Polícia do Rio opta pelo policiamento de proximidade, enfim

Equipe dos sonhos descreve seus planos de segurança pública para o mandato 2015-2018 do governador Pezão 

ggg

Comandante Geral da Polícia Militar, coronel Alberto Pinheiro Neto, Chefe de Estado-Maior, coronel Robson Rodrigues da Silva e Secretário Estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame

Se os novos encarregados de nossa segurança tiverem êxito, o polêmico termo autoritário, “pacificação”, utilizado no Rio desde 2008, pode em breve cair em desuso. No seu lugar, policiais disseram na sexta-feira passada, eles estendem a mão à sociedade civil, para que lhes ajude a trabalhar de maneira menos violenta e mais eficaz, na missão de fazer da metrópole um lugar seguro. Como é o caso de muitas cidades grandes pelo mundo.

For Rio cops opt for proximity policing, at last, click here

Não se trata de uma primeira tentativa. Nos tempos iniciais da pacificação (com o próprio coronel Robson Rodrigues no cargo de comandante das UPPs, de 2010 a 2011), descrevia-se o programa como policiamento de proximidade (o que na verdade, surgia de programas pilotos anteriores). Mas ele e outros administradores policiais, que compartilhavam ideias semelhantes, foram afastados e deu-se prioridade à meta anunciada de criar 40 unidades de pacificação policial até a Copa do Mundo de 2014 — sem a devida preocupação pela qualidade do policiamento que elas faziam. Grande parte das medidas divulgadas na sexta-feira fazem parte de uma avaliação de impacto de 2012, publicada recentemente em formato de livro.

ddddd

As metas são muitas, para o policiamento de proximidade

Como se viu em uma entrevista de agosto 2014 no jornal O Globo, com Rodrigues,  e como esta blogueira constata, ao observar os eventos dos últimos anos, também dificultaram a reforma policial a corrupção policial, divisões e resistência à mudança internas, o autoritarismo e uma predileção pela violência.

Sem fuga?

O que ainda é o caso. Desta fez, porém, existe uma grande novidade: as autoridades policiais dizem que o policiamento de proximidade será a política não apenas nas favelas, mas no resto da metrópole — e, de fato, até 2018, em todo o estado. Nesse sentido, o governo estadual deve publicar dois decretos nesta semana: um constituirá um conselho para a segurança pública — atuante — , capitaneado pelo governador Pezão; o outro irá estabelecer metas e mecanismos de monitoramento policiais.

SONY DSC

Muita coisa a se fazer

O primeiro Batalhão Legal será na Tijuca, e fala-se dele como sendo uma UPP do asfalto, ou seja, na parte formal da metrópole.

Abrindo mão de toda e qualquer ferramenta disponível (menos mudar um artigo na Constituição, que prevê uma polícia militarizada em cada estado, o que tem suscitado propostas de revisão), a equipe nova parece querer tanto seduzir como coagir o efetivo policial, para que adote novos comportamentos. Sexta-feira, divulgaram planos para mais apoio à saúde mental e física de policiais, menos burocracia, a decentralização de decisões e a utilização de quadrantes para identificar e lutar contra o crime.

Ao mesmo tempo, a nova declaração de missão inclui uma lista de valores encabeçada por “hierarquia e disciplina” — e, notavelmente, o novo Comandante Geral, Pinheiro Neto, já liderou a BOPE, batalhão dos maiores durões da polícia fluminense (para fazer um contraste, veja os valores da polícia de Nova York).

ddddd

Rubem César Fernandes, fundador da ONG Viva Rio: um de muitos que apoiam, com felicidade, a nova política

Se isso tudo não for o suficiente para cativar a tropa, o secretário Beltrame  fez questão, na sexta-feira, de assinalar que 74% do pleito de outubro de 2014, em áreas pacificadas, foi para o governador Pezão, cuja eleição representava alguma forma de continuidade da política de segurança pública já em vigor. “É um índice silencioso”, disse ele, acrescentando que, para muitos moradores de favela, a urna eleitoral é o único lugar para se fazer ouvir sem receio.

A longo prazo, a pacificação diminuiu o crime na cidade, mas em meados de 2013 ela saiu dos trilhos. As manifestações de rua se tornaram perigosas, manchando uma imagem que a polícia tinha acabado de melhorar. No começo deste mês de janeiro, a revista Veja publicou uma reportagem dizendo que, naquela época, um comandante policial e seus subordinados trocaram uma enxurrada de mensagens no Whatsapp, enaltecendo a violência e incitando sua prática, chegando ao extremo de fazer referência à Alemanha nazista. Depois, veio a tortura policial e morte do morador da Rocinha, Amarildo, seguida por um número crescente de casos de tiros direcionados a policiais, resultando em mortes em favelas pacificadas e em outros lugares da cidade. As estatísticas de crime começaram a dar saltos.

Pode ser que a pior notícia, para a Polícia Militar, tenha surgido em setembro último, com a prisão de 22 policiais, entre eles o terceiro do comando geral do efetivo, pelo que pode ser caracterizado como crimes de milícia (e Beltrame na sexta-feira indicava que há mais limpeza pela frente, dizendo que “a curto prazo, há situações difíceis que vão acontecer”).

A nova política — apesar de ter sido apresentada por meio de um cansativo formato Power Point, repleto de jargão policial e de difícil leitura — arrancou aplausos do auditório do novo Centro Integrado de Comando e Controle.  Estavam presentes autoridades municipais e estaduais e da justiça, representantes de entidades de direitos humanos e de ONGs — enfim, praticamente os atores principais que lutam diariamente para tornar o Rio um lugar melhor.

Jailson de Souza e Silva, diretor do Observatório de Favelas, falou de “esperança renovada” — e aproveitou para lembrar que há grande necessidade para maior coordenação entre o município e o estado, já que o Exército, que ocupa o Complexo da Maré, não consegue tirar os trailers de comida das calçadas da região. Rubem César Fernandes, fundador da ONG pioneira, Viva Rio, disse que o Rio passara por uma “disagregação da sociedade” durante o recente período eleitoral, e falou da importância de se ter fé num programa que ele vê como “muito promissor e difícil de realizar”.

Uma área que ainda pede maior atenção é o sistema de justiça, que tende a rapidamente libertar prisioneiros, que então voltam ao crime. Beltrame disse que Fabrício Mirra, ex-PM e miliciano condenado por homicídio, sua pena já cumprida, estará de volta às ruas do Rio nesta semana.

A nova política policial também irá depender do êxito de uma recente iniciativa municipal para criar parcerias com a sociedade civil e com o setor privado, para atender às necessidades sociais, algo que o Beltrame demanda há muitos anos.

A segurança é prioridade, de acordo com o governador Pezão, que está cortando outros gastos face a uma queda esperada na receita estadual. Estranhamente, porém, houve relatos, na semana passada, de uma escassez de combustível para as viaturas policiais. No contexto das metas ambiciosas anunciadas na sexta-feira, encher o tanque talvez seja a menor das preocupações da polícia (mas essa explicação em potencial indica a possibilidade de questões maiores).

Posted in Brasil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , , , , , , , , , , | Leave a comment

Rio cops opt for proximity policing, at last

Dream team describes public safety plans for 2015-2018 Pezão gubernatorial mandate 

ggg

Military Police Commander General Colonel Alberto Pinheiro Neto, Chief of Staff Colonel Robson Rodrigues da Silva and Rio de Janeiro State Public Safety Secretary, José Mariano Beltrame

If those in charge succeed, the controversial top-down term “pacification”, used here since 2008, may soon fall into disuse. Instead, police said yesterday that they are reaching out to civil society to help them do a better, less violent job of keeping Rio safe. Like many big cities in the world.

This is not the first such attempt. In the early years of pacification (with Colonel Robson Rodrigues in the post of UPP commander from 2010 to 2011), the program was described as proximity policing (which actually dated back to other pilot programs). But he and other like-minded police officials were sidelined, and priority was given to reaching the stated goal of 40 pacification units in time for the 2014 World Cup — without much concern for the quality of policing these were doing. Many of the measures announced yesterday were included in a 2012 impact evaluation, recently made available in book form.

ddddd

Goals for proximity policing are many

As is evident in an O Globo newspaper interview given by Rodrigues last August and from this blogger’s observation of events over the last several years, police corruption, internal divisions and resistance to change, authoritarianism and a predeliction for violence also posed challenges to police reform.

No escape?

As they do now. This time, however, there is one big difference: top police administrators say that proximity policing will be the policy not only in favelas, but in the rest of Rio — and, indeed, in the entire state by 2018. To this effect, the state government is to publish two new decrees next week, one establishing a hands-on public safety council, chaired by Governor Luis Fernando “Pezão” de Souza; and one setting out police goals and monitoring mechanisms.

SONY DSC

Loads to do

The first “Batalhão Legal” (Friendly Battalion) will be set up in the North Zone neighborhood of Tijuca, and is being presented as a pacification unit on the asphalt, or formal part of the city.

Utilizing every available tool (aside from changing an article in the national constitution, which provides for a militarized police force in every state and has drawn calls for revision), the new team seems to be aiming to both seduce and coerce police into adopting new behaviors. Yesterday, they announced improved support for police officers’ physical and mental health, less bureaucracy, decentralization and the use of quadrants to pinpoint and fight crime. At the same time, the new mission statement includes a list of values topped by “hierarchy and discipline” — and notably, new military police commander Pinheiro Neto was previously chief of the force’s tough-guy elite squad, BOPE (check out the NYPD’s values, in contrast).

ddddd

Rubem César Fernandes, founder of NGO Viva Rio: one of many pleased supporters of the new policy

As if all this were not enough to get the troops on the bandwagon, Rio state Public Safety Secretary José Mariano Beltrame took care to note yesterday that 74% of the October 2014 vote in pacified areas went to Governor Pezão, whose election represented some form of public safety policy continuity. “This is a silent measure,” he said, adding that, for many favela residents, the ballot box is the only place where they can safely make their voices heard.

Over the long term, pacification has brought crime down citywide, but it went off the rails in mid-2013. Street demonstrations turned perilous, tarnishing an image that police had only recently begun to turn around. Earlier this month, Veja magazine reported that,  at that time, a police commander and his subordinates exchanged a flurry of Whatsapp messages glorifying and inciting each other to violence, going so far as to make reference to Nazi Germany. Then came the police torture and death of Rocinha resident Amarildo, followed by an increasing number of shooting incidents resulting in police deaths, in UPP favelas and elsewhere. Crime stats began to spike all over Rio.

Perhaps the worst news for the Military Police came last September, with the arrest of 22 officers, including the force’s third man in command, for what amounts to paramilitary crimes (and Beltrame yesterday did hint that more cleansing is to come, saying that “difficult situations will occur in the short term”).

The new policy — though presented in an overly long, jargon-filled and  barely legible Power Point format — brought applause from audience members yesterday.  These included city and state officials, court officials, human rights and NGO representatives — basically just about every individual involved in the struggle to make Rio a better place.

Observatório de Favelas director Jailson de Souza e Silva spoke of “renewed hope” — and pointed out that there really is a need for increased state/city coordination, as occupying army troops have been unable to remove food trailers from sidewalks in the Complexo da Maré. Rubem César Fernandes, founder of the pioneering NGO, Viva Rio, noted that Rio had seen “societal disaggregation” during the recent electoral period and called for faith in a program that he saw as “very promising and very difficult to deliver”.

An area yet to be fully addressed is the justice system, which quickly tends to free prisoners, who then return to crime. Beltrame noted that Fabrício Mirra, a former military police officer and miliciano convicted of murder, his time served, will be back in the streets of Rio next week.

The new policy will also depend on the success of a municipal initiative to partner with civil society and the private sector, towards improved provision of social services, something Beltrame has long demanded.

Although Governor Pezão, newly-sworn in, has been announcing significant budget cuts in the face of expected drops in revenue, he’s made clear that public safety is a priority. Strangely however, last week saw reports of short gasoline supplies for cop cars. Given the ambitious goals that the cops announced yesterday, it looks as though this will be the least of their worries (although this possible explanation points to it being part of a larger issue).

Posted in Brazil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , , , , , , , , , | 2 Comments

Will Rio sink along with Petrobras?

SONY DSC

The region that was counting on oil: one day, the mayor of Itaguaí (last on the right) participates in a seminar in downtown Rio. Soon after, he’s the subject of a Federal Police investigation

It’s just the start. But — maybe — the crisis can at least partly save us from future petroleum curses.

“Chemtech, a company located at the UFRJ technology park at the Ilha do Fundão and part of the Siemens group, has already laid off 720 engineers,” columnist Miriam Leitão wrote in O Globo newspaper last week.

Para O Rio afunda junto com a Petrobras?, clique aqui.

According to O Globo, the petroleum sector produces almost 30% of Rio de Janeiro state’s GDP and 60% of investments planned for the 2014-2016 period. Sunday, the paper published an overview of the effects of the crisis on the national and state economies, and on the oil rich cities of Macaé and Itaboraí.

We’ll certainly experience a significant drop in state economic activity, partially offset by 2016 Olympic Games investments and construction, and by the consumer spending of those who recently left poverty.

In one of the Globo pieces, state Economic Development Secretary Júlio Bueno spoke frankly. “‘We’re going through a crisis and this will affect Rio. Daily, companies come to me seeking help. We try to contact Petrobras. There’s no way. Initially, we’ll have problems, layoffs,’ says Bueno, who expects the company to bounce back quickly.”

Everything was going so well. In June, the president of the national development bank, the BNDES painted a rosy future for the state of Rio.

“There’s a massive volume (of investment), concentrated in Rio de Janeiro … So along the entire coastal area there’ll be opportunities to develop important complexes — ports, logistics, equipment production,” Luciano Coutinho was quoted as saying, in the site G1 only six months ago.

In 2012, Petrobras had determined it would buy the Military Police headquarters, downtown, to put up a second office building (but the police — and their horses — are still there). The company has long spent lavishly to support concerts, theater and film, as well as the marvelous favela youth projectAgência de Redes para Juventude.

The energy sector’s first tremor hit Eike Batista’s X companies. His “fall” marked not only the national and state economies, but the face of the city. The Rodrigo de Freitas lagoon, which Eike had cleaned up, is losing its gleam, despite the attraction of the floating Christmas tree sponsored by the Bradesco bank. The Hotel Glória, which Eike was going to remodel in time for the Olympics, saw work halt for a long time, leaving a blank space in the neighborhood.

Then came the drop in oil prices and Operação Lava-Jato, a Federal Police investigation begun in March of this year, which has paralyzed not only Petrobras, but the oil business overall and even the selection of new ministers for President Dilma Rousseff’s second term, which starts in just a few days.

The situation is reminiscent of London, which was in the midst of an economic boom when chose to host the 2012 Olympics. And then came the 2008 crisis…

Brazil’s most important builders are involved in the Petrobras construction cartel and executives’ bribery for contracts scandal, in which part of the money is said to have gone into politicians’ and political parties’ budgets. Many of the accused companies are involved in Rio de Janeiro’s most important projects, such as the Metrô Line Four extension, the Olympic Park, and the revitalization of the SuperVia commuter trains.

There is resistance to the idea of taking Operação Lava-Jato to all of its final consequences, according to at least one columnist. Some government officials have said that if the construction companies were taken to court and punished for the corruption they’re being accused of, Brazil would come to a halt. It really is hard to imagine Rio’s construction sites at a standstill. (Up to now, no one has officially mentioned the possibility of opening the construction market to foreign builders. Brazilian companies have dominated the market since Brasília was built, in the late fifties.)

Such works aside, the city and the metropolitan region are already feeling the effects of the crisis. It’s frightening to consider what will happen with the ongoing port area revitalization, for example, where new commercial buildings will significantly increase the city’s available office space. For a time, we may well have a nicely expanded urban center  — with not much vitality.

Says O Globo: “In the Rio office space rental market, oil companies are downsizing or opting for buildings with lower rents, says Ricardo Varella, vice president of the Colliers consulting firm, in Rio: ‘The oil and gas sector accounts for half the rental office space in Rio. About 10% of this group have already renegotiated contracts, bringing prices down by 20%.'”

Paychecks are also shrinking, according to the newspaper’s report, by up to 40%.

The impact on state government revenues may affect expenditures, a worrisome prospect at a time when increased spending is expected (and needed) on items such as public safety.

For those who are losing income and/or jobs, the situation is pretty depressing. It’s worth keeping in mind, however, that inequality in the state did not improve at the same rate as seen in the Southeast region overall, in the last several years, because relatively high oil and gas salaries skewed the Gini index. Perhaps we’ll see some realignment here, depending on the ripple effects of the crisis.

For those who feel that renewable energy sources have a brighter future than petroleum, the oil slowdown could be good news, if the Brazilian government can figure out how to make the most of this opportunity.

And there’s another possible positive effect: with fewer petrorreais flowing in both national and state economies, we might just see fewer surreal situations such as the one that RioRealblog recently experienced: an upbeat speech, at a seminar on the city of Itaguaí (part of the metropolitan region), which receives plentiful oil royalties and boasts a port used by Petrobras, by mayor Luciano Mota — who days later was featured in news reports of a Federal Police investigation of his allegedly pocketing a third of the city’s monthly revenue, of US$ 34 million equivalent.

Posted in Brazil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , | Leave a comment

O Rio afunda junto com a Petrobras?

SONY DSC

A região que contava com o petróleo: um dia, o prefeito de Itaguaí (último à direita) é participante em um seminário no centro do Rio. Outro, ele é objeto de investigação da Polícia Federal

É só o começo. Mas — quem sabe–  a crise pode nos salvar, em parte pelo menos, de maiores amaldiçoes petrolíferas.

“Já são 720 engenheiros demitidos pela Chemtech, empresa do grupo Siemens com base no parque tecnológico da UFRJ, na Ilha do Fundão,” escreveu a colunista Miriam Leitão no jornal O Globo, semana passada.

De acordo com O Globo, o setor de petróleo produz quase 30% do PIB estadual do Rio de Janeiro e 60% dos investimentos programados para o período 2014-2016. Domingo passado, o jornal publicou um resumo do impacto da crise no setor sobre a economia nacional, estadual e nas cidades de Macaé e Itaboraí.

Teremos, certamente, uma queda significativa na atividade econômica do estado, parcialmente amenizada pelos investimentos e obras ligados aos Jogos Olímpicos de 2016 e pelo consumo daqueles que há pouco saíram da pobreza.

Em uma das matérias, o secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Júlio Bueno, falou de maneira sincera. “- Estamos passando por uma crise, e isso afetará o Rio. Diariamente, empresas me procuram pedindo ajuda. A gente tenta contatar a Petrobras. Não tem jeito. Num primeiro momento, devemos ter problemas, demissões – prevê Bueno, que estima recuperação rápida da empresa.”

Tudo ia tão bem, há tão pouco tempo. Em junho, o presidente do BNDES pintava um futuro cor de rosa para o estado do Rio.

“Tem volume maciço, tem concentração grande no Rio de Janeiro. No Rio, é claro que tem investimentos na bacia um pouco fora, mas o grosso está no Rio de Janeiro. Então, a região toda litoral do Rio vai ter oportunidade de desenvolver grandes complexos importantes, portuária, logística, e de produçao de equipamento”, disse, há seis meses, Luciano Coutinho ao site G1.

Em 2012, a Petrobras acertara a compra do quartel-geral da Polícia Militar, no centro da cidade, para construir um segundo prédio (mas a PM ainda está lá, inclusive com seus cavalos). Na área cultural, a empresa esbanjava dinheiro, apoiando shows, teatro e filmes e também, o maravilhoso projeto para jovens de favela, a Agência de Redes para Juventude.

O primeiro abalo no setor energético foi das empresas X, de Eike Batista. A “queda” dele marcou não apenas a economia do estado e a nação, mas a face da cidade. A Lagoa Rodrigo de Freitas, cuja limpeza o Eike custeava, está perdendo o brilho, apesar dos atrativos da árvore de Natal flutuante, patrocinado pelo Banco Bradesco. O Hotel Glória, que Eike ia reformar em tempo para as Olimpíadas, teve as obras paralisadas por muito tempo, deixando um vácuo no bairro.

Aí veio a queda do preço de petróleo e a Operação Lava-Jato, uma investigação da Polícia Federal, iniciada em março deste ano, que paralisou não apenas a Petrobras, mas o setor de petróleo como um todo e até a escolha dos novos ministros para o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff.

O cenário lembra um pouco Londres que, na época de ser escolhida para sediar as Olimpíadas de 2012, experimentava um boom econômico. Aí veio a crise de 2008…

Todas as empreiteiras mais importantes no país estariam envolvidas no escândalo de cartel e propinas pagas, por contratos, a executivos da Petrobras, parte das quais teriam ido para os balancetes de candidatos e partidos políticos. Muitas das empresas acusadas estão empenhadas nos maiores projetos do Rio de Janeiro, como a extensão do Metrô, o Parque Olímpico e a revitalização dos trens suburbanos da SuperVia.

Existe um receio de levar a Operação Lava-Jata até todas as últimas consequências, de acordo com pelo menos um articulista. Algumas autoridades já disseram que, se as empreiteiras fossem responsabilizadas pelos subornos que supostamente praticaram, o Brasil iria parar de vez. Realmente, é difícil imaginar os canteiros parados em todo o Rio de Janeiro. (Até hoje, ninguém menciona, oficialmente, a possibilidade de abrir o mercado de construção a empresas internacionais. As empresas brasileiras dominam o mercado desde a construção de Brasília.)

Obras à parte, já há reflexos da crise petroleira por toda a cidade e a região metropolitana. É assustador cogitar o efeito da crise sobre a revitalização da área do porto, por exemplo, onde a construção de prédios comerciais deve aumentar sensivelmente a oferta escritórios na cidade. Pode ser que, por um bom tempo, tenhamos daqui a pouco um centro urbano expandido, porém com pouca vitalidade.

Diz O Globo: “No mercado de locação de espaços corporativos carioca, as empresas de petróleo estão reduzindo a estrutura atual ou optando por prédios que garantam custo de aluguel menor, diz Ricardo Varella, vice-presidente da consultoria Colliers, no Rio: – O setor de óleo e gás responde por metade do mercado de aluguel de espaços corporativos no Rio. Cerca de 10% deste grupo já renegociaram contratos, derrubando o preços em 20%.”

Os salários também diminuem, de acordo com a reportagem do jornal, em até 40%.

O impacto na receita do governo estadual pode afetar os gastos, uma questão preocupante num momento em que se espera maiores gastos em áreas como a segurança pública.

Para quem perde renda e/ou emprego, a situação é bastante desalentadora. Vale a pena lembrar, porém, que a desigualdade no estado não acompanhou a melhora constatada, nos últimos anos, da região sudeste, justamente por causa do viés dos altos salários no setor de petróleo e gás. Talvez vejamos um certo realinhamento nesse sentido, dependendo dos efeitos da crise na cadeia como um todo.

Para quem vislumbra mais futuro em fontes de energia renováveis, a desaceleração do setor de petróleo pode ser uma boa notícia, se o governo brasileiro souber aproveitar a oportunidade.

E há um outro efeito positivo, em potencial: com menos petrorreais fluindo pela economia nacional e estadual, quem sabe teremos menos situações surreais como a que o RioRealblog presenciou recentemente: um discurso otimista, num seminário sobre o município de Itaguaí (que faz parte da região metropolitana), que recebe royalties e tem um porto utilizado pela Petrobras, pelo prefeito, Luciano Mota que, soubemos  dias depois, estaria desviando um terço da receita mensal municipal, de R$ 90 milhões.

Posted in Brasil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , | 2 Comments

Cidade Maravilhosa para quem? For whom is the Marvelous City?

ccc

Residents protesting in 2011. They had a plan to upgrade their community, instead of moving out

Acabei de publicar um post no blog de Ruth de Aquino no site da revista Época — minhas reflexões sobre o novo documentário de Felipe Pena, que trata da remoção dos moradores da Vila Autódromo. No post, falo do contexto geral e divulgo algumas informações aparentemente inéditas. Leia o post original aqui.

I just published a post in Ruth de Aquino’s blog on the Época magazine site — my thoughts on Felipe Pena’s new documentary about the removal of Vila Autódromo residents, just next to the Olympic Park. In the post I discuss the general context of the removals and provide some heretofore unpublished information (as far as I know). You can read the original post here, or the following translation:

Late last month, I got to attend the premiere of the documentary “Se essa vila não fosse minha” (If this settlement weren’t mine), by director Felipe Pena. It’s quite a moving film, portraying Vila Autódromo residents’ hardships and the way they feel about them. The message, however, is a bit confusing.

Taking apart a story like this one is no easy task.

In every city, worldwide, eminent domain powers are used and resident removal occurs, sometimes because of mega-events, sometimes for other reasons.

The main issue is how this is carried out. In Brazil, land of inequality where housing for the less fortunate is rarely thought out fairly and with justice, there’s a complicating factor: usually, residents of informal areas don’t have title to the land where they built their homes. So even if they receive the total investment they’ve made through the years, in bricks, cement, tiles, etc., they won’t be able to find a place in the same neighborhood where they can recreate the lives they had before the land was taken over.

In addition, the other alternative — an apartment in a Minha Casa Minha Vida (government housing) building — even when well constructed and without additional charges beyond residents’ budgets, often doesn’t provide the same experience of community and commercial potential that favela residents are used to counting on.

In Rio de Janeiro, Vila Autódromo, recently home to more than 500 families, is located on the shores of a lagoon in the city’s West Zone, near the main 2016 Olympic venue. The former fisher families’ outpost has become a reference, particularly for foreign journalists, in reports on resident removal connected to the Olympics.

But Vila Autódromo isn’t all that typical. To begin with, most residents have documents allowing them to occupy the land for 99 years, granted by Governors Leonel Brizola and Marcello Alencar.

The community also developed an urbanization plan, together with Rio de Janeiro’s Federal University’s Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, and the Fluminense Federal University’s Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos  — a plan which in 2013 won the US$ 80,000 Deutsche Bank Urban Age Award.

The award was to be announced in the presence of mayor Eduardo Paes, during a fancy ceremony and celebration at the Palácio da Cidade, in October 2013, during the Urban Age Conference — organized by the London School of Economics with support from Rio’s City Hall. At the last moment however, strangely, this was all canceled. Two months later, the winning project was announced during a discreet ceremony.

As is the case with other removals, Vila Autódromo had its homes marked in spray-painted letters and numbers and has put up with unkept promises, pressure and negotiations, lack of reliable information and now, demolition machinery and lots of dust.

In August 2013, during a meeting with residents, the mayor admitted the process left much to be desired. He said he’d consider the possibility of letting them stay in their homes at Vila Autódromo, until then set aside as an area where construction was not to be permitted, over part of which the dedicated bus lanes of the Transolímpico BRT are supposed to pass.

Social issues carry a great deal of weight for those who organize Olympic Games, so much so that in 2012, London reurbanized a downtrodden section of the city where the event was held. So far, there is no sign that the International Olympic Committee has demanded the removal of Vila Autódromo, in any sort of bid to clean up the Park surroundings.

In the film “Se essa vila não fosse minha”, there’s a great deal of talk about “real estate speculation”. It’s an unhelpful term that introduces a vague notion of a person or company that buys land to wait until it increases in value.

Vila Autódromo’s land belongs to the state of Rio de Janeiro and is today part of a region undergoing rapid development, in large part due to the selection of Barra da Tijuca as the Games’ central location. Nearby, the developer Carvalho Hosken and construction company Odebrecht are building the enormous neighborhood-development called Ilha Pura (Pure Island), whose upscale 32 buildings will house the athletes. Carvalho Hosken, Odebrecht and the consrtruction company Andrade Gutierrez form the consortium that’s  building the Olympic Park.

Mayor Eduardo Paes knows the region well. It’s where he worked as sub-mayor from 1993 to 1996, named to the post by then-mayor César Maia. That job launched the young man’s political career. At 27, Paes was the most-voted city councilman, in 1996.

For his last election, to a second term as mayor, in 2012, some of the companies that made donations to his campaign were Banco Itaú-Unibanco, Barra Shopping, Coesa Engenharia (which makes urban equipment), Ambev, Schincariol — and Carvalho Hosken, whose founder and president, Carlos Fernando de Carvalho, was part of the  2009 Rio de Janeiro delegation to Copenhagen to present what turned out to be the city’s winning candidacy for the 2016 Olympics.

Other companies may have donated funds to Paes’ current political party, the PMDB, to be passed on to several political campaigns.

Up to now, City Hall hasn’t said what exactly, if anything, will occupy the space that used to be Vila Autódromo, once all the residents are gone (which should be soon; Felipe Pena’s film shows the Secretaria Municipal de Obras demolishing empty homes and damaging those of folks who chose to stay).

In the photo above, readers can see that residential buildings already exist close to the Vila.

“We’re standing on magnates’ parking garages,” comments a Vila Autódromo resident in the movie, amid rubble left by city workers.

Every city changes and undergoes population shifts. Every demolition causes change and suffering. This is what the documentary shows.

“Democracy for the rich,” says one resident.

As a gringa, I’ve always heard the saying that has guided many an athlete, coined by American sportswriter Grantland Rice: “It’s not whether you win or lose, it’s how you play the game”.  But it could turn out, for the Marvelous City as Olympic host, that another quote is more appropriate — the one from football coach Vince Lombardi: “Winning isn’t everything; it’s the only thing.”

Posted in Brazil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , , , , , , , | Leave a comment

“Either we transform the police or shut down everything, lock it all up and throw the key in Guanabara Bay”

Tirando a armadura?

Removing the armor? (Rio police symbol)

These were the words of the just-appointed interim commander of the Military Police, colonel Íbis Silva Pereira, in an interview yesterday with O Globo newspaper.

After years of investment in reforms that many observers find insufficient, the statement can only be seen as both an unburdening and a gamble, both regarding the core of the city’s turnaround. Without public safety, nothing in Rio has value, ultimately, for anyone.

Para Ou a gente transforma a polícia ou fecha tudo tranca e joga a chave na baía de Guanabara, clique aqui

In Brazil, police forces, traditionally divided up by task and partially militarized, find difficulty in working together to solve and bring down crime. They also have little experience with on-the-spot responsibility and decision-making.

A report just issued by the Forum Brasileiro de Segurança Pública (Brazilian Public Safety Forum) found that the cost of violence comes to six percent of national GDP  — and that nationally, Brazilian police killed more people in five years than American police did, in 30.

It’s hard to say why the newspaper didn’t give more play to the colonel’s statement. He’s on the job until January, when he becomes chief of staff for Colonel Alberto  Pinheiro Neto, who’ll then take up the post of commander.

Public safety specialists were pleasantly surprised by Silva Pereira’s appointment. He himself, some say, was thinking of leaving the force soon. He represents an embattled reformist school that values human rights and community policing, in conflict with a deeply-rooted war on crime, in a context of worrisome police corruption.

The new commander’s approach springs from a previous reform attempt in the 1980s, under the command of Colonel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, when Leonel Brizola governed the state of Rio. In 1999, Cerqueira was shot dead in the lobby of a building near the Santos Dumont airport — allegedly by a military police officer.

Silva Pereira told Globo that he intends to change the military police statute, which dates to 1981, “to aproximate or perhaps even equal, the speed at which punishment and expulsions for transgressions occur for soldiers and officers. We propose that the exclusion procedure be the same for all”.

He has already appointed Colonel Wolney Dias to the position of Military Police Director for Internal Affairs, with the goal of “bringing Internal Affairs closer to other agencies, such as the Public Safety Secretariat’s Intelligence Department, the Unified Internal Affairs Office — and civil society groups”.

This sounds quite reasonable.

Silva Pereira said that Dias will also oversee police work and the degree to which police rights are met, such for as vacation and days off.

The interim commander proposes the creation of a drug prevention program in UPP (pacified) favelas and a partnership with the Guarda Municipal to patrol the streets of formal areas of the city.

Only the future can tell how much of a welcome such practicality will receive in Military Police battalions.

 

Posted in Brazil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , , , , , | Leave a comment

“Ou a gente transforma a polícia ou fecha tudo, tranca e joga a chave na baía de Guanabara.”

Tirando a armadura?

Tirando a armadura?

Assim falou o recém nomeado comandante interino da Polícia Militar, o coronel Íbis Silva Pereira, em uma entrevista com o jornal O Globo, ontem.

Depois de anos de investimento em reformas que, para muitos, deixaram a desejar, trata-se de um grande desabafo e uma grande aposta, ambos focados no âmago da transformação da cidade. Sem segurança pública, nada no Rio vale a pena — para ninguém.

As polícias brasileiras, compartmentalizadas por tarefa e parcialmente militarizadas, têm dificuldade em trabalhar em conjunto para solucionar crimes e reduzir as estatísticas. Também têm pouca experiência com a responsabilidade individual e a tomada de decisões.

Um relatório divulgado nesses dias pelo Forum Brasileiro de Segurança Pública alertou que o custo da violência chega a quase seis porcento do PIB — e que, em todo o país, A polícia brasileira matou mais gente em cinco anos do que fez a polícia norte americana em trinta.

É difícil saber porque o jornal não tenha dado mais destaque à declaração do coronel, que fica no cargo até janeiro, quando deve se tornar chefe de gabinete do também coronel Alberto  Pinheiro Neto, que então assumirá o cargo de comandante.

Especialistas da área de segurança pública vêem a nomeação de Silva Pereira como uma surpresa agradável. Ele mesmo, comentam alguns, cogitava deixar a corporação em breve, pois representa a linha reformista que preza os direitos humanos e o policiamento comunitário, linha que estaria em conflito com uma filosofia bem arraigada de guerra contra o crime, num contexto de níveis preocupantes de corrupção policial.

A linha do novo comandante tem base numa tentativa anterior de reforma, nos anos 1980, durante o comando do coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira, quando Leonel Brizola era governador do estado. Cerqueira foi assassinado em 1999 no saguão de um prédio perto do aeroporto Santos Dumont — supostamente por um policial militar.

Silva Pereira disse ao Globo que pretende mudar o estatuto da PM, que data de 1981, “para aproximar ou, até mesmo, igualar a rapidez para punições e expulsões entre oficiais e praças, em caso de transgressões. A proposta é que o ritual de exclusão seja único, com os mesmos prazos e recursos”.

Ele já nomeou o coronel Wolney Dias para o posto de corregedor da PM, com o objetivo de de “aproximar a Corregedoria da PM de outros órgãos — como a Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, a Corregedoria Geral Unificada (CGU) — e de entidades da sociedade civil”.

Parece uma ideia sensata.

Disse Silva Pereira que Dias também irá fiscalizar o trabalho de policiais e o cumprimento dos direitos deles, como férias e folgas.

O comandante interino propõe a criação de um programa de prevenção do uso de drogas em favelas com UPPs e o patrulhamento de ruas nas áreas formais da cidade em pareceria com a Guarda Municipal.

Resta saber se tanta praticidade encontra acolhimento nas batalhões da Polícia Militar.

 

 

 

Posted in Brasil, Transformation of Rio de Janeiro / Transformação do Rio de Janeiro | Tagged , , , , , , | Leave a comment