A Cidade Maravilhosa encontra a Big Apple

 Chefe de pacificação em Nova York semana que vem

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Se você estiver em Nova York ou na vizinhança, fique de olho para o modesto Secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame. Vai estar lá por apenas um dia, acima de tudo para assistir à estreia mundial de cinco filmes curtos no MOMA sobre a pacificação, dirigdos por jovens moradores de favela. O projeto 5 x Pacificação dá seguimento ao 5 x Favela de 2010, produzido por Cacá Diegues. Ele também estará na Grande Maça, junto com os diretores. O première acontece às 16 horas. Às 18 horas, Beltrame participará de um debate no New York Times, moderado por Larry Rohter, autor de Brazil on the Rise, que foi correspondente do NYT no Rio.

Mais cedo no mesmo dia, Beltrame se encontra com o vice-diretor executivo da ONG Human Rights Watch, Iain Levine, e será entrevistado pelo atual correspondente do NYT no Rio, Simon Romero.

Será interessante saber o teor da conversa com a  HRW. Nos últimos meses, a polícia carioca matou dois suspeitos notáveis em vez de prendê-los com vida, dizendo que houve confronto.

Ao contrário de muitos de seus subordinados, Beltrame está sempre aberto para conversar com defensores e observadores de questões de direitos humanos. HRW acaba de escrever uma carta ao governador Sérgio Cabral criticando a polícia, apesar de uma queda em violência policial desde o começo da pacificação, há quatro anos.

Bem que o sr. Levine poderia perguntar ao Beltrame sobre um relatório divulgado ontem no Rio pelo centro de pesquisa  CESeC (apoiado pela Fundação Ford), mostrando que uma proporção maior dos policiais de UPP se considera inadequadamente preparada para seu trabalho, do que aqueles que foram pesquisados há dois anos. O programa de treinamento passa por uma grande reforma, mas ainda existe uma triste falta de preparo sobre técnicas de policiamento comunitário. Policiais também relataram uma crescente percepção de atitudes negativas por parte de moradores de favela, perante eles. É possivelmente mais grave ainda o fato de que muitos dos que responderam à pesquisa (e também muitos moradores de favela) duvidam de que a pacificação seja algo permanente; dos 885 respondentes policiais pesquisados em vinte UPPs, o estudo classificou 51%  como “neutros ou ambíguos” sobre a pacificação, 12% “partialmente resistentes” and 3% “totalmente resistentes”.

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Marvelous City meets Big Apple

 Pacification chief in New York next week

If you’re in or near New York, keep your  eye out this Monday for Rio’s unassuming State Public Safety Secretary, José Mariano Beltrame. He’s there for just a day, first and foremost to attend the MOMA world premiere of five short films about the city’s pacification efforts, directed by young favela residents. Peace in Rio is a followup to the 2010 5 x Favela collection of shorts, produced by veteran filmaker Cacá Diegues. He’ll also be in town, together with the directors. The premiere is at four p.m. At six p.m., Beltrame will participate in a New York Times debate, moderated by Larry Rohter, the Times’ former Rio de Janeiro correspondent and author of Brazil on the Rise.

Earlier in the day, Beltrame meets with Human Rights Watch Deputy Executive Director Iain Levine, and will give an interview to the current NYT correspondent, Simon Romero.

It’ll be interesting to know what gets discussed in the HRW meeting. In the last few months, police have killed two notable suspects in loco rather than bring them in alive, claiming there were confrontations.

Unlike many of his subordinates, Beltrame is always open to conversing with human rights advocates and observers. HRW recently wrote a letter to Rio Governor Sérgio Cabral that criticized the Rio police, despite the drop in police violence seen since pacification began almost four years ago.

Levine might do well to ask Beltrame about a report released yesterday here by the Ford Foundation-funded research unit CESeC, showing that more of Rio’s pacification police consider themselves inadequately prepared for their jobs than those surveyed two years ago. The training program is being revamped but is still sadly short on community policing techniques. Police also reported a growing perception of negative attitudes regarding them, among favela residents. Perhaps even more worrisome is the fact that many of those surveyed (as well as many favela residents) doubt that pacification is here to stay; of the 885 cops surveyed in twenty police pacification units, the study classified 51% “neutral or ambiguous” about pacification, 12% “partially resistant” and 3% “totally resistant”.

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Pacificação e livros = FLUPP

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O Rio de Janeiro sempre foi uma cidade de encontros. E agora temos mais trocas ainda, por causa das mudanças que acontecem aqui.

Há anos que a FLIP, a festa literária anual que acontece em Paraty pelos últimos dez anos, leva autores ao Rio para apresentações pós-festa. Mas esse ano marca o debut de autores em eventos literários de favela.

“Esse é o primeiro lugar que estive onde vejo pessoas que se parecem comigo,” disse Teju Cole, o escritor, fotógrafo e historiador de arte nigeriano-norteamericano, varrendo o público com os olhos num auditório da favela Morro do Cantagalo. A FLIP, que começou dia 4 de julho e terminou no domingo passado, atrai um público de classe média alta, predominantemente branco.

“Como preservar a cultura da favela, enquanto a pacificação se consolida?”

Segunda-feira, o editor da revista literária Granta, John Freeman, o escritor galês Cynan Jones,  a escritora cubana Zoé Valdez  e o autor paquistanês-inglês Hanif Kureishi se apresentaram em um encontro organizado pela FLUPP na favela do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. Com recursos do BNDES, FLUPP é uma série de encontros literários e de workshops de criação literária que acontece desde abril nas favelas pacificadas do Rio.

Ontem, a conexão FLUPP-FLIP se deu no Morro do Cantagalo em Ipanema com Suketu Mehta, autor de Cidade Máxima, Bombaim, junto com Douglas Mayhew, um americano que mora no Rio e pesquisa um livro sobre favelas; e Luiz Eduardo Soares, antropólogo, ex-secretário de segurança pública e co-autor dos livros que levaram aos filmes Tropa de Elite I e II.

Julio Ludemir, um dos organizadores da FLUPP

Além de um público de maior variedade racial, a tarde também ofereceu um concurso de rap freestyle no qual Teju Cole reconheceu sua música favorita (tocada por acaso), e atraiu participantes tais como o atual Secretário Estadual de Segurança Pública José Mariano Beltrame, o diretor da FLIP Miguel Conde, especialista em políticas de segurança e drogas Julita Lemgruber, e jovens ligados à Agência Redes para Juventude, um programa pioneiro para jovens, sustentado pela Petrobras.

Beltrame, com o filho nos braços

O público e os autores debateram muitos aspectos da pacificação e a integração urbana no Rio de Janeiro, tanto o lado positivo como o negativo.

Cole aconselhou os escritores locais a contar suas histórias com matizes, da maneira mais complicada possível. O objetivo é combater a tendência daqueles que chegam de fora a simplificar a realidade. “Ninguém pode contar sua história por você,” ele avisou.

Mayhew se interessou nas favelas– e já pesquisou 80 delas até agora, com seu parceiro de texto e fotografia Marcelo Castro– quando trabalhava como voluntário no Hospital Miguel Couto. “Vi uma criança que levara uma bala no braço. O traficante não o deixou ir para o hospital porque os pais não obedeceram uma regra dele,” Mayhew relatou. “Era castigo.”

Teju Cole e Douglas Mayhew dão conselhos

Mayhew sugeriu que todo o mundo deveria fazer questão de ir até uma favela, de conhecer essa realidade– apesar de cada uma ser diferente, com uma grande variedade de bairros e ruelas dentro de suas margens.

Mehta, cuja mesa na FLIP foi o assunto do último post do RioReal, disse que cidades tais como Lagos, Bombaim, e Johannesburgo estão de olho no Rio de Janeiro. ” Pelo mundo inteiro, há gente que está observando,” ele alertou. “Não temos que reinventar a roda quando se trata de trazer partes da cidade para o controle governamental. Assim que é muito importante que vocês acertem.”

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Pacification and books = FLUPP

Rio has always been a city of encounters. Now, the changes the city is undergoing are fostering even more mixing.

FLIP, the annual literary festival that’s taken place in the Rio state seaside colonial town of Paraty for the last ten years, has long brought foreign authors to Rio for post-festival readings and debates. But this year marks the debut of such authors at favela literary events.

“This is the first place I’ve been where I see people who look like me,” said Teju Cole, the Nigerian-American writer, photographer, and art historian, scanning the audience in a Cantagalo favela auditorium. FLIP, which took place starting July 4 and ended this past Sunday, attracts an upper-class white public.

“How to preserve favela culture as pacification takes hold?”

Monday, Granta editor John Freeman, Welsh writer Cynan Jones,  Cuban writer Zoé Valdez  and Pakistani-British author Hanif Kureishi spoke at a gathering organized by FLUPP in the Morro dos Prazeres favela, in Santa Teresa. Funded by Brazil’s National Development Bank (BNDES), FLUPP is a series of literary gatherings and writing workshops held since April in pacified (UPP) favelas.

Today, FLUPP’s FLIP connection wound up in Morro do Cantagalo in Ipanema with Suketu Mehta, author of Bombay, Maximum City, along with Douglas Mayhew, a Rio-based American working on a book about favelas; and Luiz Eduardo Soares, a public safety expert and co-author of the books that led to the movies Elite Squad I and II.

Julio Ludemir, one of the FLUPP organizers

Not only was the audience racially mixed, but the afternoon began with a freestyle rap contest featuring Teju Cole’s favorite song (by chance), and attracted the likes of State Public Safety Secretary José Mariano Beltrame, FLIP director Miguel Conde, drug policy expert Julita Lemgruber, and young people connected to the Agência Redes para Juventude, a pioneering youth program funded by Petrobras.

Beltrame, with son in arms

Audience members and panelists discussed many aspects of Rio’s pacification and urban integration, both plusses and minuses.

Cole advised local writers to tell their stories with nuance, in as complicated a manner as possible. This is to combat outsiders’ tendency to oversimplify. “No one can tell your story for you,” he pointed out.

Mayhew was drawn to favelas– and has canvassed eighty so far, with his writing/photography partner Marcelo Castro– when volunteering at a local public hospital. “I saw a child who had suffered a gunshot wound. His arrival at the hospital was delayed by a drug trafficker. He didn’t allow the child to be seen by a doctor because his parents had transgressed a rule he’d made,” Mayhew recounted.

Teju Cole and Douglas Mayhew give their advice

Mayhew suggested that everyone should make a point of going to a favela, to get  to know that reality– though each one is different and has many varying neighborhoods and streets within its confines.

Mehta, whose talk at the FLIP was the subject of RioReal’s last post, said that cities such as Lagos, Bombay, and Johannesburg have an eye on Rio de Janeiro. “All over the world people are watching,” he warned. “We don’t have to reinvent the wheel when it comes to bringing parts of the city under government control. So it’s very important you guys get it right.”

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Cities and democracy in Paraty: the literary festival

Urban problems even at the literary festival in Paraty

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Open sewers, scarce water, electrical overload and Internet gridlock: common problems in big cities– and smaller ones, too.

Those born before the year 2000 know that in the grand scheme of human history, the twentieth century was the century of cities, as debate mediator Guilherme Wisnik said yesterday at the Paraty Literary Festival.

Wisnik mediated the Cities and Democracy debate, with Indian-American  Suketu Mehta and top Brazilian anthropologist Roberto Da Matta.

Born in India, Mehta emigrated to New York with his family in the 1970s. Some twenty years later he returned with wife and children to his homeland, bent on discovering if it’s possible to go home. The result of this experience was the highly praised book Maximum City: Bombay Lost and Found, published last year in Brazil.

He said that Bombay is a city both brutal and welcoming. Sound familiar?

On the one hand, Suketo hears the story of a Muslim who torched a Hindu  from whom he used to buy bread– “because he was Hindu”. On the other, he listens to the chief of the urban train system, who says a more comfortable form of transportation won’t come into being during his lifetime, yet keeps his faith in human beings. The reason? Every day he witnesses the solidarity of squeezed and sweaty passengers who reach out hands to an unknown latecomer, making space out of nothing for one more person.

According to Da Matta, the future of the world is to be found in cities such as Rio de Janeiro and Bombay (the name of which comes from Portuguese, by the way: Boa Baía, or Good Harbor).  With all their warts and wonders, these cities are taking their places on the world map, while American and European cities founder.

They’re simultaneously problems and solutions.

Cities and Democracy, in the Authors’ Tent

“If the village chief dies, the village can die,” said Da Matta. “But if the governor or mayor dies, the city goes on. The city is bigger, crisis is the norm in cities, the city explodes, it keeps up with the stages of economic development.”

In his city of Niterói across the bay from Rio de Janeiro, Da Matta says he feels like crying when he sees the beach of his childhood. But metropolitan Rio de Janeiro manages to produce the paradox of intense pollution along with a U.N. world conference on sustainability, he noted. The city, he said, is so multi-faceted that it seems like an Indian god, with zillions of arms and heads.

Our cities are built on ruins, real and socio-historical, said the debaters. “Ugly international-style” skyscrapers, Mehta noted, rise up next to historic buildings. In Rio de Janeiro, motorists of medieval mentality drive modern German cars. “It’s not a problem of inequality,” Da Matta, author of Fé em Deus e pé na tábua: ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil [Faith in God, Foot on the Accelerator: or How and Why Traffic Drives Brazil Crazy] said provocatively. “We’re allergic to equality”.

What’s the role of the favela? was a question for Mehta. In December, he visited several Rio de Janeiro favelas, pacified and unpacified.

“I went to a baile funk in Maré, which isn’t pacified. I heard songs about copkillers and underage sex. I saw kids carrying AK47s bigger than them. I saw people selling cocaine in the street, from trash bags. Then I went to a jazz club in a pacified favela, where there was a kind of tamed jazz, and people from Leblon who liked the idea of being in a place that’s a little dangerous. This is the future of the favela,” he pointed out.

“Once a Jewish friend took her grandmother to her new apartment, all fixed up, remodeled, in New York’s Lower East Side”, he went on. “Her grandmother was horrified. ‘I spent half of my life trying to get out of here!’ she exclaimed”.

The other side of this coin, Mehta added, is public housing. “The architects are insane and deaf,” he lamented. “They don’t listen to the residents, the buildings are monochromatic series of blocks.”

In the cacophony of Bombay, Mehta discovered that you can’t go home. But he came to understand that much of a grand city’s sparkle derives from the fact that so many of its residents are outsiders. Showing a scene from the 1950s Bollywood movie Bombay My Love to the festival public, he explained that the pickpocket’s song portrays a skeptical view of the city, the ambiguous relationship between migrant and city. “If you are a newcomer, you have to make it by hook or crook,” he said.

Which is what Mehta did in the two and a half years he lived in Bombay. Today he feels at home in several of the world’s great cities, but has returned to New York, where he teaches journalism at New York University. At the moment he’s writing a book about the immigrant experience in the Big Apple.

If the twentieth century was the century of urban expansion, maybe the twenty-first will be the century of urban sustainability, the moment for facing up to scenes such as that of the photo at the top of this post. “I remember eating crabs from this mangrove swamp just in front here,” says Regina Rita Peres Goulart, a pousada (inn) owner.  “Now, my neighbors, fancy restaurants, allow their sewage to run out into the street. So much needs doing.”

On Wednesday July 11, Suketu Mehta will participate in a presentation at the FLUPP in the Morro do Cantagalo, Espaço Criança Esperança, 3 p.m.

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Cidade e democracia, em Paraty

Urbanização e seus problemas, até na própria FLIP

Esgoto a céu aberto, falta de água, sobrecarga na rede elétrica e gridlock na de Internet. São problemas comuns nas grandes cidades, e até nas pequenas.

Quem nasceu antes do ano 2000 sabe que na história da humanidade o século XX foi o século de urbanização, como disse hoje na FLIP o mediador de mesa Guilherme Wisnik.

Wisnik mediou a mesa Cidade e Democracia, com o indiano Suketu Mehta e nosso antropólogo mor Roberto Da Matta.

Nascido na Índia, Mehta emigrou com a família a Nova York nos anos 1970. Uns vinte anos mais tarde se mudou para a terra natal com esposa e filhos, querendo ver se era possível voltar ao lugar que deixara na adolescência. O resultado da experiência foi o elogiadíssimo livro, finalista do prêmio Pulitzer, Bombaim, Cidade Máxima, lancado no Brasil em 2011.

Diz ele que Bombaim é uma cidade brutal e acolhedora, ao mesmo tempo. Soa familiar?

Por um lado, Suketo ouve a história do muçulmano que tacou fogou no hindu de quem ele costumava comprar pão– “porque era hindu”. Por outro, ouve o diretor do sistema de trens urbanos, que duvida que venha a existir um transporte mais confortável até o fim de sua vida, mas não perde a esperança no ser humano. Isso porque ele é testemunho, todos os dias, da solidariedade dos passageiros espremidos e suados que estendem a mão para o desconhecido tardio, criando um espaço do nada para um a mais.

De acordo com Da Matta, o futuro do mundo reside em cidades como o Rio de Janeiro e Bombaim (cujo nome vem do português, aliás: Boa Baía).  Com todos os defeitos e desafios surgem com força agora no mapa mundial, enquanto as cidades norteamericanas e europeias degeneram.

São problemas e soluções, ao mesmo tempo.

Cidade e Democracia, na Tenda dos Autores

“Se o chefe da aldeia morre, pode morrer a aldeia,” comparou Da Matta. “Mas se morrer o prefeito ou o governador, a cidade continua. A cidade é maior, a crise é a norma da cidade, a cidade explode, acompanha as etapas de desenvolvimento econônomico.”

Na sua cidade de Niterói, Da Matta tem vontade de chorar quando vê a praia de sua infância. Mas o Rio de Janeiro metropolitano é capaz do paradoxo de poluição intensa em conjunto com uma conferência mundial de sustentabilidade das Nações Unidas, ele lembrou. A cidade, disse ele, tem tantas facetas que parece um deus indiano, cheio de braços e cabeças.

Nossas cidades se constroem por cima de ruinas, físicas e socio-históricas, disseram os debatedores. Arranha-céus de “feio estilo internacional”, contou Mehta, surgem em Bombaim ao lado de prédios históricos. No Rio de Janeiro, modernos carros alemães são conduzidos por motoristas de mentalidade medieval. “Não é um problema de desigualdade,” cutucou Da Matta, autor de Fé em Deus e pé na tábua: ou como e por que o trânsito enlouquece no Brasil. “Temos uma alergia à igualdade”.

Qual o papel da favela? veio a pergunta para Mehta. Em dezembro, ele esteve em várias favelas do Rio de Janeiro, pacificadas e não pacificadas.

“Estive num baile funk na Maré, que não é pacificada. Ouvi músicas falando de matar policiais, e sobre sexo entre menores de idade. Vi crianças portando AK47s maiores do que eles mesmos. Vi gente vendendo cocaina na rua, de sacos de lixo. Depois, fui a um clube de jazz em uma favela pacificada, onde havia um jazz meio domado, e gente do Leblon que curtia a ideia de estar num lugar um pouquinho perigoso. Esse é o futuro da favela,” ele apontou.

“Certa vez uma amiga judia levou a avó dela para seu novo apartamento, todo reformado e bonitinho, no Lower East Side de Nova York”, ele continuou. “A avó dela ficou horrorizada. ‘Passei metade de minha vida tentando sair daqui!’ ela exclamou”.

O outro lado dessa moeda, acrescentou Mehta, é a moradia para famílias de baixa renda. “Os arquitetos são insanos e surdos,” ele denunciou. “Não ouvem os moradores, fazem tudo numa cor só, em blocos.”

No ambiente cacófono de Bombaim, Mehta descobriu que não é possível voltar a uma cidade do passado. Mas chegou a entender que o que enriquece a vida urbana é justamente a condição de outsider de tantos moradores. Ao mostrar parte do filme anos 1950 de Bollywood Bombay My Love ao público da FLIP, explicou que a música ali cantada por um batedor de carteira retrata um olhar cético, da relação ambígua do migrante com a cidade. “Se você é recém chegado, você tem que dar certo, por bem ou por mal,” disse ele.

Foi o que o próprio Mehta fez, durante os dois anos e meio que morou em Bombaim. Hoje, se sente em casa em várias cidades do mundo, mas mora novamente em Nova York, onde leciona jornalismo na New York University. Atualmente, escreve um livro sobre a experiência de imigrantes na Big Apple.

Se o século XX foi da urbanização, talvez o século XXI seja o século da sustentabilidade urbana, a hora de encarar cenas como da foto de cima. “Lembro de comer caranguejo desse manguezal aqui na frente,” conta Regina Rita Peres Goulart, dona de uma pousada.  “Agora, meus vizinhos, restaurantes finos da cidade, despejam esgoto na rua aqui do lado. Precisa melhorar muita coisa.”

Na quarta feira dia 11, Suketu Mehta participa da FLUPP no Morro do Cantagalo, Espaço Criança Esperança, 15 hs

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Rio + 20 e o Rio de Janeiro

Tipo carnaval, com menos lixo

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O prédio da exposição Humanidades 2012 era temporário, feito de andaimes

E com menos música, mais trânsito, e o que aparentava ser toda a Marinha brasileira navegando do norte ao sul e do sul ao norte, pela costa. Também, não se tratava de fantasias, a não ser que se contabilize pessoas como o índigena brasileiro que mirou um segurança do  BNDES com arco e flecha…

Na verdade, o único atributo que a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável teve em comum com o carnaval foi a invasão de visitantes, que totalizaram 110 mil pessoas. Na zona sul, por todos os lados havia gente de crachá pendurado pelo pescoço.

Os engarrafamentos aconteciam não por causa de blocos nas ruas, de foliões sambando e bebendo, mas por causa de manifestações, e hordas de veículos insustentáveis ocupando as pistas. Escoltadas por policiais de motocicleta com sirenes ligados e barulhentos helicópteros, os comitivas de 190 países iam e voltavam do Riocentro na zona oeste em oposição exata às horas e sentidos das horas de rush cariocas. Para abrir caminho, a prefeitura suspendeu as reversões normais de manhã, cancelou as aulas por três dias, fechou repartições públicas e aconselhou aos cidadaos que era melhor ficar em casa ou utilizar o transporte público.

Muitos visitantes criticaram a falta de organização e o serviço ruim que experimentaram. Milhares acamparam no Sambódromo e na Quinta da Boa Vista, por falta de acomodação na rede hoteleira. Uma delegação japonesa a caminho da Estação Alegria de tratamento de esgoto errou o caminho e se deu de cara com homens armados numa favela do Caju.

Maurie Carr, coordenadora de projetos para a fundação Global Environment and Technology, uma entidade sem fins lucrativos de Washington D.C., ficou uma semana numa casa de retiro na serra, próxima a Duque de Caxias. Alguns dias, ela levou três horas até o Riocentro. “Foi uma aula de desapego,” ela falou, acrescentando que apesar de tudo pretende voltar ao Rio. “Falei para minha mãe colocar o Rio na lista,” ela disse. Conseguiu um tempinho para conhecer algumas trilhas na serra, e mais o Leblon, Ipanema, Rocinha eVidigal.

Também, a conferência deixou claro quanto ainda falta para que o Rio de Janeiro possa se considerar uma cidade sustentável. Uma porção minúscula de lixo é reciclado, e a baía de Guanabara, por exemplo, está horrendamente poluída apesar de ter sido suposto alvo de uma limpeza custando milhões de dólares. Pelo menos todo dia o Grupo EBX de Eike Batista está tirando 250 quilos de lixo, da Lagoa Rodrigo de Freitas.

No fim das contas, grande parte do Rio + 20 não foi um bom indício do que se pode esperar na visita do papa no ano que vem, na ocasião da Copa do Mundo de 2014, e nem para as Olimpíadas de 2016. Mas a situação pode mudar quando novas opções de transporte público começarem a funcionar, além do corredor Transoeste para ônibus articulados, que se inaugurou no começo deste mês.

O resultado da conferência em si também decepcionou, como previsto. “Os governos são inúteis,” diz Clayton Ferrara, que viajou da Flórida ao Rio para representar o movimento liderado por jovens IDEAS for Us. “Todo dia na sessão plenária, os representantes dos países subiam ao pódio para falar e falar e falar sobre o que eles estavam fazendo pela sustentabilidade,” diz ele, acrescentando que o público se escasseava ao passo que os dias passavam.

Contudo, para o Rio de Janeiro houve três aspectos positivos da conferência.

Um foram as trocas entre os mundos de negócios, das universidades, do terceiro setor, e até dos chatos dos diplomatas. A Cûpula dos Povos, reuniões extraconferência, seminários, e encontros por acaso juntaram todo tipo de ideias e informação. Muitas universidades americanas marcaram eventos para graduados locais e pesquisadores que chegaram para a conferência, para suscitar novas conexões entre as pessoas. A ONU também coordenou reuniões do setor privado e compromissos de ações de sustentabilidade.

Outro foi o aprendizado sobre a sustentabilidade. Por dias, adultos e alunos fizeram fila para ver a exposição de bela criatividade Humanidade 2012, que aconteceu numa estrutura temporária ao lado do Forte de Copacabana. Por volta de 200 mil pessoas tiveram a chance de passar pelas provocações de artistas e intelectuais sobre estilo de vida e o meio ambiente. As federações de indústria do Rio de Janeiro e de São Paulo pagaram a conta.

E a ONG que acompanha os indicadores do Rio, Rio Como Vamos,  fez um levantamento de opinião pública revelando que um surpreendente 74% da população estava informado sobre a conferência e aquilo que pretendia. Os 1.800 respondentes eram de bairros, rendas e idades variados; esse resultado deve ser útil na hora de organizar a reciclagem e mutirões de limpeza de lixo.

Por último mas certamente não de menor importância, são as medidas e metas muito reais que foram anunciadas antes e durante a conferência. São eles:

  • A criação da Bolsa Verde Rio, para transações de crédito e carbono e outros mecanismos de compensação ambiental, para atender às empresas que precisam cumprir as leis visando sustentabilidade
  • Como resultado de uma manifestação perto do Riocentro, o agendamento de uma reunião de representantes da Vila Autódromo, cujos moradores não querem ser removidos devido aos preparativos para as Olimpíadas, com a ONU e o governo brasileiro
  • Declaração do Rio de Janeiro 2012, um pacto entre governadores brasileiros e de outros países para reduzir o consumo de energia em prédios públicos e  a emissão de gases do setor de transportes por 20% até 2020, além de outras medidas
  • Uma decision pela Cúpula C40 de Grandes Cidades para reduzir emissões de carbono em 58 cidades e para compartilhar informações sobre sustentabilidade. Essas cidades, que abrigam 320 milhões e são fonte de 21% de GDP mundial, são responsáveis por 12% das emissões do mundo. O Rio pretende reduzir emissões por 12% até 2016. Mesmo assim, elas devem aumentar— mas menos do que seria o caso sem esse compromisso.
  • Uma proposta pela FIRJAN, a federação industrial do Rio, para privatizar o saneamento
  • A criação de um centro de pesqisa de sustentabilidade, o Centro Rio +
  • Um empréstimo do Banco do Brasil para a limpeza das lagoas da Barra da Tijuca
  • Uma proposta da prefeitura a ser votada pelos vereadores da cidade, criando incentivos fiscais para métodos de construção e design verde

Vinte anos após a Eco 92, mudou tanta coisa. Uma recordação que perdura para essa blogueira daquela conferência da ONU é da fila de gente animada para experimentar o novo cartão de telefone, uma ação pioneira da Telerj  para substituir as fichas telefônicas. A União Soviética acabara de ruir e o Muro de Berlim era recém demolido. Os indígenas brasileiros apareceram de relâmpago para nos lembrar de seus papeis no meio ambiente, do mesmo jeito que fizeram na semana passada.

Se o planeta continuar a existir, quem sabe como será o Rio de Janeiro daqui a vinte anos? Muito irá depender dos jovens como os dessa foto, fazendo brincadeiras na exposição Humanidade 2012.

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Rio + 20 and Rio

Like Carnival, with less trash

The Humanidades 2012 exhibit was made out of scaffolding

And less music, and more traffic, and what seemed like the entire Brazilian Navy sailing up and down the coast. There were also no costumes, unless you count people like the Brazilian Indian in full regalia who aimed a bow and arrow at BNDES security personnel …

Actually the only way the U.N. Conference on Sustainable Development was like Carnival, is that Rio de Janeiro was invaded by visitors, 110,000 to be exact. In the South Zone, everywhere you turned there was someone with a dangling identity card.

The traffic jams occurred not because blocos of people were dancing and drinking in the streets, but because of demonstrations, and the hordes of unsustainable vehicles hogging the road. Escorted by sirening motorcycle cops and hovering helicopters, dignitaries from 190 countries came from and went to the Riocentro convention center in the West Zone in exact opposition to the times and directions of the carioca rush hour. To ease the way, city hall suspended the normal morning lane reversals, gave students three days off from class, shut down municipal agencies and told people to either stay home or use public transportation.

Many visitors criticized the lack of organization and poor service they encountered. Thousands slept in makeshift camps at the Sambadrome and in a park, because Rio didn’t have enough hotel rooms. A Japanese delegation on the way to a sewage treatment plant took a wrong turn and came face to face with armed men in a Caju favela.

Maurie Carr, project coordinator for the Global Environment and Technology Foundation, a Washington D.C.-based non-profit, stayed a week at a retreat a short drive up into the mountains from Duque de Caxias, a poor bedroom community neighboring Rio de Janeiro. Some mornings it took her three hours to reach the convention center. “It was a lesson learning to just let it go,” she said, adding that despite everything she intends to return. “I told my mother to put Rio on the list,” she said, having managed to sneak in some hiking, plus visits to Leblon, Ipanema, Rocinha and Vidigal.

The conference also underscored just how much ground Rio de Janeiro itself has to cover when it comes to environmental sustainability. A miniscule amount of trash is recycled, and Guanabara Bay, for example, is horrendously polluted despite millions of dollars having been devoted to a cleanup. At least Eike Batista’s  Grupo EBX has been taking 250 kilos of trash out of the Rodrigo de Freitas lake every day.

All in all, much of Rio + 20 didn’t augur well for the Pope’s visit next year, the 2014 World Cup games in Rio, nor the 2016 Olympics. But the situation could change when new mass transportation options are to come online, in addition to the Transoeste articulated bus lane that opened earlier this month.

The conference results were also disappointing, as most people expected they would be. “Governments are useless,” says Clayton Ferrara, who traveled from Florida to Rio representing the youth-led IDEAS for Us movement. “Every day in the plenary session, representatives of all the different countries got up and went on and on about what they were doing for sustainability,” he says, noting that attendance thinned out as the days wore on.

But for Rio de Janeiro there were three positive aspects of the conference.

One was the networking that took place, among business, academia, the third sector, and even the boring government representatives. The Peoples’ Summit, side meetings, conferences, seminars, and chance encounters brought together all kinds of ideas and information. Many U.S. universities held gatherings to connect local alumni and researchers who’d come for the conference. The United Nations also coordinated private sector meetings and commitment-making.

Another was consciousness-raising. For days, adults and schoolchildren lined up to see the gorgeously creative Humanidade 2012 exhibit, held in a temporary structure built next to the Copacabana Fort. An estimated 200,000 people got the chance to have artists and intellectuals provoke thought about lifestyle and the environment. The Rio and São Paulo industrial federations footed the bill.

And the local watchdog organization Rio Como Vamos did a survey that found that a staggering 74% of the local population knew about the conference and what it was up to. The 1,800 people surveyed were from different parts of the city, with a variety of income levels and ages; this should help when it comes to the spread of recycling and local cleanup efforts.

Last but certainly not least are real measures and goals that were announced before and during the conference. These include:

  • The creation of the Bolsa Verde Rio, a market to trade carbon credits and other environmental compensation mechanisms, to aid companies in meeting Brazilian legal requirements for environmental sustainability
  • As a result of a demonstration near the Riocentro, a planned meeting between representatives of Vila Autódromo residents unhappy about their removal due to Olympic preparations,  with UN and Brazilian government officials
  • The 2012 Rio Declaration, an agreement among Brazilian and other governors to reduce energy consumption in public buildings and greenhouse gas emissions caused by transportation by 20% by 2020, in addition to other measures
  • A decision by the C40 Cities mayors’ summit to reduce carbon emissions in 58 cities and to share information on sustainability. These cities, home to 320 million people and the source of 21% of world GDP, are responsible for 12% of the world’s emissions. Rio is set to reduce emissions by 12% by 2016. Even so, these are expected to increase— just less than they would, otherwise.
  • A proposal by the Rio de Janeiro industrial federation to privatize sewage collection, treatment and disposal
  • The creation of a U.N. sustainability research center, the Centro Rio +
  • A Banco do Brasil loan to clean up the lagoons in Barra da Tijuca
  • A proposal from city hall to be voted on by the city council, to allow tax incentives for green construction methods and and building design

Twenty years after the 1992 Earth Summit, so much has changed. An enduring memory of this blogger of that U.N. conference is people excitedly lining up to try out a new payment form for public phones, a thin card replacing the traditional token. It was a time when the Soviet Union had just crumbled and the Berlin Wall was newly demolished. Brazilian indigenous groups made cameo appearances to remind us of their environmental roles, just as they did last week.

Assuming the earth will continue to exist, who knows what Rio will look like in twenty more years? Much will depend on young people such as those pictured above, clowning around at the Humanidade 2012 exhibit.

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Gentrificação, a new word in Portuguese

Imagine what Rio will look like by the time the Olympic torch is lit– and after

Rio, a city of encounters

Will the city’s more accessible and safer favelas be a laddered version of Santa Teresa, with funky pizzarias and tapas bars, cool sidewalk music and superb views? Will many of their residents, land titles in hand, have sold up and moved to Guaratiba, Santa Cruz or Rio das Pedras? Will the city then continue divvied up into pockets of the like-minded, with funkeiros, hipsters and Country Club members each snuggling in their comfort zones?

Or will Rio manage to maintain and feed a rich mosaic that draws us across zones and through tunnels into the sort of chance encounters that spark creativity and light up lives?

Urban myths abound. One is that zero tolerance for broken windows and the like helped to revive New York City. Another may be that land titles empower the poor.

Land titling

A pioneer land titling effort in Rio’s South Zone Cantagalo favela is examined in a book published last year by Paulo Rabello de Castro: Galo Cantou: A conquista da propriedade pelos moradores do Cantagalo [The Rooster Crowed: The conquest of property by the residents of Cantagalo]. In order to begin the titling process, a team of young volunteer lawyers had to convince Governor Sérgio Cabral to change the state constitution.

Comprehensive land titling is now the policy of both Rio’s state and city government, following a precept first stated in the 1980s by Peruvian economist Hernando de Soto. He said that a deed brings access to credit, information and other benefits of the formal market economy.

So it was a bit of a shock recently to hear favela advocate Jailson de Souza, longtime resident of the North Zone Complexo da Maré, talk about how to prevent gentrification. “The last step should be land titling,” he said, adding that favela residents need time to gain the economic, cultural and educational wherewithal to keep their homes.

Construction at the edge of Pavão-Pavãozinho favela, Ipanema

De Souza said he supports the creation of “cultural spaces”, utilizing Rio’s 1992 APAC (Áreas de Proteção de Ambiente Cultural) model, which focuses on protecting physical buildings.

In Recife, zoning has been a fairly effective mechanism to protect low-income housing from speculation, according to Brazilian lawyer and urban planner Edesio Fernandes’ Lincoln Institute of Land Policy Report, Regularization of Informal Settlements in Latin America. Fernandes cites a study saying that a Special Zone of Social Interest, known by the Portuguese acronym ZEIS, with “… limits on plot sizes, building heights, and number of plots allowed per individual, can significantly reduce development pressures in newly regularized communities when used in conjunction with titling programs”.

In some Latin American cities, policymakers tried to limit the transfer of newly titled property by requiring approval from residents’ associations or banning sale for several years (the case with Minha Casa Minha Vida apartments). Such schemes, says Fernandes, have merely led to new types of informal transactions.

Soon to be overtaken by events?

Perhaps to the advantage of those who agree with de Souza, in Rio a large-scale titling process is expensive, bureaucratic and slow, with only a handful of favela residents in possession of a deed so far.

Meanwhile, favela rents and property values are rising fast, construction is boominga growing number of foreign residents may constitute a vanguard, and gentrification is clearly taking place in parts of the formal city contiguous to pacified favelas.

Nevertheless, not much debate is taking place.

Of course, gentrification doesn’t (so far) much affect areas such as the North Zone’s Complexo do Alemão. But the South Zone’s income mix, fed by proximity to beaches, is arguably at the core of the entire city’s vibrant lifestyle that is so attractive to both natives and visitors. And in an era when we live so much in the virtual world, a vibrant urban lifestyle is a unique and terrible thing to waste.

Nossa Senhora da Paz Square: self-taught musician is practicing his music

Community Land Trusts: favela housing owners could make money

Back in the 1960s, some Americans were concerned about the fate of those being pushed out of low-income neighborhoods. This is when the Community Land Trust (CLT) model was created, with a commitment to “balancing individual and community interests”, according to the Community Land Trust Handbook.

The key issue in creating a land trust model is how to preserve some degree of market value while protecting a community from real estate booms or speculation, or both.

Is this possible? One of the oldest community land trusts was created in 1984 in Burlington, Vermont, reportedly to protect parts of the city from a booming weekend home market (spurred by wealthy New Yorkers). An impact study has revealed long-term positive results. There, the trust (i.e. the community) intermediates purchases and sales. Owners can earn 25% of the increase in value that occurs between the time they buy and sell a home. The study found that owners did accumulate wealth while affordability was preserved.

The percentage could be adapted to the Rio market.

Additional features of  a Community Land Trust

  • Land is treated as a common heritage. Title to multiple parcels is held by a single non-profit owner that manages these lands on behalf of a particular community, present and future.
  • Land is removed from the market at large, never resold by the non-profit owner. Land is put to use, however, by leasing out individual parcels for the construction of housing, the production of food, the development of commercial enterprises, or the promotion of other activities that support individual livelihood or community life.
  • Structural improvements are owned separately from the land, with title to buildings held by individual homeowners, business owners, housing cooperatives, etc.
  • A ground lease lasting many years gives the owners of these structural improvements the exclusive use of the land beneath their buildings.

The Vermont trust emerged with government and activist support, and a municipal grant to help it get started. Of course this is just one example, which could be adapted to different environments. And there are other frameworks being used  to prevent gentrification in the U.S. and other Latin American countries.

Over the years, the Vermont trust has developed a variety of housing and community roles linked to its original mission.

Juice bars are inviting to all

Clap your hands if you believe in fairies

To set up structures along these lines in Rio de Janeiro would require an enormous amount of patience, idealism, and determination. So many values and assumptions would need to change. Community participation, once strong in Rio favelas, but undermined by drug traffickers, would have to pick up steam. And policymakers would have to rethink a generally top-down approach.

Also, rules are needed for collective decision-making– and they must be widely observed. “Economic pressure to bypass such rules and sell plots informally became widespread in Mexican ejidos located near fast-growing cities, thus undermining the original community goals,” Edesio Fernandes reports.

Gentrification is only one of many issues challenging Brazil’s unequal, autocratic and classist society. Rio’s turnaround is part of a larger picture, in which millions have left poverty over the last decade, to an unprecedented extent gaining access to information, markets and virtual networks.  Little of this is reversible, and it implies huge long-term changes in attitudes and behaviors.

Now is the time to create arenas for community participation and the legitimization of institutions and laws. For democracy is a process, slow and painful, and there are no alternatives.

More construction in Pavão-Pavãozinho

What those in the know are saying

“If people who are really interested in preserving the community “on the hill” are serious, they have to find mechanisms to empower the community independent of  the state, politics and the private sector,” says Robert Wilson, founder of Startup Rio. Wilson, who’s working on a venture capital initiative to prevent gentrification of favelas, suggests a comprehensive program whereby residents would learn how to own, control and administer the land and buildings in their communities in partnership, and to generate revenue individually and collectively.

Matias Sueldo wrote about gentrification for his newly-earned Yale Law School degree, completed in conjunction with a Masters in Public Administration at the Kennedy School of Government. He suggests that Rio consider either government concessions for land use with limited transfer rights, or titling with strict zoning regulations. “Either way,” he adds, “Rio’s titling policy needs to be re-thought before gentrification drives some of its oldest and most vibrant communities to society’s margins”.

Theresa Williamson, who founded the favela advocacy non-profit Catcomm, notes that Rio’s favelas, the product of decades without regulation or zoning legislation,  are problems becoming opportunities. “Ultimately these neighborhoods provide affordable, well-located housing, each different from the other with unique manifestations of cultural and architectural development,” she says. “A Community Land Trust model would allow each communities’  assets to be determined, strengthened and consolidated”.

The Ipanema mix, now connected more than ever

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Secretário de segurança pública no Rio reclama de atendimento social e da falta de informações sobre moradia

Sinais de tensão entre estado e município

For Rio security chief not happy with social programs nor housing info click here

Ao escrever a manchete para essa entrevista longa e bem aberta com o Secretário estadual de Segurança Pública José Mariano Beltrame, o jornal O Dia enfatizou a iniciativa do estado na utilização (e, pela primeira vez, o pagamento) de policiais militares em folga. A novidade visa reduzir o déficit policial e as estatísticas de crime na Baixada  fluminense.

Mas o texto está recheado de informações novas, sobretudo com uma leitura entre as linhas.

“As ações sociais não têm a velocidade e a pontualidade que eu entendo que deveriam ter para dar resposta social após uma intervenção policial,” ele  disse a O Dia.  Há mais de um ano o secretário manifestou a mesma queixa, e parece que nada mudou.

Uma mudança– seria em função de pressão vindo de Beltrame?– é a chegada de nova liderança na UPP Social. Em agosto, a atual Secretária municipal de Finanças Eduarda de la Rocque irá assumir a presidência do Instituto Pereira Passos (que dirige a UPP Social), substituindo Ricardo Henriques, que passará a presidir o Instituto Unibanco em São Paulo. De la Rocque não tem experiência com assuntos sociais no âmbito urbano, mas é uma executiva de resultados. Em menos de dois anos ela virou as finanças municipais ao ponto da agência Moody’s classificar o Rio em nivel de investment grade, em dezembro de 2011. No recente evento Rio Investors Day, ela propôs a criação de um fundo para atrair o setor privado para uma parceria mais intensa com a cidade, para atender às necessidades sociais.

José Marcelo Zacchi, coordenador da UPP Social sob Henriques, deixou recentemente esse cargo para se juntar à equipe da IETS, um thinktank que se dedica a questões urbanas. Tiago Borba o substitui. Tanto Henriques como Zacchi já comentaram com RioRealblog que suas saídas se tratam simplesmente de novas oportunidades de carreira; a transição de liderança para de la Rocque não poderia ser mais amigável.

Beltrame disse que a cidade parece ter uma malha educativa adequada, pelo menos em termos de número de escolas. Mas ele apontou a empregabilidade como um ponto nevrálgico para os moradores de favela, dizendo que eles frequentemente não têm consciência do mundo além de onde vivem.

“Mesmo quando existem, os programas nem sempre atingem todos que necessitam,” ele acrescentou. “Na Cidade de Deus, por exemplo, há o Projeto Rio 2016 para a criançada, oferecido pela Secretaria [estadual] de Esporte e Lazer. Há 400 crianças participando e mais de mil na fila para fazer esporte.”

Transporte é questionado também

Beltrame também assinalou que não se rastreia a densidade urbana de maneira adequada. Isso cabe à Secretária municipal de Habitação. Ativistas urbanos já criticaram o Secretário Jorge Bittar por falta de organização, pela péssima comunicação e a pouca atenção aos direitos humanos na tarefa de relocação urbana.

Chegaram aos ouvidos do RioRealblog rumores dizendo que se o prefeito atual Eduardo Paes se reeleger em outubro (resultado provável), Bittar irá sair do cargo. A secretaria dele também ultrapassou por mais de um ano a data prevista de execução dos 40 projetos que ganharam o concurso 2010-2011 de arquitetura e urbanismo Morar Carioca.

O presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil Sérgio Magalhaes– que concebeu e administrou o concurso– talvez seja o substituto dele.

Ao ser perguntado se as políticas de crescimento habitacional estão de acordo com a política de segurança, Beltrame disse que os programas de moradia devem existir, mas que o que ele precisa, tecnicamente, são números sobre a densidade urbana. “Se a população crescer em determinadas áreas sem o nosso conhecimento, fatalmente vamos ter, depois de algum tempo, uma deficiência de policiais nestas regiões. Se tivermos cinco mil pessoas em um programa habitacional e não houver transporte adequado para elas, a possibilidade de criação de um serviço de transporte alternativo por milicianos ou outros grupos clandestinos é muito grande.”

Disse que já pediu informações nesse sentido à prefeitura, e não recebeu resposta.

Desafios enormes

A prefeitura está sobrecarregada não apenas com a conferência ambiental da ONU Rio + 20 desta semana, que traz uns 50 mil visitantes e surte pressões na capacidade da cidade para suprir demandas para transporte, segurança pública, limpeza urbana e alojamento (com milhares acampados no Sambódromo e em tendas na Quinta da Boa Vista), mas com o trabalho do dia a dia.

“A Secretaria de Habitação não tem gente capacitada suficiente para acompanhar os 40 projetos do Morar Carioca,” disse um arquiteto familiarizado com o programa, cuja meta é urbanizar até 2020 todas as favelas do Rio de Janeiro, ou seja entre 700 e mil comunidades.

O Dia perguntou ao Beltrame se a nova política de utilização de policiais de folga ajudará na luta contra as milícias. Aparentemente, a pergunta do jornal se baseava na ideia de que uma renda adicional pode dissuadir policiais da atividade miliciana, mas o Secretário respondeu que o aumento na cobertura policial sempre ajuda na luta contra o crime.

Num almoço recente com jornalistas estrangeiros, Beltrame explicou que um complicado trabalho de inteligência, responsabilidade da Polícia Civil, é necessário para derrubar as milícias.  Taxado por ele como o fenômeno mais próximo ao crime organizado que o Rio de Janeiro teria, as milícias criam redes que envolvem vans, gás de botijão, máquinas de vídeopoquer, taxas em transações imobiliárias, proteção, extorsão, e políticos. Contudo, no código penal brasileiro não consta uma lei específica contra tais grupos, que torna a tarefa de prendê-los mais difícil do que colocar na prisão traficantes de droga. “É difícil prender um policial de folga que está aí armado, fazendo um trabalho de segurança pela milícia,” ele disse.

As milícias predominam na Zona Oeste, e também na Baixada, foco regional na nova política para incrementar a presença policial. Os policiais terão a oportunidade para mais do que dobrar o salário de base, de meros R$ 1.625 por mês.

Otras pepitas:

  • Sobre a milícia em Campo Grande, Zona Oeste, “Fomos no foco dela, prendemos gente muito importante, mas a parte social não foi feita. O policial vai ter que ficar lá para fiscalizar os serviços de TV a cabo, gás, água, sinal de internet, ônibus? Eu digo isso, senão vão dizer que não combatemos a milícia, que o problema é de segurança. Da mesma forma, se a gente entra no Jacaré e fica só com a polícia lá, ficamos fadados ao insucesso.”
  • Beltrame diz que vê evidência de crescimento nas favelas, especialmente na Zona Sul. “A minha preocupação principal é com o que pode acontecer no futuro. Quero ver daqui a 10, 15 anos. Não dá para esperar 10 anos para ter resultado de um Censo (do IBGE) para nos planejarmos,” ele avisou.
  • Muitos observadores pensam que as UPPs estão levando o crime a migrar. “Na Zona Sul tivemos pessoas presas, que eram [da favela não pacificada do morro do] Jacaré. Em Niterói, de 400 pessoas presas, 30 eram do Rio. Não dá para dizer que não há migração, mas ela é pequena. A questão é a oportunidade, a facilidade que existe em determinadas áreas,” Beltrame disse a O Dia.
  • Sobre armas e munição, Beltrame sugeriu a criação de uma força nacional investigativa. “Precisamos ter informações dos produtores sobre quem compra, sobre a origem. Mas não é feito,” ele se queixou.
  • Na opinião de Beltrame, nem a metade do que é preciso fazer já se completou. Mas o secretário disse que deixa uma “estrutura” para o sucessor, que inclui o o prédio do Centro Integrado de Controle de Comando, a Cidade da Polícia, o Centro de Operações Especiais da Polícia Militar, novas instalações da Secretaria de Estado de Segurança (hoje abrigada no prédio da Central do Brasil), e a compra de câmeras para rastrear por volta de dois mil veículos policiais.
  • Até 2014 pelo menos 40 UPPs estarão funcionando, e Beltrame tem esperança de que o Rio estará na faixa de dez a doze homicídios por 100 mil habitantes. Hoje, a taxa é 24; o Rio já conviveu com 6o e a taxa estava em 40 quando ele entrou na Secretaria, há cinco anos e meio. Há  23 UPPs agora, com mais quatro chegando ao Complexo da Penha e uma na Rocinha.
  • O estado do Rio tem uma taxa de resolução de homicídios de trinta a  32 por cento. A meta do Beltrame é 100%, e ele diz que uma polícia técnica científica está a caminho. A taxa era de quatro a cinco por cento quando ele entrou. Um relatório da Human Rights Watch publicado em 14 de junho disse que o Rio de Janeiro precisa se empenhar mais para investigar mortes cometidos por policiais.
  • Por último, o secretário disse não ter planos políticos, e quer se aposentar no fim do segundo mandato do governador Sérgio Cabral em 2014, para poder acompanhar a infância de pelo menos um de seus três filhos.


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