considered intrusive. In the South Zone of Rio the most a neighbor will dare is to ask, with the utmost care, to see what a decorator or architect did with an apartment laid out exactly like his or hers.

“Recognizing that a favela is more than a landscape is to recognize these links,” concluded Souza e Silva.

The wrinkled man has come to his destination. The van stops, the cobrador gets out, the passenger pays on the sidewalk. “He doesn’t want to take the money before,” laments the driver. “He’s such a fairy.”

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Not her wedding in Jacarepaguá

The van gets to Flamengo Beach, and several passengers step out, leaving more space inside. “Where do you work in São Conrado?” the driver, alone now in the front seat, asks Mara.

“At the Fashion Mall?” guesses the cobrador. It’s Rio’s most upscale shopping mall. She says yes. “What store?” he asks. Now he decides it’s time for everyone to pay. Money is handed over, change made.

“Armani,” answers Mara. The van goes through a short tunnel. As it comes out, Mara’s putting on a pair of sunglasses with an AX on the side. Soon the van stops, she gets out, and then a young man appears in the space of the open door, with top-of-head hair and tweezed eyebrows, a hand suggestively at his ample waist, one foot stuck out in front of the other for hip emphasis.

“Your brother?” the driver asks the cobrador. The passenger sashays into the empty front seat and the cobrador gets out with a wry smile to buy water for himself and the pilot.

While they drink from dripping blue bottles, the van arrives in Copacabana, Rio de Janeiro’s densest neighborhood. The sea breeze invades the windows; samba flows out. It’s 33 degrees according to the red numbers on the panel. The stragglers descend at the corner of Francisco Sá, and there goes the  Copacabana-Maré duo, heading into the U-turn, driving along the beach, back to Parque União.

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